Por que os cafés especiais vêm fazendo tanto sucesso no Rio
O consumidor dos grãos excepcionais aprendeu a identificar atributos sensoriais, escolher os tipos e a transformar preparo em ritual
Girar o copo entre as mãos, aspirar lentamente os aromas, procurar notas de especiarias, informar-se sobre o terroir.
Parece até degustação de vinho, mas, nesse caso, o protagonista é outro velho conhecido do brasileiro. Presente no país desde o século XVIII, o café, que ajudou a moldar a economia nacional, nunca saiu da mesa do carioca — mas a forma de consumi-lo, isso sim está bem diferente.
Agora é moda falar sobre as variedades, os métodos de extração e o perfil sensorial com a mesma naturalidade com a qual enófilos discutem safras e taninos.
No rastro do cenário consolidado nas principais metrópoles da Austrália, da Itália e do Japão, o Rio vive a ascensão dos grãos especiais e dos processos para melhor saboreá-los.
Com isso, a pausa para um cafezinho sem cerimônia no balcão deu lugar a um ritual de descoberta, em que a bebida é apreciada com atenção aos detalhes, à história de quem a produziu, ao território de origem e à forma como foi preparada.
O público, por sua vez, está disposto a aprender, experimentar e pagar mais pela qualidade.
“O café é o nosso vinho há 266 anos. Apesar disso, só agora estamos reconhecendo o profissionalismo e a excelência construídos ao longo dessa trajetória”, acredita Cristiana Beltrão, pesquisadora de gastronomia e fundadora do Instituto Bazzar.
Embora quase 90% dos brasileiros ainda estejam acostumados a consumir os grãos tradicionais, conhecidos como commodities, dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) mostram que há um interesse crescente pela produção artesanal.
O movimento se reflete na cidade, escolhida para receber, em outubro, no Rio Coffee Nation, a estreia nacional da The Best Coffee Shops, plataforma que reconhece as melhores cafeterias de mais de vinte países.
“A gastronomia passou a ser vista como entretenimento e, como os clientes estão mais curiosos e exigentes, o café acompanha esse movimento”, afirma Fernando Blower, presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio (SindRio).
Esse novo olhar impulsionou a abertura de uma série de casas recentemente, como Cedro e Madura, na Tijuca; Traço Torra & Café, no Humaitá; Café Delas, no Jardim Botânico; Lab Cup, na Urca; e Não Me Torra, em Niterói.
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Para além dos grãos selecionados, da torra feita in loco e da possibilidade de escolher os métodos de extração, muitos lugares se tornaram ponto de partida para experiências variadas: de aulas, workshops e degustações da bebida a festinhas e exposições.
“Já tivemos eventos de barismo e de latte art, técnica de criar imagens na superfície do café com leite vaporizado”, conta Nathália Nogueira, do Traço Torra & Café, no Humaitá, que agora planeja uma feira dedicada às microtorrefações cariocas.
Em Botafogo, o Chora, sede da última Copa Matcha — campeonato de desenhos no chá verde —, turbina o menu com sets de DJs, feira de impressos e festivais de fotografia analógica.
“As pessoas não vêm só tomar café. Elas querem viver a atmosfera da casa”, resume o barista e sócio Rodrigo Neves.
A tendência de transformação do grão em elemento de convivência e estilo de vida é global. Nessa esteira, surgiram as coffee parties, festas diurnas que combinam drinques autorais com café, música e gastronomia.
Os eventos da The Coffee Party Brasil apostam em extrações geladas, receitas criativas e experiências capazes de atrair um público interessado não apenas na qualidade dos grãos, mas na atmosfera construída em torno deles.
A próxima edição, na terça (18), na Barra, terá ioga noturno.
“O café mantém sua essência enquanto se conecta ao comportamento das novas gerações”, ressalta Blower, do SindRio.
Em Santa Teresa, o Indecente Café levou essa lógica para dentro da própria operação.
Instalado num antigo ateliê de artes plásticas desde 2025, o espaço, criado pelo editor de vídeos Thiago Arruda, nasceu como uma janelinha de cafés especiais e sanduíches de focaccia.
A pedidos, esticou o horário, ganhou música ao vivo, incorporou pratos de inspiração asiática e transformou o carajillo, preparado com Licor 43 e café coado — em vez do expresso, como manda a receita tradicional —, em símbolo da casa.
A proximidade com o bar Novooeste, famoso pelo karaokê, faz com que muitos clientes circulem entre os dois ambientes, integrando o Indecente ao roteiro boêmio do bairro. “É normal passarmos café às 22h30, mas o rush é entre 18h e 19h”, conta a chef Sofia Arruda.
Um dos maiores produtores do país no século XIX, o Rio vem redescobrindo sua vocação histórica e volta ao mapa do plantio de cafés especiais, categoria que exige rastreabilidade, colheita criteriosa e pontuação superior a 80 na escala da Specialty Coffee Association (SCA).
Embora Minas Gerais siga como principal referência nacional, o solo fluminense consolidou reputação em etapas como torrefação, barismo e preparo. “Somos reconhecidos pela excelência na finalização do café, fruto de duas décadas de profissionalização”, pondera Cristiana Beltrão.
Segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado (Emater-Rio), a região Noroeste responde por mais de 80% da produção do Rio.
A fim de aproximar esse trabalho dos consumidores, o Instituto Bazzar lançou o Café de Origem RJ, um mapeamento de cafeicultores com os perfis sensoriais de grãos premiados, a exemplo dos rótulos Marteline (da Fazenda São Mamede) e Manduca (Fazenda Cachoeira), ambos de Porciúncula; e Pelegrini (Sítio Arataca), em Varre-Sai.
“O Alto Noroeste tem cafés muito limpos, doces e equilibrados, com notas de rapadura, caramelo, chocolate, castanhas e frutas amarelas”, ressalta a fundadora do Bazzar.
“Sou a quarta geração da família. A missão é continuar investindo em qualidade”, afirma Eleonora Erthal, da Fazenda Monthal, em Bom Jardim, na Região Serrana, destaque fora do noroeste em concursos graças a seus grãos arábica e microlotes de variedades raras.
No Brasil, o mercado de cafés especiais tem crescido cerca de 15% ao ano e esse segmento deve movimentar 152,7 bilhões de dólares em todo o planeta, de acordo com a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA).
Em meio à busca por excelência, crescem as torrefações artesanais, os cursos de barismo e os espaços de formação. Entre as referências desse movimento está a Coffee Five, misto de cafeteria, escola e torrefação, fundada em 2018 por Emerson Nascimento e sua esposa, Rafaela, no Centro.
Paraibano criado no Complexo do Chapadão, na Zona Norte, ele sonhava em ser bartender e acabou se apaixonando pelo café por acaso, numa oficina de um projeto social.
De aluno, tornou-se professor do Senac e da tradicional Casa do Barista, formando mais de 5.000 profissionais ao longo de quase duas décadas.
A Coffee Five é uma das 100 melhores cafeterias do mundo e está entre as vinte melhores da América do Sul, segundo o Best Coffee Shops. Nascimento acaba de conquistar o São Paulo Coffee Festival e representará o Brasil no Fiamma World Barista Open, no mês que vem, em Portugal.
“A torrefação virou um termômetro dessa evolução. É a partir dela que surgem identidade, aromas, doçura, acidez e complexidade”, explica o especialista.
O empreendimento é um dos fornecedores de grãos do Mimo Café, eleito a melhor cafeteria da cidade em VEJA RIO COMER & BEBER 2026.
De acordo com o proprietário, André Luiz Lira, o segredo é moer na hora e consumir com até dois meses de torra.
Para garantir que a qualidade do grão chegue intacta à xícara, muitos produtores ou mesmo do nos de cafeterias passaram a ser responsáveis pela torrefação, processo antes restrito à indústria.
E esse esforço já rende láureas: a Rio Coffee House ganhou o troféu de torrefação do ano numa competição da Fispal, feira de alimentos e bebidas realizada em São Paulo.
Além do negócio no Cosme Velho, a casa vende blends de grãos exclusivos e mantém uma escola.
“Fazemos questão de percorrer o Brasil em busca das melhores safras e transformar cada grão em experiência sensorial”, afirma a proprietária, Sandra Carvalhaes.
O Volante Café, em Botafogo, também é fruto dessa busca por identidade. Criado por Breno Oliveira e amigos como um clube de assinaturas dedicado a grãos e perfis pouco comuns no Rio, o projeto cresceu e virou cafeteria.
Hoje, oferece exemplares de mais de quinze produtores brasileiros. “O mesmo grão pode revelar resultados completamente diferentes nas mãos de cada torrefador”, elucida Oliveira, relembrando que, no festival Conexão Caparaó, em janeiro, o Volante, o Lab Cup, na Urca, e a Pandora Coffee Roasters, na Barra, compraram em leilão um mesmo microlote de Pedra Menina, na divisa entre Minas e Espírito Santo.
Cada negócio desenvolveu uma torra diferente, provando que uma única origem pode resultar em perfis sensoriais distintos.
Como aconteceu com o vinho e a cerveja artesanal, o novo consumidor de café aprendeu a identificar atributos sensoriais, escolher grãos e transformar preparo em ritual.
Ele passa a integrar a chamada terceira onda do café, movimento que valoriza a origem e a proximidade entre produtor e consumidor.
“No Rio, diferentes culturas convivem: do fã de commodity ao apreciador de grãos especiais”, observa o curador Jackson Ferraz, da Jack Original Coffee, que desde 2021 garimpa produtores pelo país.
A mudança chegou até mesmo à cozinha de casa. Equipamentos antes restritos às cafeterias profissionais passaram a fazer parte da rotina de muitos apreciadores.
Pesquisa global da Philips Walita mostra que 61% dos consumidores querem recriar o ritual em casa, enquanto 59% dizem preparar mais café hoje do que há dois ou três anos.
De olho nesse mercado desde 2011, quando começou a estudar os cafés especiais, o pioneiro Leonardo Gonçalves, do Café ao Leu, está em todas as pontas.
