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TikTok impulsiona novas formas de expressão além do humor

Quatro tiktokers cariocas contam como o aplicativo transformou seus comportamentos e linguagens

Por *Lorena Parrilha, Maria Clara Durante, Maria Fernanda Henningsen, Vitória Barreto 29 dez 2020, 12h36

Aplicativo mais baixado desde o início da pandemia, o Tik Tok amealhou mais de 300 milhões de novos consumidores no primeiro semestre deste ano. O serviço de vídeos curtos lançado pela chinesa ByteDance já ultrapassa os três bilhões de downloads. Fora o sucesso comercial, a popularidade tem influenciado comportamentos e linguagens de adolescentes e jovens adultos, público dominante da plataforma. (Veja o glossário no fim desse texto.) Quatro tiktokers de diferentes tipos contam como o aplicativo têm mudado suas percepções e rotinas.

Susy Giudice, psicóloga

A psicóloga Susy Giudice, de 32 anos, ingressou no TikTok em janeiro deste ano. Já reúne mais de 110 mil seguidores na conta (@naoestouteanalisando). No início, ela não pensou em fazer tiktoks relacionados ao trabalho, porque utilizava a rede de forma recreativa. Depois, achou interessante abordar o âmbito profissional e usar a plataforma para atrair o seu público, principalmente adolescentes, durante a pandemia.

Para Susy, o TikTok permite os jovens se aproximarem de temas complexos por meio do humor. Quando um assunto é apresentado com memes e música, observa a psicóloga, tende a cativá-los.

Outro aspecto favorável, acrescenta Susy, é a composição do TikTok por diversos grupos que compartilham gostos específicos. A psicóloga argumenta que as pessoas sentem necessidade de pertencer a um grupo. Neste sentido, diz ela, o aplicativo lembra “as panelinhas da escola”, tornando-se a representação virtual de uma situação cotidiana.

“É positivo para essas pessoas encontrar um espaço onde se sintam acolhidas e estimuladas a dar força para outros indivíduos. Os usuários do TikTok são muito acolhedores nos comentários, inclusive com aqueles que não conhecem pessoalmente. Isso não é tão comum em outras redes sociais”, compara Susy.

Embora aponte vários aspetos positivos na plataforma, a psicóloga acredita que a alta taxa de informação propagada de forma rápida pode causar ansiedade. Como consequência, os membros do TikTok ficam sem paciência para assistir a vídeos mais longos. Susy também acredita que algumas trends influenciam a personalidade em formação nos adolescentes, o que pode “gerar certa confusão”:

“Os jovens podem não saber se o conteúdo consumido faz parte de seu gosto pessoal ou se é apenas a repetição de uma tendência que os levam a se inserirem em um grupo. Isso representa uma transição de modelos de mídia. Em séries e novelas, por exemplo, as falas de personagens são repetidas pelos espectadores e se transformam em bordões”.

A psicóloga conta que recebe muitas queixas de pais sobre um uso compulsivo do aplicativo. “Meus filhos estão viciados no TikTok”, dizem. Mas, quando ela conversa com esses pais, descobre que os filhos estão obcecados por outras redes sociais.

Susy nota que frequentemente a palavra “vício” é associada ao TikTok de forma aleatória. O vício é percebido quando o cumprimento de tarefas cotidianas fica procrastinado por um excesso de uso da plataforma. Nem sempre é isso que acontece, assinala a psicóloga.  Ela identifica conflitos e resistências decorrentes de choques geracionais, principalmente pelo desconhecimento da linguagem do TikTok por aqueles que não usam o aplicativo. “Nada que não possa ser explicado e resolvido com paciência”, orienta a psicóloga.

A profissional também recomenta, contudo, que sejam estabelecidos limites e regras para que o uso da plataforma não se torne compulsivo. “Mas é igualmente importante entender o atual momento, com restrições das opções de lazer”, pondera

Julia Monnerat, criadora de cosplayer

Julia Monnerat empolgou-se com o TikTok assim que percebeu uma grande quantidade de vídeos de cosplay. Foi especialmente acolhida por um grande grupo de cosplayers do Rio. Em menos de um ano na plataforma, soma mais de 400 mil seguidores (@juliamonnerat_). Ela conta que demora, no mínimo, uma hora e meia na pré-produção dos personagens do mundo anime que representa, além da produção de seus conteúdos, “que demandam muito tempo no dia a dia”.

