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Pandemia agrava crise dos cinemas de rua do Rio

Cidade, que já teve 198 salas em suas ruas, tem hoje apenas dez

Por Jú Miyoshi, João Veneu e Maria Eduarda Severiano* Atualizado em 8 jan 2021, 19h55 - Publicado em 11 jan 2021, 11h00

“O senhor sabe. A crise, a televisão, o videocassete. Hoje o cinema é só um sonho.” Mais de três décadas se passaram desde que Scapaffico, personagem vivido por Enzo Cannavale em “Cinema Paradiso”, proferiu esta frase. Mas basta substituir a palavra videocassete por streaming, o discurso está mais atual do que nunca.

O drama italiano, lançado em 1988, conta a história da amizade entre Salvatore, apelidado Totó, um menino de 10 anos, e Alfredo, um projetista. A trama se passa no interior da Sicília e revela a relação afetiva de seus moradores com o único cinema da cidade, o Paradiso. O filme é considerado por muitos a maior declaração de amor à sétima arte já produzida. Ao retratar a morte do cinema de rua na cidadezinha de Giancaldo, ele atingiu em cheio os corações de cinéfilos ao redor do mundo. Mas teria Cinema Paradiso previsto o futuro deste tipo de sala de exibição?

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Um dos setores mais atingidos na pandemia do coronavírus foi o do audiovisual. Todos os dias, há dezenas de notícias sobre adaptações de grandes estúdios para o lançamento de seus filmes ou sobre como as redes multiplex estão enfrentando esta crise, jamais vista no setor. No entanto, poucos estão falando de um segmento que já vinha lutando para manter seu funcionamento antes mesmo de sabermos o significado de Covid-19: o cinema de rua.

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Para Márcia Bessa, doutora em memória social, o cinema de rua vem enfrentando diversas concorrências desde os anos 1950, passando pela TV, videocassete, DVD, canais fechados, shoppings centers, VOD e, agora, o streaming. Para ela, a conjuntura crítica que acentuou o início do desaparecimento dos cinemas de rua foi marcada por uma crise estrutural, intensificada pela insegurança pública que levaram, e ainda levam, ao afastamento dos espectadores. E ainda há a especulação imobiliária.

Atualmente, o Cinema Íris é o único cinema de rua tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC). Osvaldo Emery, arquiteto e especialista em acessibilidade cultural, esclarece que a medida está relacionada à sua arquitetura, um importante exemplo da Art Nouveau. Para Osvaldo, preservar os cinemas de rua é também preservar uma parte da história e da memória das comunidades da qual fazem parte.

A cidade do Rio de Janeiro conta hoje com apenas dez cinemas de rua (isso mesmo), mas já chegou a ter 198. Só entre os anos de 1907 e 1911 foram inauguradas 100 salas. Esse período ficou conhecido como Idade de Ouro do cinema carioca, mas seu fim começou a ser decretado com a entrada massiva dos filmes norte-americanos no mercado nacional, tendo a situação se agravado durante a Primeira Guerra Mundial. Como consequência, muitas dessas salas tiveram que encerrar suas atividades. O setor voltaria a prosperar entre os anos de 1917 e 1922. A revitalização do fim da Avenida Central, uma extensão da reforma urbana carioca iniciada pelo prefeito Pereira Passos, possibilitou a criação da Cinelândia, que concentrava grandes salas, como o Cine Rex, o cinema Glória, o Império e o, ainda em funcionamento, Cine Odeon, inaugurado em 1926. Hoje, os principais festivais e mostras de cinema do Rio passam por ele.

A ideia da concentração de cinemas em um determinado perímetro urbano foi tão bem aceita pelo público, que outra região carioca ficou conhecida como segunda Cinelândia, a Tijuca. Em seu auge, o bairro da Zona Norte carioca chegou a ter 16 cinemas de rua. O mais famoso, Cinema Olinda, onde atualmente funciona o Shopping 45, comportava 3 158 espectadores. Atualmente, não há nenhum neste formato. Somente cinco salas no último andar do Shopping Tijuca.

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A Tijuca não foi o único bairro a ver seus cinemas de rua desaparecerem; por toda a cidade esse fenômeno pode ser presenciado. O Rio perdeu grandes representantes, desde precursores, como o Pathé e o Parisiense, ambos inaugurados em 1907, a sofisticados, como o Império, Metro-Passeio, badalados, como o Rex, e os icônicos Rian e Miramar, localizados em privilegiadas orlas, o primeiro na de Copacabana e o segundo na do Leblon.

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Mesmo diante deste cenário de baixas, uma pesquisa realizada em 2002 revelou que um cinema de rua era o preferido dos cariocas: o Cine Leblon. Inaugurado em 1951, ele contava originalmente com 1294 lugares. Sua arquitetura, inspirada no Art Deco, foi descrita na Revista Cine Repórter: “Sem exageros e requintes de nouveau riche (…). A sala de espera em mármore prepara o frequentador para as salas de projeção”. Em julho de 2014, a rede Kinoplex, responsável por administrar o cinema, anunciou seu fechamento, alegando não ter conseguido tornar a atividade rentável.

