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Arqueóloga procura crânio do homem mais antigo das Américas

Sem medo de polêmicas, a arqueóloga Maria Beltrão escava o sertão baiano atrás de um fóssil que pode mudar o conhecimento da pré-história brasileira

Por: Sofia Cerqueira - Atualizado em

Arqueóloga Maria Beltrão
A pesquisadora na Toca da Esperança: à caça de ancestrais remotos do homem (Foto: Felipe Fittipaldi)

A cidadezinha de Central, no sertão baiano, é daqueles lugares desprovidos de qualquer atrativo. Localizada a 510 quilômetros a oeste de Salvador, entre Irecê e Xique-Xique, tem 18 000 habitantes e uma economia que se resume às minguadas plantações de milho, feijão e mamona em meio à caatinga. O comércio é parco e as construções, simplórias. É nesse ambiente estéril que a arqueóloga Maria Beltrão desembarca todos os anos para suas escavações. A última delas ocorreu no mês passado e foi acompanhada por VEJA RIO. São ocasiões festejadas pelos moradores, em que a professora do Museu Nacional e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) costuma ser tratada como celebridade. “Madame, é uma honra ter a senhora de volta à cidade”, desmancha-se um morador obsequioso ao ver a cientista vestida como se fosse uma versão feminina do personagem Indiana Jones. “Me diga, o que posso fazer pela senhora?”, insiste ele. “Primeiro me chama de Maria. Depois reza para eu encontrar o homem fóssil”, respondeu, sem titubear.

Incansável, a pesquisadora completará 80 anos no próximo dia 12 e acredita que vai fazer uma descoberta espetacular naquele fim de mundo — o tal “homem fóssil” a que ela se referiu na conversa com o morador. Para a arqueóloga, a gruta batizada de Toca da Esperança, nos arredores da cidade, abriga remanescentes de homens que habitaram a região milhares de anos antes dos moradores atuais, isso sem falar em espécimes que viveram há mais de 300 000 anos e nem mesmo eram homens ainda, pois estavam alguns degraus abaixo de nós na escala evolutiva, como o Homo erectus. É uma proposta excêntrica e que passa muito longe do atual consenso científico, principalmente quando se leva em conta que o mais antigo remanescente encontrado em território brasileiro é o crânio de uma mulher descoberto em Minas Gerais, datado em 11 500 anos — a famosa Luzia, exposta na Quinta da Boa Vista. Qualquer um que avance além dessa data sem exibir um osso devidamente datado por tecnologias de ponta corre o risco de passar por um doidivanas. “Me chamam de maluca e lunática. Não me importo, estou convicta de que o povoamento humano das Américas é tão antigo quanto o da Ásia ou da Europa”, brada ela.

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Divergências acadêmicas à parte, é fato que Maria desempenha um papel importante para o conhecimento do passado remoto do Brasil. A cada escavação que realiza na Bahia, são coletadas em média três caixas de material para estudos, cada uma com 20 quilos de ossos de animais extintos e artefatos de rochas. “Poucos profissionais reúnem uma formação interdisciplinar, uma visão global e um trabalho tão sistemático como ela”, destaca a arqueóloga Rhoneds Perez, coordenadora de extensão do Museu Nacional. Todo esse material abastece a coleção da instituição na qual Maria trabalha há 55 anos. Em um campo de estudo que exige generosos financiamentos para custear as expedições a lugares remotos como Central, Maria paga tudo do próprio bolso. Cada uma das expedições custa em média 50 000 reais, despesa que ela assume sem pestanejar. 

Quadro arqueóloga Maria Beltrão
Equipe realiza busca na gruta baiana: trabalho minucioso e paciente (Foto: Felipe Fittipaldi (escavação)/o alto do sertão/reprodução (pintura)/De Agostini Picture Library/Getty Images (preguiça)/ Werner Forman/Getty Images (artefato)/Encyclopaedia Britannica/Getty Images (Homo sapiens)/Marcos Hermes (Lucy))

