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Cientista sobre flexibilização: ‘É um plano de sacrifício da população’

Integrante do Portal Covid-19 Brasil, o físico e cientista Domingos Alves explica por que o Rio deveria estar em lockdown e não em fase de afrouxamento

Por Carolina Barbosa - 3 jun 2020, 16h51

Após o início do afrouxamento do isolamento social, o Rio pode ter em dez dias um aumento de 150% no número de infectados e mortos pelo novo coronavírus, segundo projeções de um grupo de cientistas de universidades brasileiras à frente do Portal Covid-19 Brasil. De olho no panorama do cenário nacional, os especialistas são unânimes em afirmar que, diante do estágio atual, não era hora de relaxar com as restrições do confinamento. Afinal, o estado fluminense tem a maior taxa de mortalidade por 100 mil habitantes do Sudeste (30,9), enquanto a média nacional é de 13,9.

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“Além da maior taxa de letalidade, o estado e o município do Rio, mostram uma tendência crescente nos últimos cinco dias, o que é bastante relevante neste cenário. Por isso, as medidas de relaxamento, tomadas à revelia de qualquer base científica existente, vão certamente gerar um agravamento da situação no estado”, afirma o físico e cientista de dados Domingos Alves, docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

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Segundo o pesquisador, o município do Rio registra uma situação mais crítica devido à falta de leitos (atualmente a ocupação no SUS é de 83%) e à tendência de aumento de casos já antes da flexibilização das medidas de distanciamento social. De acordo com as estimativas, do total de contaminados pelo novo coronavírus, 30% não apresentarão sintomas, 55% terão sintomas de leves a moderados, 10%, sintomas graves, e 5% serão casos extremamente críticos – o que significa que metade morrerá. Como os sintomas costumam aparecer de cinco a sete dias após o contágio, os cientistas projetam que 15% dos novos infectados vão precisar ser internados em sete dias.

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“Não estou falando de números para daqui um ou dois meses. Essa previsão infelizmente, é para daqui a dez dias, no máximo. A abertura de igrejas, por exemplo, contribuem para aglomerações, porque se trata de um ambiente típico de aglomeração”, justifica Alves. “Se até agora, o prefeito (Marcelo Crivella) e o governador do Rio (Wilson Witzel) não conseguiram fiscalizar de fato se as pessoas estavam em quarentena, sob restrições, por que eles acreditam que agora conseguirão fiscalizar os shoppings e os templos para saber se estão seguindo as recomendações de segurança ou não? Não tiveram controle até agora, acham mesmo que vão conseguir tomar as rédeas na reabertura?”, questiona o cientista.

De acordo com Domingos Alves, no mundo, as tentativas de retomada antes de controle da pandemia, como em Nova York e em Milão, apontaram, na verdade, prejuízos econômicos. Ele cita ainda a Suécia, que resolveu reabrir todo o comércio, e a Dinamarca, que optou por manter tudo fechado durante a fase mais crítica da epidemia. “A Dinamarca, inclusive, salvou muito mais vidas e ainda economizou nos custos de internação”, ressalta. “O cenário que está se pintando no Rio é de que os gestores estão optando por mandar a população ao abate. Não se trata de exagero, infelizmente. Diante do panorama, o Rio deveria ter aderido ao lockdown há duas semanas, não afrouxar o distanciamento. O que as autoridades estão fazendo não é um plano de recuperação econômica, mas de sacrifício da população e todas as evidências científicas convergem para isso”, reforça.

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