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Fibra de caju: a nova aposta no mundo das proteínas veganas

"Faltava alguma coisa genuinamente brasileira neste segmento de foodtech", diz Cello Camolese, sócio da recém-chegada Amazonika Mundi

Por Carolina Barbosa Atualizado em 10 dez 2020, 18h40 - Publicado em 10 dez 2020, 18h31

Sócio de negócios bem-sucedidos, como Casa Camolese, Mitsubá, Vezpa, e criador da Devassa (hoje já vendida), Cello Camolese acaba de lançar a marca Amazonika Mundi, que conta com proteínas veganas, à base de plantas, no caso dele a brasileiríssima fibra de caju.

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Com itens que variam em média entre R$ 15,00 (o hambúrguer) e R$ 21,00 (siriju, bolinho que lembra o de siri), à venda em pontos como Mundial, Guanabara e Supermarket, ele fala sobre a motivação da empreitada e o mercado de foodtech (nome dado às empresas — geralmente startups — que desenvolvem novas tecnologias para revolucionar o setor alimentício) no país. “Não pensamos só em veganos e vegetarianos, mas falamos com pessoas preocupadas com a própria saúde e com a saúde do planeta”, resume. Confira a entrevista a seguir.

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Você já lançou cerveja artesanal, rede de pizzarias, trouxe um modelo de brewpub com casa de show intimista para a Zona Sul… Como surgiu a ideia de investir neste mercado de proteínas alternativas? Há quanto tempo?

Na verdade, a ideia inicial foi uma vontade de fazer algo pela Amazônia, antes de pensar em proteína alternativa. O produto acabou sendo uma consequência natural dessa ideia antiga de empreender tendo a Amazônia como pano de fundo. A escolha pelas proteínas alternativas veio há cerca de dois anos, em decorrência das minhas últimas viagens, quando entendi que estava faltando alguma coisa genuinamente brasileira neste segmento (de foodtech). E nada mais autêntico do que a floresta e todos os seus saberes e seus mistérios.

Sabemos que para conferir sabor e textura, o comum é se optar por beterraba, grão de bico, quinoa… Por que a “carne” (leia-se fibra) de caju foi a eleita na sua empreitada?

A carne de fibra de caju surgiu de uma parceria com a Embrapa, em que a gente entendeu que alguma coisa precisava ser feita ao identificarmos, desenvolvendo esse projeto juntos, que um produto tão tipicamente brasileiro (nesse caso não amazônico, mas também genuinamente nosso, pois o caju é uma das nossas cinco frutas nativas) tinha 366 000 toneladas de polpa descartadas por ano. Dessa parceria com a Embrapa veio a ideia da carne de fibra de caju como a base de vários dos nossos produtos. Esses produtos passaram pela mão dos nossos chefs para conseguirmos um resultado de sabor, textura e cor que seja de fato atrativo, sedutor, gostoso e com boa aceitação no mercado.

Fez algum tipo de imersão para esta nova empreitada?

Sim. Inicialmente fiz pesquisas sozinho. Pesquisei muito até me juntar a meus atuais sócios e viajarmos juntos para a Amazônia, onde visitamos Embrapa, pequenos produtores etc. E é uma característica desse mercado ter sempre coisas novas, então a imersão é constante.

É comum veganos e vegetarianos não gostarem do sabor de algumas proteínas alternativas exatamente por dizerem que lembra muito o gosto da proteína animal. Como resolver isso e ir além, conquistando ambos os perfis do consumidor?

Na nossa linha atual há três produtos análogos à proteína animal. Os outros não tentam emular nenhum tipo de carne animal. Com esses três atingimos os flexitarianos. Não falamos só para veganos e vegetarianos, mas com pessoas preocupadas com a própria saúde e com a saúde do planeta.

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Apesar de estar se popularizando e de as pesquisas recentes a apontarem como a solução para se alimentar a população mundial daqui a alguns anos, a carne vegetal ainda é um pouco mais cara que a de origem animal no país. Isso seria uma espécie de entrave para o seu negócio?

É um pouco mais caro, de fato, por ter uma escala menor de produção. Conforme o consumo aumentar, a escala de produção vai aumentar também e o preço vai cair. É uma questão de tempo, inclusive para termos mais avanços tecnológicos, que também vão ajudar nessa questão de preço. A tendência é que ele caia – e rapidamente.

Há planos de exportação?

Sim, e já estamos em conversas adiantadas com Austrália, Estados Unidos, Canadá e outros. É um produto altamente exportável, com apelo no exterior, pelo que a marca representa e pelo que ela traz em si – além da qualidade dos produtos, a questão da preocupação e da valorização da Amazônia.

Alguns grandes frigoríficos nacionais têm investido em produtos à base de plantas. Como enxerga esse movimento?

Isso mostra o apelo que esse segmento tem para o mercado, para as pessoas e para o futuro da humanidade. É bom para chamar atenção para esse tipo de produto e contribuir para a formação de público (embora o foco e o propósito deles serem outros). Mas a força de marketing é boa para chamar a atenção para o segmento como um todo.

Hambúrguer feito de planta
Amazonika Burger: uma das apostas iniciais da marca Tomás Rangel/Divulgação

Dos oito produtos, quais você acredita serem mais democráticos, num primeiro momento, tanto a carnívoros quanto a vegetarianos e veganos?

Acho que o Amazonika Burger é o que vai ter mais apelo neste primeiro momento, já que hambúrguer é algo que todos já comem, já conhecem, é popular. Atrai tanto os carnívoros quanto os vegetarianos.

Há uma insistência em chamar esses produtos de carne, né? Por que isso acontece? O mercado consumidor não tá preparado para denominações realmente veganas, que não pressuponham bichos? Rs

No nosso caso, falamos em proteína vegetal, em produtos 100% à base de plantas, substitui a carne, que entra no momento que seria de consumo de carne. Queremos atingir todo tipo de consumidor que esteja aberto a novas aventuras gastronômicas.

Depois deste mergulho, você pensa em alterar alguns dos menus das suas empreitadas?

Cada negócio tem seu perfil e público, mas a influência de um no outro vai sempre acontecer, as coisas vão se cruzando. Nosso papel como empreendedor é estar atento a mudanças de comportamento e de mercado.

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