De volta a campo: chef Ricardo Lapeyre garante que aprendeu com os erros
Ele está abrindo dois bares de uma vez, o Peixoto, em Copacabana, e o Capote, em Botafogo
A história parecia se desenhar como muitas na alta gastronomia: filho do chef francês Claude Lapeyre, Ricardo Lapeyre mudou-se para a França aos 17 anos, formou-se em hotelaria e passou por cozinhas estreladas antes de voltar ao Rio.
A bagagem lhe rendeu um posto na cozinha do saudoso Laguiole, no MAM e, aos 25 anos, foi considerado chef revelação de VEJA RIO COMER & BEBER 2013.
Dois anos mais tarde, o carioca voltou ao pódio da premiação com a Brasserie Lapeyre, que conquistou a placa de melhor francês.
De lá para cá, o caminho foi tortuoso, mas não faltaram lições.
Aos 38 anos, Lap, como é chamado por amigos íntimos, trocou a solenidade de outrora por um clima descontraído. E ele não está abrindo só um, mas dois bares de uma vez. “Queria um lugar para chegar de bermuda, sentar com amigos, tomar um chope. É disso que eu gosto”, afirma.
Em Copacabana, acaba de ser inaugurado o Peixoto Bar, parceria com Beni Schvartz, dono da peixaria Peixoto, instalada em frente — os insumos preferidos do chef chegam fresquíssimos.
Em setembro, vem a Capote Rotisseria, em Botafogo, definida como “um francês de rua, com sotaque e alma cariocas.”
Ao lado do sócio Júlio Ramalho, com quem trabalhou no Laguiole e no Hippopotamus, Lapeyre vai enfileirar numa frangueira — a “televisão de cachorro” — galeto, joelho de porco e paleta de cordeiro.
A última década foi marcada por ambiciosas aberturas de restaurantes, rompimentos bruscos de sociedades, uma investida mal-sucedida em São Paulo e passagens furtivas por casas em que conferiu aos menus a mistura de brasilidade e técnicas clássicas que o consagrou.
Em 2021, abriu o Escama, primeira empreitada que considera inteiramente autoral. Divergências na gestão levaram à venda de sua participação. “Foi a saída mais dolorida, porque eu tinha pensado em cada detalhe”, lamenta.
A passagem pelo Prosa, no Jardim Botânico, também foi breve e pôs fim a uma longa amizade com Manu Zappa. “Ele sequer apareceu para a inauguração”, desabafa a chef.
Em 2024, Lapeyre abriu o Le Bulô, em São Paulo. O negócio faliu antes de completar um ano, deixando prejuízo.
Sócio no projeto, o chef Elia Schramm, outro talento formado nas fileiras do Laguiole, compara o ex-amigo ao jogador Neymar. “Começou a carreira cercado de grandes promessas, mas cometeu muitos erros. Perdemos dinheiro por irresponsabilidades dele.”
Lapeyre admite que poderia ter gasto menos na obra, preservado mais capital e escolhido um número menor de parceiros. “Todo mundo perdeu grana ali”, rebate.
Já o restaurateur Marcelo Torres, dono do Laguiole, defende o pupilo: “Ricardo é um craque na cozinha, faz tudo com perfeição.”
O boom do turismo no Rio é perceptível nas filas de espera em bares e restaurantes do Centro e da Zona Sul, e esse momento frutífero propicia investimentos em boas operações gastronômicas (veja abaixo).
Nesse cenário, Lapeyre se prepara para um desafio grandioso: assumir a consultoria de um sport bar e um restaurante de 250 lugares em pleno Maracanã.
Ambos serão voltados também ao público que visita o complexo fora dos dias e horários de jogo.
Rubro-negro fanático, o chef bate ponto no estádio como torcedor e está ansioso para mudar de perspectiva.
“Pareço uma criança diante da primeira vitória do time”, emociona-se.
A “camisa 10” do cardápio será uma parrilla de 2 metros, alimentada por lenha e carvão, com predomínio das carnes, mas bacalhau, polvo e outros frutos do mar também vão pintar por lá.
Lapeyre tem a certeza de que inicia agora um capítulo “pé no chão” da própria trajetória.
“Aprendi o suficiente para não repetir os erros do passado”, garante. Para quem já sabe que talento sozinho não ganha campeonato, os novos projetos surgem como a chance de escalar repertório, gestão e maturidade no mesmo escrete.
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Mesas movimentadas
Casas prestes a abrir as portas no Rio
Em setembro:
La Villa Café, Brunch & Bistrô.

O francês de Grégoire e Sheryl Fortat amplia seus domínios e se instala também no Leblon. A filial abrirá cedinho para café da manhã, oferecendo pães, geleias, patês, terrines e outras delícias feitas na casa. À tarde, passará a servir os sabores queridinhos da matriz, em Botafogo.
Crudo. O bar de Monique Gabiatti, que funcionou em uma pop-up no antigo Be+Co, em Botafogo, vai voltar em grande estilo, anexo ao Polvo Bar, um dos sucessos da chef. Ostras frescas, ceviches, tartares, ussuzukuris e outros acepipes vão dar o tom do cardápio marítimo.
Banchan.

Nova empreitada do chef e empresário peruano Marco Espinoza, o espaço em Botafogo será pioneiro em churrasco coreano na cidade. Sob o comando de Juliana Picorelli, o menu vai adaptar técnicas e sabores asiáticos ao paladar carioca, de olho em dorameiros e curiosos.
Balcão Margot. No BarraShopping, o bistrô francês do Grupo Pulse, de Fabio e Duda Dupin, será capitaneado pelo chef Damien Montecer. Receitas tradicionais servidas em panelinhas, sem cerimônia, serão apresentadas num longo balcão.
Forno Paradiso. Mais uma aposta do Grupo Pulse no BarraShopping, o negócio reunirá estações dedicadas a pizza, panificação, charcutaria, confeitaria e bar. Uma trattoria ocupará o centro da grande mercearia, que terá adega para até 4 000 garrafas. Cursos e degustações estão previstos.
Em outubro:
Divina. O novo projeto dos sócios do Encarnado Burger consiste num speakeasy intimista, com capacidade para trinta pessoas em Botafogo. Jéssica Trindade, chef do ano por VEJA RIO COMER & BEBER, está criando o menu e Vitória Kurihara assina a carta de drinques.
Le Jazz.

Nascida em São Paulo há 16 anos, a marca enfim pousará em solo carioca. A quinta e maior unidade da brasserie vai ocupar o Shopping Leblon, levando para o endereço os clássicos pratos franceses e a atmosfera descontraída que a consagraram.
La Candela. O imóvel na esquina das ruas Aníbal de Mendonça e Barão da Torre, em Ipanema, onde funcionou o Gero, vai receber a ambiciosa empreitada do Grupo Pulse, com pegada ibérica.





