Esquinas do Esporte Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania
Continua após publicidade

Por que jogos sob calor intenso devem rumar para a extinção

Exposta a temperaturas extremas, prática esportiva desperta o risco de hipertermia, o que pode causar desidratação, náusea, câimbra, convulsão

Por Alexandre_Carauta Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 23 jan 2024, 08h51 - Publicado em 22 jan 2024, 23h09
  • Seguir materia Seguindo materia
  • A antiga marchinha batuca onipresente. O calor é tanto que vendedor de queijo coalho dispensa o forno a tiracolo.

    Publicidade

    Uns refugiam-se nos banhos de mar noturno, no velho banho de mangueira, nas piscinas festivas. Outros entregam-se ao chamado da água de coco, do picolé, do chope, caçam o ar-condicionado de plantão, qualquer alívio gelado ao alcance da rotina e do bolso.

    Publicidade

    As prosaicas receitas para suportar o forno ligado já às seis da matina não dissimulam o tamanho da barra. A sensação de 50 graus escancara a urgência de cumprirmos todos – cidadãos, governos, empresas – os compromissos firmados e atualizados desde o Acordo de Paris, em 2015. Os impactos da pandemia climática tornam-se, a cada ano, mais drásticos, mais difíceis de contornar.

    A inadiável revisão de princípios, processos e hábitos estende-se a todos os capilares sociais, econômicos, políticos. Do agronegócio e da indústria à proteção florestal, da matriz energética à orquestração urbana. O esporte não é exceção.

    Publicidade

    O calor extremo troca os benefícios da prática esportiva pelo fantasma da hipertermia. A elevação prolongada da temperatura corporal desencadeia distúrbios metabólicos, cardiovasculares, neurológicos, hepáticos, renais. Causam desde desidratação, náusea, câimbra até desmaio, convulsão e morte.

    Continua após a publicidade

    Tais efeitos são detalhados em pesquisas como “Riscos associados à prática de esforço em condições de calor extremas” e “Calor, exercício físico e hipertermia: epidemiologia, etiopatogenia, complicações, fatores de risco, intervenções e prevenção”. As ameaças não poupam sequer atletas de ponta.

    Publicidade

    Condicionamentos apurados melhoram a adaptação a circunstâncias adversas, ajudam a superá-las muitas vezes. Mas não eliminam os perigos alertados pela comunidade médica. Seria impossível descartá-los, somado o calor intenso com o desafio aos limites do organismo.

    As evidências científicas aguçadas pelo aquecimento atmosférico parecem insuficientes para banir disputas às três ou às quatro da tarde em pleno janeiro carioca, quando a sensação térmica costuma superar 40 graus. No subúrbio, longe da brisa marítima, já beirou os 60.

    Publicidade

    A falta de refletores em estádios modestos e a grana substantiva da transmissão audiovisual não justificam partidas num horário em que os gramados, diria Luiz Gonzaga, ardem igual fogueira de São João. A integridade física e mental implica cuidados mais previdentes do que pausas para hidratação.

    Continua após a publicidade

    Caso a responsabilidade com a vida não vença a insistência na exposição ao calor severo, pode-se apelar à lógica comercial. Sob um ambiente abrasivo, mesmo jogadores profissionais perdem rendimento: o espetáculo murcha, fica menos atrativo ao consumo.

    Publicidade

    Fora a prioritária precaução com a saúde, o empenho em garantir, aos astros, condições de trabalho ideais nada tem de facultativo. É indispensável à dignidade profissional, à qualificação do entretenimento, à satisfação do espectador, à cartilha socioambiental em que ora se apoiam as reputações corporativas.

    O pragmático mandamento, crucial também ao lucro, segue fielmente aplicado nas principais competições do mundo. Não se nota apreço semelhante num campeonato estadual que, ao contrário dos termômetros, progressivamente esfria.

    ___________

    Continua após a publicidade

    Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós-graduação em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação FísicaOrganizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.

    Publicidade
    Publicidade

    Essa é uma matéria fechada para assinantes.
    Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

    Domine o fato. Confie na fonte.
    10 grandes marcas em uma única assinatura digital
    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe mensalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Para assinantes da cidade de Rio de Janeiro

    a partir de R$ 39,90/mês

    PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
    Fechar

    Não vá embora sem ler essa matéria!
    Assista um anúncio e leia grátis
    CLIQUE AQUI.