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Em Harmonia, a praça da Gamboa, Frances Reynolds fomenta arte brasileira

Mecenas argentina que escolheu o Rio para viver há 25 anos descobre e impulsiona carreira de novos artistas via Instituto Inclusartiz, que fundou e preside

Por Ines Garçoni Atualizado em 16 jun 2022, 16h27 - Publicado em 17 jun 2022, 06h00

Que ninguém duvide: quando Frances Reynolds encasqueta com uma ideia, faz acontecer. E se alguém desconfia que não dará certo, ela solta uma das frases que mais repetiu ao longo desta entrevista, em que contou sua singular trajetória pelo mundo das artes: “Deus proverá”, repisa, como uma forma de expor seu indisfarçável pendor para o otimismo, embalado por altas doses de obstinação no trabalho. Seu objetivo é encontrar talentos que podem estar por toda parte, inclusive escondidos e sem perspectiva em cenários como a favela Cinco Bocas, em Brás de Pina, Zona Norte do Rio. Desembarcou ali atrás de um artista do qual tinha ouvido falar bem e gostou do que viu. Para ela, aos 67 anos, filha de uma rica família do ramo imobiliário de Buenos Aires e a quem se costuma creditar o título de mecenas — ainda que seja certa redução do alcance do que faz —, “foi tranquilo”. Aquela não seria a primeira nem a última incursão de Frances em busca de jovens promissores. O ofício de descobrir e impulsionar a carreira de novos artistas já dura 25 anos, idade do Instituto Inclusartiz, que fundou e preside — e que há um ano ganhou uma sede à altura, na Gamboa, região portuária do Rio. Nunca garimpou tanta gente boa quanto nos dias de hoje.

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De fala rápida e com inconfundível sotaque argentino, Frances circula com desenvoltura pelos mais distintos cantos do globo. “Ela trata todos da mesma maneira digna, do rei da Espanha a uma pessoa muito simples”, observa o curador Paulo Herkenhoff, conselheiro do Instituto. Das mãos do então rei Juan Carlos, aliás, ela recebeu a medalha La Gran Cruz de la Ordem de Isabel La Católica, assim como a Ordem do Mérito Cultural por seus serviços à cultura brasileira. A dedicação às artes começou depois de encerrar a carreira como alta executiva na televisão. Nos anos 1980, trabalhou nos Estados Unidos, atuando no mercado latino e caribenho, passando por Warner, Orion e Disney. “Na TV, aprendi a vender projetos como quem vende sonhos e isso foi importante para o que faço agora”, avalia. De fato, é com o espírito de vendedora que ela aproxima artistas de empresários, curadores, diretores de museus e colecionadores — e faz a roda do universo das artes girar.

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Como boa criadora de pontes, já beneficiou dezenas de artistas no Brasil e no mundo. Atualmente, tem ajudado a abrir o caminho de gente como Marcela Cantuária, Thales Lopes, Maxwell Alexandre e Manauara Clandestina, tarefa que descreve como “muito prazerosa”: “Sou de uma família de seis irmãos, minha casa estava sempre lotada”, diz ela, que vive cercada de uma geração cheia de gás. “E muita coisa do que faz ela nem conta”, entrega o amigo Herkenhoff. “Frances está buscando doações importantes na Europa para o Museu Nacional, dando uma mão ao Museu Nacional de Belas Artes, trazendo artistas da África para residências no Rio e ainda quer criar uma biblioteca no Morro da Providência”, lista. Viajante, foi no Rio que a argentina resolveu fincar raízes, há mais de três décadas, quando se casou com o empresário José Roberto Marinho, do Grupo Globo, pai de seus dois filhos. A casa onde moraram durante os dez anos de casados — e para a qual ela voltou recentemente, depois de uma temporada em Londres — fica atrás do Parque Lage.

