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Empreendedoras cariocas usam as redes sociais para superar barreiras

Estudo mostra que as mulheres foram mais prejudicadas na pandemia. Para além de uma vitrine comercial, a estratégia digital fortalece a relação com clientes

Por Caroline Névoa* 28 jun 2021, 18h08

Crise escolhe gênero? Empreendedores em todo o mundo foram impactados pela pandemia de Covid-19, mas a situação tem sido ainda mais difícil para as empreendedoras.

O estudo Womenomics: COVID-19’s Impact on Goldman Sachs 10,000 Women and 10,000 Small Businesses Alumni, publicado neste mês de junho pelo Goldman Sachs mostra que embora já houvesse barreiras de gênero no empreendedorismo antes da pandemia, o novo coronavírus intensificou os desafios que mulheres enfrentam, como acesso a financiamento, confiança e divisão do tempo para dedicação à família.

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O cenário é mais preocupante no Brasil pois, segundo o estudo, as brasileiras são as que mais prejudicadas pelos impactos econômicos da pandemia de Covid-19.

A professora Luisa Martins, que supervisiona a Coordenação de Empreendedorismo do IAG, Escola de Negócios da PUC-Rio, explica que há uma escassez de estudos sobre empreendedorismo feminino no país, mas os poucos existentes atestam que elas enfrentam obstáculos a mais simplesmente por serem mulheres.

Segundo a professora, os desafios vão das barreiras de aceitação, principalmente em mercados majoritariamente masculinos, até a dificuldade de equilibrar o papel de empreendedora com os papéis desempenhados em casa, com a família.

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– Elas são mais cobradas no cuidado com os filhos e com a casa, e, mesmo que não realizem diretamente estas tarefas, em geral, são responsáveis por administrar casa, escola dos filhos, comida, e sentem-se culpadas quando não conseguem equacionar a relação trabalho x família.

Luisa destaca que o contexto de incertezas da pandemia é um desafio para todos os empreendedores, que precisaram repensar suas estratégias e ações para se adaptar às mudanças sociais e mercadológicas.

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Um dos maiores aliados do comércio são as redes sociais, ferramentas baratas e de fácil acesso, mas que, de acordo com a professora, precisam estar alinhadas aos objetivos do negócio. Pois é justamente pelas redes sociais que muitas mulheres empreendedoras vêm conseguindo superar algumas das barreiras que enfrentam.

Para Luana Bonilha e Marina Louro, de 21 e 20 anos – as idealizadoras da Mil Criações, loja online de acessórios com quase 3 mil seguidores no Instagram – as redes sociais são indispensáveis, já que são o canal de venda da marca.

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As sócias contam que o trabalho que desenvolvem no Instagram, a principal fonte de renda da Mil Criações, vai além de mostrar os produtos, é uma estratégia que visa a construção de uma relação entre a marca e os clientes.

– Mais do que postar fotos bonitas, nós usamos o poder das redes para aumentar a percepção de valor dos clientes em relação a nossa marca. Por meio de conteúdos relevantes em que os clientes possam se identificar e se inspirar, eles constroem uma relação de afeto e admiração pela Mil Criações. Passam a atribuir um valor maior ao produto, contribuindo, assim, para o sucesso das vendas.

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Luana e Marina destacam que uma das maiores dificuldades que enfrentam enquanto jovens empreendedoras é a falta de credibilidade, que acontece, segundo elas, por dois fatores: uma visão trabalhista conservadora, que não percebe o trabalho na internet como “sério”; e a idade e gênero de ambas.

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– É comum que mulheres não recebam o apoio para levar um projeto adiante ou sejam questionadas a respeito do próprio trabalho, bem como os jovens, sempre colocados em uma posição inferior. Por conta dessa conjuntura social, nós, enquanto mulheres de 20 e 21 anos, sentimos que devemos provar o valor do nosso trabalho a todo tempo, enquanto homens mais velhos, por exemplo, já são naturalmente respeitados e até admirados.

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Juliana Moreth, de 20 anos, começou seu negócio de forma totalmente virtual, e o mantém online até hoje. Proprietária da confeitaria VAN.CAKE, que vende apenas por meio de plataformas virtuais, ela explica que a conta no Instagram já havia pertencido a sua mãe, mas estava desativada há três anos.

Ela decidiu reativar a VAN.CAKE e comercializar doces artesanais no início da pandemia, já que não conseguia encontrar um emprego para ajudar a pagar a faculdade. Hoje, o Instagram possui mais de 112 mil seguidores.

Imagem mostra caixa de doces diversos
VAN.CAKE: a confeiteira Juliana Moreth, além dos doces, também produz conteúdos para as redes sociais Divulgação/Divulgação

Além de produzir os doces, Juliana também cria o conteúdo que é postado diariamente na rede social. A empreendedora publicou dois e-books: Aprenda a vender no Instagram, onde dá dicas para novos empreendedores digitais, e E-book Brownie: venha fazer doce como nunca!, com dicas para o preparo de brownies e receitas.

Ela acredita que capacidade da internet de conectar pessoas em diferentes lugares ajuda nas vendas on-line, e descreve como fundamental o papel do digital para seu empreendimento.

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– Estamos numa era digital, em que tudo é feito por meio da internet, então, decidi focar meu negócio totalmente no digital e mostrar que é possível vender pela internet e atingir novos públicos, não só pessoas do Rio de Janeiro, mas de outros lugares do Brasil e do mundo. VAN.CAKE virou uma marca, e eu tenho muito orgulho de saber que isso é mérito meu.

Gabriela Gomes, de 32 anos, começou a empreender desde os 18 anos e ressalta que o maior desafio sempre foi financeiro. Por conta da idade, era considerada jovem demais e, portanto, inexperiente. Assim, enfrentou dificuldades para conseguir crédito, o que dificultava a expansão dos negócios. Hoje, Gabriela é proprietária da Flow, loja de moda feminina, e considera as redes sociais indispensáveis.

Imagem mostra três manequins com roupas femininas
Flow: marca autoral possui também uma loja física na Tijuca, Zona Norte do Rio Divulgação/Divulgação

A marca possui uma conta no Instagram, com 23,5 mil seguidores, onde publica diariamente conteúdo que busca divulgar os produtos e, também, engajar as clientes e criar uma relação entre estas e a Flow. Segundo Gabriela, apesar da loja física, localizada em um dos principais pontos comerciais da Tijuca, a Praça Saens Peña, as redes sociais são essenciais para as vendas da loja.

– A rede social sempre foi muito importante para a Flow, principalmente agora com a pandemia. Mesmo com a loja física presente em um local que tem um fluxo bom, posso afirmar que 80% das clientes da marca vêm das redes sociais.

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A professora Luisa Martins, do IAG PUC-Rio, cita um artigo publicado pela consultoria empresarial Boston Consulting Group que aponta que as mulheres conseguem ter maior retorno de investimento em seus empreendimentos e, também, apresentam melhores resultados com menos recursos. Portanto, para ela, é preciso que as empreendedoras tenham em mente que os desafios são grandes, mas que, hoje, há como superá-los.

* Caroline Névoa, estudante de Jornalismo da PUC-Rio, sob supervisão de professores da universidade e revisão de Veja Rio.

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