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Fundador da ONG Craques da Vida troca os treinos por ações solidárias

Com a paralisação do futebol para evitar aglomerações, Franklin Ferreira começou a arrecadar alimentos para ajudar a Vila Aliança, em Bangu

Por Djalma Feitoza* - Atualizado em 14 jul 2020, 17h40 - Publicado em 10 jul 2020, 13h11

A Vila Aliança, em Bangu, no coração da Zona Oeste, pararia um pouco de pulsar naquele 17 de março. Diante das recomendações da Organização Mundial da Saúde e do governo estadual, a ONG Craques da Vida suspendia os treinos de futebol, em todas as categorias, por tempo indeterminado. Era preciso (ainda é) derrotar a arrancada da Covid-19. A compulsória separação entre a garotada e a bola paralisava atividades esportivas, sorrisos, sonhos. Franklin Ferreira, fundador da ONG, jamais ficou parado.

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Ele recalibraria sua linha de atuação. Juntaria-se ao time das iniciativas solidárias que atenuam, na medida do possível, os impactos do coronavírus em comunidades cariocas. A cruzada contra a pandemia largava com os esforços de conscientização sobre a gravidade da crise sanitária: “Infelizmente, tem aquele ditado: ou você vive na boa ou você aprende na dor”, resume Franklin.

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Com um olhar calejado pelas dificuldades do mundo, ele reconhece que muitos vão perder a guerra para o vírus. Mas ressalta: outros tantos vão se reerguer. Neste trilho da preservação e da recuperação se concentram os esforços de Franklin desde que a pandemia jogou para escanteio as atividades do projeto social. O pai da pequena Maria passou a vestir mais o uniforme de agente comunitário. “Tenho uma filha de 5 anos, sou casado, podia muito bem ficar em casa, tranquilamente. Mas isso me incomoda”, justifica.

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O incômodo era o iminente pesadelo dos moradores diante do inimigo invisível, silencioso, que se alastrava pela Vila Aliança. Franklin passou a dedicar as tardes de quarta a sexta a ajudar os vizinhos a derrotá-lo. As manhãs de sábado seguem o mesmo roteiro. Envolve desde a distribuição de alimentos até ações para conscientizar a galera sobre a importância de medidas como o distanciamento social e a higiene rigorosa.

Os esforços se estenderam, logicamente, à meninada participante dos treinos da Craques da Vida. Enquanto os garotos buscavam superar as dificuldades comunitárias e a saudade da bola, o treinador enviava, pelo grupo criado no WhatsApp, “vídeos de conscientização”: “Mostro para eles que é melhor lutar antes, porque, depois que pegar [o coronavírus], vai ser brabo. Esse é o alerta que tento passar para eles”.

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Noutra frente, Franklin costurou uma ação com o centro cultural A História que eu Conto (CCHC) para distribuir alimentos a famílias atingidas pela pandemia. No feriado de Tiradentes, 21 de abril, a parceria somava 600 cestas básicas doadas.

Sem a pretensão de cobrir toda a comunidade, onde moram mais de 20 mil pessoas, Franklin procura “saber como estão os moradores”, dos mais distantes aos mais chegados. Sempre que pode, assunta como andam as coisas na casa de Dona Glória. Nela passam visitas como Alexandre e Lucas Barros, antigos beneficiários do projeto Craques da Vida, hoje atletas profissionais do Vasco e do Botafogo, respectivamente. Eles também participam da corrente solidária promovida pelo antigo treinador. “A comunidade é muito grande, tem milhares de moradores. Sei que eu não vou ajudar todo mundo. Mas a minha missão é ajudar o maior número de pessoas”.

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A missão desdobra-se em mais duas ações com as quais Franklin está ativamente envolvido: Favela contra o vírus e SOS Favela – Viva Rio. A Favela contra o vírus é uma iniciativa da Central Única das Favelas (Cufa), interligada ao Craques da Vida pela Taça da Favelas. Todas as comunidades que disputam esse torneio integram-se ao movimento da Cufa. Já o SOS Favela representa um desdobramento emergencial da parceria entre Craques da Vida e Viva Rio centrada na educação e no esporte.

Na parte esportiva, crianças das categorias Sub 11 e Sub 12 participarão de campeonatos da Federação Pérolas Negras Viva Rio. Os meninos abaixo de 13 anos vão receber apoio, psicológico, pedagógico, social e escolar. Aqueles entre 14 e 20 anos terão orientações sobre educação financeira, capacitação profissional e empreendedorismo. Essas atividades teriam começado há três meses, se a pandemia não tivesse revirado nossas vidas. Assim, a parceria deslocou-se para o SOS Favela, que distribui, entre as famílias pobres, cestas com produtos de alimentação e higiene comprados pelo Vivo Rio de comerciantes da própria comunidade.

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Adivinha quem faz o meio de campo entre o mercado local e os moradores? Ele mesmo. De quebra, Franklin ainda convoca outras comunidades para reforçar o escrete da solidariedade: “O confronto esportivo entre as comunidades não é impedimento para a solidariedade”, enfatiza.

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Adversários na Taça das Favelas, Vila Aliança e Vila Vintém se aliam para arrecadar e doar alimentos durante a pandemia. “A nossa parte, a gente faz. A favela não para. É movimento o tempo inteiro”, diz Franklin. Palavra de um craque da resiliência. Ele sabe a importância de seguir jogando.

Djalma Feitoza*, estudante de Jornalismo da PUC-Rio, sob orientação de professores do curso e com revisão final da Veja Rio

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