Após passar por por um processo de destombamento – o cinema tinha um tombamento provisório desde 2001 a pedido dos moradores – o grupo Severiano Ribeiro autorizou a Mozak Engenharia a iniciar as obras de um complexo comercial de sete andares. Como parte para aprovação do projeto, estava prevista a manutenção do estilo e a reestruturação de suas três salas de cinema. À frente do processo de revitalização estava o arquiteto André Piva, que morreu este ano vítima de leucemia. O projeto geral é assinado por Eduardo Mandolfo. A inauguração estava prevista para este ano, mas teve que ser adiada para 2021 em decorrência da pandemia do coronavírus.

A imagem mostra a enorme fachada branca do Cine Leblon
Cine Leblon: inauguração adiada em função da pandemia Maria Eduarda Severiano/Divulgação

Márcia Bessa vê o retorno dos cinemas de rua como novas possibilidades de revitalização não só das salas de exibição cinematográficas, mas também dos próprios espaços públicos ao redor, que podem incrementar a vida sociocultural em diversos bairros da cidade. Osvaldo Emery também pensa de forma semelhante. Para ele, um dos grandes diferenciais deste formato de cinema é a sua valorização como equipamento cultural e, por extensão, a valorização da atividade em suas dimensões artísticas, culturais e sociais.

No dia 14 de setembro, uma nova etapa de flexibilização foi adotada pela Prefeitura do Rio, autorizando a reabertura de teatros e cinemas, mas o consumo de alimentos e bebidas permaneceram proibidos, o que inviabiliza a operação, uma vez que a venda de pipoca, refrigerante, doces e outras guloseimas representa 50% do faturamento dos cinemas. As salas só foram reabrir em outubro, seguindo rígidos protocolos de operações.

Gilberto Leal, Presidente do Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro (SEECERJ) acredita que o cinema não é o “patinho feio” da história e que, dentre os diversos setores que retomaram suas atividades, é um dos que tem mais seguido à risca todas as recomendações. Pensando na possibilidade de um novo fechamento das salas, a SEECERJ se antecipou, enviando uma carta a prefeitos e governadores, em que destaca o baixo risco de se contrair Covid-19 em cinemas:

“Não há um registro formal sequer em todo o mundo que aponte o cinema como causador de aumento de casos de Covid-19. Ao contrário, de acordo com levantamento recente realizado pelo site internacional especializado Celluloid Junkie, ressalta-se que não há relação alguma entre a incidência da doença e a abertura das salas, tampouco casos registrados de transmissão dentro das salas de cinema. O título da divulgação da pesquisa resume de forma extremamente clara e objetiva os resultados obtidos: “O número de surtos Covid-19 rastreados em cinemas é zero”.

No último dia 8, o Grupo Estação anunciou que ficará fechado até janeiro de 2021 em decorrência do aumento do número de casos de coronavírus. O grupo conta com 15 salas de cinema espalhadas pela Zona Sul da cidade. Outro famoso cinema de rua da região, o Roxy, já anunciou que só pretende reabrir quando houver vacina contra Covid-19, pois muitos de seus clientes são idosos, moradores do bairro de Copacabana. Essa mesma possibilidade da espera não teve o Cine Joia, e a notícia do seu fechamento definitivo chegou numa sexta-feira, 13. Por conta da crise financeira gerada pela pandemia, em abril deixou de receber R$ 10 000 mensais da RioFilme, e a casa também teve seu contrato revogado pela Prefeitura, que alegou corte de gastos.

A rede de cinemas do Grupo Casal chegou a reabrir suas três unidades – a tradicional de Santa Teresa, a do Museu da República e a do Barra Point, mas no último dia 17, comunicaram em seu site a suspensão de suas sessões devido à falta de filmes e público. Segundo publicação da SEECERJ, o Cine Candido Mendes, também do Grupo Casal, encerrou suas atividades. Procurado pela reportagem, Adil Ticatti, que está à frente do Grupo, preferiu não dar entrevista.

A imagem mostra a fachada antiga do Cine Santa Teresa, com portas altas
Cine Santa Teresa: suspensão de sessões por conta de falta de público João Veneu/Divulgação

Na contramão da crise gerada pela pandemia está a Cavideo, uma tradicional locadora administrada pelo cineasta e produtor Cavi Borges, que ampliou suas atividades e inaugurou no interior das Casas Casadas, sede da RioFilme, em Laranjeiras, o Espaço Cultural Cavideo. Cavi tem ciência de que este é um momento delicado, “o cinema está em baixa”. No entanto, não se deixa abater e já tem uma estratégia para atrair o público pós-pandemia. No rol de atividades, além da midiateca que permite a locação gratuita de filmes em DVD, estão previstos eventos diários que vão desde cineclubes, cursos, palestras, passando por performances e lançamento de livros. Atualmente, o espaço tem recebido uma média de dez pessoas por dia, seguindo o protocolo com as principais recomendações da prefeitura, como a obrigatoriedade do uso de máscaras, medição da temperatura e uso de álcool em gel.

O sentimento que fica é que aquela sala de exibição retratada em Cinema Paradiso está logo ali, na esquina, naquele antigo cinema das nossas lembranças, demolido para dar lugar a um estacionamento, uma igreja ou a um novo prédio. Que os poucos sobreviventes lutam bravamente para manter-se em funcionamento, não querendo habitar apenas os sonhos, ou estar presente nas memórias afetivas daqueles que um dia os frequentaram. Eles lutam para fazer parte de forma ativa da vida cultural da cidade, com suas histórias e patrimônios preservados.

*Jú Miyoshi, João Veneu e Maria Eduarda Severiano, estudantes de comunicação, sob supervisão dos professores da universidade e revisão de Veja Rio

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