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Fernanda Montenegro: ‘Acho que o vírus veio como um castigo celeste’

'É como se fosse um dilúvio, essa barca tem que chegar a algum lugar. E que chegue com um pouco mais de justiça social', diz, em entrevista pós-quarentena

Por Cleo Guimarães 1 jun 2020, 19h43

O que Fernanda Montenegro está pensando da fase tenebrosa que o país – e o mundo – está passando? Quais suas expectativas para quando a pandemia do coronavírus acabar? A atriz está em quarentena com a família, em Petrópolis, e deu seu primeiro depoimento durante o isolamento lá mesmo, no sítio, para o genro, o cineasta Andrucha Waddington. A entrevista para o Canal Brasil será exibida em duas edições do “Cinejornal”: a primeira delas nesta terça-feira (2), às 21h50, e a segunda na quinta-feira (4), às 19h45.

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Fernanda conta como está lidando com a rotina atípica e, quando perguntada sobre o futuro dos artistas e das artes, desabafa: “Não sei, só sei que não vou me acalmar. Se eu ainda tiver raciocínio e força, estarei em ação. É uma ambição minha”. Durante o papo, ela reforça a importância das artes e diz que não existe sociedade sem artista. “Sem a cultura das artes, não existe país. Estamos vivendo uma hora muito desbaratinada. Não temos perfil, estamos jogados fora”, explica a entrevistada. VEJA RIO teve acesso à entrevista e selecionou alguns bons momentos da conversa:

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Andrucha: Como está lidando com a quarentena?
Fernanda: A cada dia vem a resposta de que é mais um mês, e outro mês. De estar aparecendo uma vacina lá para setembro, outubro. Já estamos há dois meses aqui em Petrópolis. Estamos tentando, cada um de nós, a seu modo, criar alguma coisa pela internet. Algum diálogo, algum trecho, poema. Enfim, a gente tem que começar a produzir dentro desse sistema terrível e trágico no qual a gente está vivendo. E, também, há um sentimento de culpa, porque alguns de nós, por exemplo, como eu, está aqui, em uma casa. Graças a Deus. Mas a maioria não tem. E não porque a gente não pague todos os impostos que tem que pagar, não que a gente não tente dar o voto da gente para um político que a gente acredita que vai resolver muita coisa da nossa vida. Passam-se os anos e ninguém resolve nada, continuamos com milhões de desempregados. Isso antes do vírus. Eu acho que o vírus veio como um castigo celeste, uma coisa bíblica. Enfim, é difícil falar sem a gente se envolver também do ponto de vista social, humano. Não sei, mas é isso, a gente tem que esperar passar isso. É como se fosse um dilúvio, essa barca tem que chegar a algum lugar. Deverá chegar. E que chegue com um pouco mais de justiça social, por exemplo.

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Andrucha: Qual o futuro das salas de cinema?
Fernanda: Nós deveremos renascer, as salas vão renascer. Tenho quase um século de vida, sou de um tempo em que o cinema, o prédio, a sala, mudava de programação três vezes por semana e lotava. Há uma outra era de ciência e tecnologia. Nós fazemos parte dessa transição, a nossa época faz parte dessa transição. Então, deveremos sim encontrar uma outra linguagem, uma outra maneira da gente se fazer conhecer através dessa arte cinematográfica.

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Andrucha: O que devemos fazer diante dessa crise?
Fernanda: Não podemos sentar. Não é só uma esperança votiva, tem que ser uma esperança ativa. Somos vocacionados. Não sabemos como resolver isso, a não ser indo a luta. Então, o que for, de que maneira for, buscando a linguagem que for. E, tudo passa, também. Essa tragédia vai passar. O que estamos vivendo não é só um vírus, estamos vivendo diversos vírus. E, talvez, o maior seja o vírus titular. Entenda quem quiser.

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