Além de manter duas cafeterias — uma em Copacabana e a outra no Leblon —, torrefação e clube de assinatura, ele atua na origem, com uma fazenda de café no Alto Caparaó, no Espírito Santo.
“Durante anos consumimos cápsulas feitas com café brasileiro exportado e reembalado no exterior. Hoje conseguimos oferecer essa qualidade torrada aqui”, diz ele, que comercializa pacotes de grãos de 250 gramas a partir de 62 reais e já tem até o produto compatível com as máquinas da gigante Nespresso.
“A bebida cria encontros, prolonga conversas e gera oportunidades”, resume Marcelo Torres, do grupo BestFork, dono do Nolita Roastery, na Barra, onde os clientes podem acompanhar a torrefação sendo feita ao vivo e participar de degustações.
Um hábito que o brasileiro conhece há séculos foi alçado a um novo patamar – e ainda tem muito paladar para conquistar.
De A a T
O glossário do coffee lover vai muito além do coado ou expresso
Aftertaste
Sabor e sensações que permanecem na boca após a degustação. É o chamado retrogosto.
Barista Profissional
especializado na preparação e extração. Domina diferentes métodos, regulagem dos equipamentos e análise sensorial da bebida.
Blend
Mistura de diferentes cafés, variedades ou origens criada para alcançar determinado perfil de sabor.
Cupping
Método de degustação utilizado para avaliar aroma, sabor, acidez, doçura, corpo e equilíbrio da bebida.
Microlote
Pequena produção com rastreabilidade e controle rigoroso de qualidade, geralmente associada a perfis sensoriais únicos.
Notas sensoriais
Aromas e sabores percebidos durante a degustação, como chocolate, caramelo, frutas cítricas, frutas vermelhas, castanhas ou flores.
Origem única
Café produzido em uma única fazenda, região ou propriedade, valorizando as características daquele terroir.
Terroir
Conjunto de fatores, como solo, clima, altitude e manejo agrícola, que influencia o sabor da bebida.
Torra
Processo de aquecimento do grão verde que desenvolve aromas e sabores. Pode ser clara, média ou escura, cada uma destacando características diferentes.
O barista caseiro
Equipamentos para preparar a bebida que muita gente já adquiriu
Pitcher
Jarra de aço inox para vaporizar o leite. É indispensável no preparo de bebidas como cappuccino e flat white, e também para criar desenhos de latte art.
Balança de precisão
Serve para pesar tanto o café quanto a água, mantendo a proporção ideal e garantindo resultados consistentes.
Chaleira de bico de ganso
O bico fino permite controlar com precisão o fluxo de água, fundamental para métodos filtrados como o V60.
V60
Um dos métodos de preparo mais populares entre baristas. Valoriza a doçura, a acidez e a complexidade aromática dos cafés especiais.
Distribuidor e tamper
Utilizados nas máquinas de expresso para nivelar e compactar o pó no porta-filtro de maneira uniforme, garantindo uma extração equilibrada.
Moedor manual ou elétrico
Triturar os grãos na hora preserva aromas e sabores. A ferramenta de qualidade garante uniformidade, fator decisivo para a extração.
Muito além da xícara
Lugares para aprender mais — e ainda garantir um cafezinho do bom
Nolita Roastery
O público pode acompanhar a torrefação sendo feita ao vivo de terça a domingo, às 17h, e participar da cupping experience, degustação conduzida pelo especialista Guilherme Opitz às sextas, sábados e domingos, às 17h30. Grátis. New York City Center. Avenida das Américas, 5000, Barra. @nolitaroastery.
Grão Mestre Café
Uma das escolas mais tradicionais do setor, oferece cursos de barista, degustação, classificação e avaliação sensorial de cafés. Rua da Quitanda, 191, subsolo , Centro . @graomestrecafe.
Coffee Five
Disponibiliza aulas de barismo, latte art, filtrados e drinques. Há também formação para quem quer conhecer mais sobre as técnicas de preparo. Rua da Quitanda, 86, Centro, e Rua do Riachuelo, 42, sobreloja, 104, Lapa. @coffeefiverj e @coffeefiveescola.
Rio Coffee House
Misto de torrefação, cafeteria e escola, o espaço tem cursos voltados à torra e ao universo dos cafés especiais, além de trabalhar com grãos selecionados de produtores brasileiros. Rua Cosme Velho, 433, Cosme Velho. @riocoffeehouse.br
Artemis Torrefação
Artesanal Oferece cursos de torra, classificação de grãos e métodos de preparo de cafés filtrados, entre outros estilos em alta. Rua Engenheiro Enaldo Cravo Peixoto, 345, loja P, Tijuca. @artemistorrefacao.
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Faça o teste e descubra se a paixão pelo café especial já virou estilo de vida
Escolhe o café pela origem?
Compra grãos em vez de café já moído?
Só mói os grãos na hora do preparo?
Utiliza balança para pesar o café e a água?
Sabe diferenciar uma torra clara de uma escura?
Já comprou um café atraído pelas notas sensoriais descritas na embalagem?
Possui mais de um método de preparo em casa?





