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Morre Eduardo Gallotti, fundador das rodas de samba modernas do Rio

Fundamental para a revalorização do gênero na década de 90, artista tinha 58 anos e lutava há tempos contra um câncer nas cordas vocais

Por Kamille Viola Atualizado em 12 Maio 2022, 14h22 - Publicado em 12 Maio 2022, 14h19

Morreu na madrugada desta quinta (12), aos 58 anos, o cantor e compositor Eduardo Gallotti. Ele lutava contra um câncer nas cordas vocais e estava internado na Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul. O sambista passou mal na noite de quarta (11) e foi levado ao hospital.

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Gallotti foi um nome fundamental na revalorização do samba nos anos 90, funcionando como um elo entre a Zona Norte e o Centro e a Zona Sul, em uma época em que o gênero andava meio em baixa por essas bandas. Fundou as rodas do Mandrake, em Botafogo (ainda no fim dos anos 80); do Sobrenatural, em Santa Teresa; do Severina, em Laranjeiras; do Bar Emporium 100, na Lapa; do Trapiche Gamboa e do Candongueiro, em Niterói. Abriu caminho para a geração de sambistas que revitalizaria a Lapa nos anos 2000.

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Ele começou a cantar samba nos saraus do Colégio São Vicente, no Cosme Velho, onde estudou. Era autodidata no cavaquinho, mas chegou a estudar por dois anos com o também sambista Henrique Cazes. Em 1984, largou a faculdade de Biologia e passou a cantar na noite. Nessa época, conheceu grandes nomes do samba, como Zeca Pagode e Almir Guineto era o auge da chamada geração do pagode.

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Integrou os grupos Diz Isso Cantando, Éramos Seis, Orquestra Republicana e Anjos da Lua esses dois últimos comandaram os famosos bailes no Clube dos Democráticos, na Lapa, nos anos 2000. Assinou sambas para os blocos Simpatia É Quase Amor, Suvaco do Cristo, Bloco de Segunda, Barbas, Meu Bem Volto Já e Imprensa que Eu Gamo, entre outros. Lançou dois álbuns solo: O Samba das Rodas (2002) e Quem Me Conhece (2015).

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Há alguns anos, Eduardo Gallotti descobriu um tumor nas cordas vocais e começou a batalha contra a doença. Precisou retirar a laringe e um pedaço da faringe, e parou de cantar. Mas, em novembro do ano passado, fez seu retorno aos palcos, no Trapiche Gamboa, tocando cavaquinho. Em entrevista ao Globo, na época, deixou um recado: “Queria deixar a mensagem para as pessoas pegarem leve no fumo e na bebida e fazerem atividade física. Aconselho todos que usem a voz para trabalhar a procurarem um otorrino de seis em seis meses.”

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Em março, postou em seu Facebook vídeos em que aparece fazendo um som com um enfermeiro no hospital. “O CTI do Copa Star virou uma roda de samba. O enfermeiro Carlos, do grupo 5 Tons de Preto, pegou o pandeiro e cantou um samba do imortal Luiz Carlos da Vila, e o cavaco falou. Viva o samba da Baixada, viva a cultura dos pretos do nosso Rio de Janeiro”, escreveu Gallotti.

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Nas redes, fãs e colegas de profissão lamentaram a partida do sambista:

“A primeira vez que ‘fui à Lapa’ eram os Anjos da Lua tocando. A reocupação do bairro pelo samba incêndio que me abrasaria logo menos ainda era uma fagulha. Eu não conhecia nenhum daqueles artistas e aquela noite transformaria a minha vida. Foi meu primeiro contato com o Gallotti. Tudo ali era notável: o repertório sagaz (e infinito), a voz única e o cavaco solto, a vagabundear todo o resto com uma fluidez que não deixava dúvidas: esse cara é o próprio samba. O lançamento de ‘O Samba das Rodas’ só corroborou minha percepção e esse disco ocupou imediatamente um assento permanente no meu panteão íntimo. (…) Gallotti deixou uma marca por onde passou. Transformou seu arredor, o que julgo ser a mais urgente e nobre missão humana.”

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João Cavalcanti, cantor e compositor

 

“Em 2003, antes de o Samba do Trabalhador nascer, Gallotti fazia um show de lançamento do seu primeiro disco toda segunda-feira no Carioca da Gema, na Lapa. Eu, ainda menor de idade, sempre dava um jeito de arrumar um amigo mais velho para entrar como meu responsável no recinto. Estava começando a vida no samba, e tinha em Gallotti uma das minhas maiores referências. (…) Gallotti, além de ser pioneiro neste movimento que trouxe o samba de volta ao seu lugar, um pouco esquecido na década de 90, era um IMENSO conhecedor do assunto, provavelmente o maior que conheci. Além disso, um intérprete único. Cantava como ninguém, gozando de si mesmo, com as letras dos sambas que só ele sabia. (…) Que honra imensa foi ter tido o privilégio desse aprendizado todo. Que honra imensa é poder dizer que, mais que fã, virei seu amigo.”

Gabriel da Muda, cantor e compositor

 

“Parem todas as rodas de samba, da zona norte à zona sul. Silenciem o pandeiro, o surdo, o violão, o cavaquinho. Perdemos Eduardo Galotti.”

Luís Filipe de Lima, violonista e compositor

 

“Triste pela morte do Eduardo Gallotti, personagem chave para entender o renascimento da Lapa (e do samba na Lapa) entre a década de 90 e os anos 2000. Sempre no meio das melhores rodas do Sobrenatural, Trapiche e Democáticos, educou e devolveu o samba a uma geração de cariocas.”

João Paulo Cuenca, escritor

 

“Porra, gente, morreu o Eduardo Gallotti. TUDO que foi feito de samba entre o Centro e a Zona Sul do Rio o renascimento do gênero, a popularização entre os mais jovens (lembremos que era uma época da música quase sempre medíocre ‘de boate’) tem o dedo desse cara tão gentil. As rodas de Santa Teresa, que desceriam pra Lapa, o Lavradio 100, o Semente, o Carioca da Gema. Há quem tenha nascido ontem e se sinta um Candeia contemporâneo, mas quem estava lá viu quem capinou na mata fechada. Como o Gallotti, que nos deixou sem saber como lidar com sua falta.”

Marcelo Moutinho, escritor

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