Maxwell Alexandre e Marcela Cantuária: nomes da nova geração impulsionados por Frances
Maxwell Alexandre e Marcela Cantuária: nomes da nova geração impulsionados por Frances – Leo Lemos; Priscila Haefeli/Divulgação

Frances passou a frequentar a Escola de Artes Visuais, onde foi aluna de Beatriz Milhazes e conheceu figuras que se tornariam seus “mestres”, como o próprio Herken­hoff. De lá para a Gamboa, traçou um longo percurso e iniciou sua coleção particular, recheada de artistas nacionais. Tornou-se patrona e conselheira de instituições como a Tate Modern e a Royal Academy of Arts, de Londres, do MoMA, em Nova York, e do Pompidou, de Paris. A partir de 2014, começou a promover residências artísticas em casa, experiência que rendeu história. Um belo dia, o britânico Martin Creed resolveu pintar a casa inteira. “Eu estava na Índia quando me ligaram para contar. Fiquei em silêncio e depois disse: ‘Tudo bem, menos os quartos, o.k.?’”, lembra. Passou também a enviar artistas ao exterior, como residentes. Em 2020, Manauara, artista transexual de Manaus, foi selecionada para ficar seis meses na cobiçada Delfina Foundation. “Foi a minha primeira residência internacional, e Frances esteve comigo de perto, me apresentou para muita gente, inclusive colecionadores, e fez um tour incrível comigo em Londres. Ela se envolve de verdade”, conta. Egresso da Rocinha, o ascendente Maxwell Alexandre também é apoiado pelo Inclusartiz e faz coro: “Os mecenas, em geral, ficam nesse lugar de superioridade, de relações superficiais, nem vão aos ateliês. Mas a Frances acompanha mesmo, foi me ver no Marrocos, em Lyon, vem no meu ateliê, está sempre em contato querendo agitar coisas”.

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Desde que instalou o centro cultural na Gamboa, a argentina de alma carioca tem se envolvido com a região e seus moradores, pelos quais, no princípio, foi recebida com desconfiança. “Quais são as suas intenções?”, dizia o recado deixado por escrito na calçada em frente. “Nós nos reunimos com eles, conversamos, explicamos que o objetivo é trabalhar com empreendedores e profissionais da região”, lembra Frances. A descoberta do lugar deu-­se em uma caminhada: “Esbarrei com essa praça, perguntei qual era o nome e me disseram Harmonia. Na hora, pensei: ‘É aqui que eu quero ficar, harmonia tem tudo a ver com a minha filosofia de vida’ ”. Em maio, inaugurou a exposição Gamboa: Nossos Caminhos Não Se Cruzaram à Toa, que exibe artistas moradores ou gente que já passou pelo bairro, como a pintora e escultora Tia Lúcia (1933-2018) e o compositor e pintor Heitor dos Prazeres (1898-1966). Entre os atuais 21 artistas em atividade, estão Douglas Dobby, Mãe Celina de Xangô e Coletivo MP. Em breve, árvores serão plantadas na frente do sobrado do Inclusartiz. “E elas darão flores, óbvio. Deus proverá”, confia Frances. Que ninguém duvide.

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Visita guiada
As obras em cartaz no Instituto Inclusartiz

Pipa Sol
Pipa Sol Douglas Dobby/Divulgação

A exposição Gamboa: Nossos Caminhos Não Se Cruzaram à Toa, com a curadoria de Lucas Albuquerque, reúne oitenta obras de 25 artistas e coletivos ligados à região portuária, que ali instalaram seus ateliês ou produziram obras que dialogam com a área no Centro. Alguns destaques à mostra até 10 de julho:

Benedita
Benedita Mauricio Hora/Divulgação

Pipa Sol (1), 2020, é do fotógrafo Douglas Dobby, e Benedita (2), 2008, do também fotógrafo Maurício Hora

obra sem título
Obra sem título Beatriz Gimenes/Divulgação

– De 2022, a obra sem título (3) pertence à série Cimento e Água, de Laís Amaral, jovem artista da Gamboa

Bandeira Tia Lúcia
Bandeira Tia Lúcia Beatriz Gimenes/Divulgação

Bandeira Tia Lúcia (4), de 2019, foi criada pelos muralistas Thiago Haule e Diego (Deus) Zelota e homenageia a principal artista representada na exposição

Estandarte
Estandarte Beatriz Gimenes/Divulgação

Estandarte (5), sem data, é uma das dezessete obras de Tia Lúcia (1933-2018), pintora, escultora e moradora do Morro do Pinto

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