Viúva de Hélio Beltrão, ex-ministro nos governos Costa e Silva e Figueiredo, a arqueóloga nasceu em Macaé, filha de um fazendeiro. É mãe da apresentadora de TV Maria Beltrão, de 42 anos, da restauratrice Cristiana, 44, e do executivo Hélio Marcos, de 47. Quando não está no Rio ou em uma de suas três viagens anuais ao exterior, pode ser encontrada na fazenda da família, em Paraíba do Sul, cujas instalações datam de 1703. Lá, mantém a prática de cavucar o terreno atrás de relíquias. Em suas expedições de vinte dias à Bahia, não abre mão de seu estilo de vida: está sempre maquiada, com óculos escuros Dior e relógio Chanel. Viaja ao sertão em jatinho fretado, que pousa em uma pista de Irecê, cidade vizinha a Central. Mas as mordomias param aí. Habituada a uma vida requintada em seu apartamento com vista para o mar em Ipanema, onde tem à disposição duas empregadas, uma governanta e um armário repleto de roupas de marcas como Cavalli, Yves Saint Laurent e Armani, Maria se hospeda no único hotel do lugarejo, daqueles com banheiro coletivo no fim do corredor. Para chegarem à gruta, ela e a equipe — duas arqueólogas, uma aluna e cinco mateiros — sacolejam por mais de uma hora dentro de um carro em uma precária estrada de terra. Durante o trabalho de campo, quando se anda de meias nas áreas demarcadas para que nada seja quebrado, todos precisam estar alertas para não ser picados por aranhas e barbeiros. As escavações terminam impreterivelmente às 4 da tarde por culpa do que Maria qualifica como “as malditas”. “É no fim da tarde que as jararacas e cascavéis saem das tocas”, explica a professora. Com um currículo robusto, enfeitado por especializações na França e um Ph.D. em arqueologia e geologia, ela já explorou sítios no interior do Paraná, de São Paulo e do Rio. Mas gosta mesmo é do sertão. “É nesse trabalho de campo que me realizo”, conta. Ali, degusta carne de bode, toma cerveja com os locais e aprecia as rodas de violeiros que os moradores costumam organizar em sua homenagem.

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Exposição do crânio Lucy
Visitantes apreciam o crânio de Lucy, no Texas: descoberta histórica (Foto: Craig Hartley)

É em meio à área de escavações na Toca da Esperança, onde o chão é todo demarcado com quadrados divididos por barbantes, que a professora recorda os primórdios de sua pesquisa na região. Segundo ela, os primeiros indícios de que poderia achar ali o antepassado mais remoto do homem nas Américas surgiram em 1987. Ossos de animais pré-históricos como tatus e preguiças-­gigantes encontrados na área foram enviados a um laboratório em Gif-sur-­Yvette, na França, e a datação indicou que tinham pelo menos 300 000 anos. Junto dos ossos estava uma pedra lascada, que Maria afirma ser uma ferramenta antiga. Entusiasmado com os achados, o conceituado arqueólogo francês Henry de Lumley enviou uma missão à Bahia. A equipe encarava a descoberta com desconfiança. Mas a mulher do pesquisador, a arqueóloga Marie-Antoinette Lumley, achou uma peça que identificou como um chopper, a ferramenta usada pelos homens mais primitivos. “Esse artefato confirma a minha tese de que um ancestral do homem  moderno viveu aqui”, defende. Calcula-se que existam no Brasil cerca de 20 000 sítios arqueológicos, entre eles a Serra da Capivara, no Piauí, e a região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, de onde saiu Luzia. A maioria dessas áreas foi descoberta por acaso, como a Toca da Esperança. A arqueóloga chegou à gruta depois de receber uma caixa com ossos fossilizados enviada por uma prima que vivia na Bahia. Ao visitar o local de onde foram retiradas as amostras, descobriu nos arredores áreas com pinturas rupestres. Desde 1982, a equipe de Maria é a única a explorar esse manancial de relíquias.

A arqueologia é uma ciência alimentada por vaidades. Medalhões do ramo brigam pela primazia de quem faz uma descoberta espetacular. Foi o que aconteceu na década de 70 quando o paleontólogo americano Donald Johanson apresentou ao mundo Lucy, um esqueleto feminino desencavado na Etiópia. O achado provou que homens-macaco de 3,6 milhões de anos já podiam andar eretos. Nos anos 90, foi a vez de artefatos encontrados no Chile comprovarem a presença humana na região austral do continente há mais de 12 500 anos, bem antes do que se imaginava. Convencida de que o povoamento é ainda mais remoto, Maria se vale dos objetos que acredita terem mais de 300 000 anos e defende a migração de nossos ancestrais da África do Sul para a América do Sul num período de glaciação. Em sua interpretação, o nível do mar teria baixado e ilhas e pontes de gelo se formado entre os continentes. “O que ela diz é uma insanidade e o que apresenta como provas não passa de pedras lascadas pela ação natural”, ataca o arqueólogo Walter Neves, responsável pela identificação e datação do crânio de Luzia. “É natural que alguém que não compartilha o senso comum sofra críticas. Mas a ciência avança em função de pessoas que têm ideias diferentes”, contemporiza o paleontólogo Sérgio Alex Azevedo, ex-diretor do Museu Nacional. Como grandes aventureiros, Maria Beltrão sonha escrever o seu nome na história. Até agora, no entanto, pode-se dizer que ela tem um trabalho importante na pesquisa e coleta sistemática de material. O que está longe de ser pouca coisa.

Fonte: VEJA RIO