A tiktoker revela que, antes de entrar na plataforma, era tímida e demorou a mostrar os vídeos aos amigos. Com o tempo, perdeu a timidez, aprendeu gírias e poses típicas dos usuários do aplicativo, e sentiu-se mais confiante ao adotar um estilo com símbolos e-girl.

 Julia ressalta que o TikTok influenciou e exaltou as suas linguagens corporal e verbal. Ela percebe “uma grande quantidade de pessoas se sentindo mais à vontade com esse estilo”.

Vinícius Gouveia, um cicerone do Rio por trás dos holofotes

Vinícius Gouveia, de 21 anos, tem mais de 40 mil seguidores e 800 mil curtidas na conta (@viniciusgouveac). O estudante de Publicidade e Propaganda não imaginava que seus vídeos receberiam tamanho engajamento, mas se esforçou para conquistar “o maior público possível”:

“Fui o primeiro dos meus amigos a baixar o TikTok. Continuei até dar certo”, orgulha-se.

Vinícius. admite que era mais tímido antes do TikTok. Ele já havia produzido conteúdo para outras plataformas, mas nunca esteve à frente das câmeras.

Os vídeos que fazem mais sucesso são aqueles que têm o Rio como protagonista. Vinícius dá dicas de lugares e programas pouco conhecidos na cidade, além da Zona Sul. Numa provocação bem-humorada, ele também aponta motivos que “fazem o Rio ser melhor do que SãoPaulo”.  Garante que a alusão à folclórica rixa entre cariocas e paulistanos não passa de uma brincadeira:

“Eu não odeio São Paulo. Eu gosto de São Paulo! Acabei criando um personagem. Não é literalmente quem sou. Nunca vou ferir os meus princípios, mas tenho que fazer algo que o meu público vai consumir”, afirma, pragmaticamante, o jovem.

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 Nicole Dominguez, o mundo indie do Tiktok

 Nicole Dominguez (@nick_domin), de 15 anos, também mora no Rio e vem colecionando seguidores desde que entrou para o TikTok, no ano passado. Já ultrpassam 130 mil, São atraídos por conteúdos alternativos relacionados à moda indie. Nem sempre seus vídeos foram deste tipo.

Quando estreou no aplicativo, Nicole publicava vídeos de comédia e trends da época. Aos poucos, o TikTok mudou seu estilo, gênero musical e gosto cinematográfico. Por começar a produzir “vídeos diferentes”, lembra ela, o público e as referências também mudaram; músicas de bandas indie, roupas fora do padrão brasileiro e filmes independentes tornaram-se parte do dialeto da jovem. A plataforma não só modificou a vida de Nicole, como também das pessoas ao seu redor:

“Todo mundo que eu conheço está no TikTok. Mas ele influencia as pessoas de maneira diferente”, observa a adolescente.

A rede criou novas tendências, gírias e expressões, particularmente compreensíveis pelos usuários do aplicativo conseguem. Isso tende a dificultar, em princípio, a comunicação com quem não participam desse mundo. Nada que, como acredita a psicóloga Susy Giudice, a boa vontade e o tempo não possam resolver.

Além dos vídeos de looks, dicas de moda, maquiagens e lipsync, Nicole usa a rede para tratar de assuntos polêmicos e combater preconceitos. Ela expõe, por exemplo, para o seu posicionamento sobre casos como o movimento antirracista Black Lives Matters. “Os valores e princípios se modificaram. Não é só bobagem. O TikTok traz conteúdos importantes relacionados ao machismo, homofobia e racismo”, afirma a adolescente.

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Glossário Tiktok

Tiktoker: criador de conteúdo no aplicativo;

#POV: o tiktoker pode colocar na legenda de seus vídeos o termo #POV — point of view (ponto de vista). São conteúdos que carregam a visão de alguém sobre determinado tema. O objetivo é fazer com que o espectador interaja com o vídeo;

#FYP: hashtag utilizada para que o vídeo apareça na timeline de um usuário que possa se interessar pelo conteúdo, mesmo que ele não siga o tiktoker que o produziu;

Trend: estilos de vídeos que viraram tendência. Podem ser danças, desafios, vídeos de looks e maquiagens;

IB@: termo utilizado quando um tiktoker se inspira no vídeo de outra pessoa dentro do aplicativo;

Flopar: quando o vídeo entra na fyp e não faz sucesso;

Hitar: quando o conteúdo faz muito sucesso;

Challenges: desafios criados em vídeos que estão trending.

 

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*Por Lorena Parrilha, Maria Clara Durante, Maria Fernanda Henningsen, Vitória Barreto, alunos de Comunicação Social – PUC RJ

 

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