Vinho da casa deixa de ser opção mais barata da carta e se torna assinatura

Rótulos exclusivos viram protagonistas e transformam a bebida em uma extensão da cozinha, da marca e da experiência que cada restaurante quer oferecer

Por Alessandra Carneiro 10 jul 2026, 09h07 | Atualizado em 10 jul 2026, 13h39
Pequenos Produtores: Libô apostou num moscato orgânico da vinícola gaúcha De Cezaro com intervenção mínima
Pequenos Produtores: Libô apostou num moscato orgânico da vinícola gaúcha De Cezaro com intervenção mínima (Dani Dacorso/Veja Rio)
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Branco ou tinto? Durante muito tempo, o vinho da casa era aquele rótulo sem grandes pretensões, escolhido mais pelo preço do que pelo prazer da degustação. Muitas vezes servido em jarra ou vendido como a opção mais barata da carta, ele ocupava um papel coadjuvante à mesa. Mas o cenário mudou: restaurantes passaram a investir em parcerias com vinícolas e cooperativas, a fim de transformar um antigo recurso comercial em ferramenta de marketing.

Mais do que gerar lucro, esse produto ajuda a traduzir a personalidade do negócio, reforçar conceitos gastronômicos e criar conexão com o cliente. Exemplos não faltam. A Casa da Glória lançou um espumante com a Vinícola Megiolaro, do Rio Grande do Sul, com rótulo feito pelo ilustrador Felipe Guga. Já o Libô apostou num moscato orgânico da vinícola De Cezaro, também gaúcha, alinhado à proposta da casa de valorizar pequenos produtores e bebidas de intervenção mínima. “A gente queria ter um vinho do dia a dia, com preço bom e a nossa cara”, diz a sommelière Maíra Freire.

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Sommèliere do ano: no descolado bar de vinhos Libô, Maíra Freire, premiada em VEJA RIO COMER & BEBER, optou por um orgânico cheio de personalidade (Tomas Rangel/Divulgação)

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Se antes a principal vantagem era a rentabilidade, hoje alguns restaurantes optam justamente pelo contrário: o lucro é reduzido para fortalecer o relacionamento. Foi o que aconteceu no Grupo BestFork, responsável pelo Giuseppe Grill. Os rótulos nasceram de uma parceria com a vinícola chilena Miguel Torres, resultando em versões de sauvignon blanc e cabernet sauvignon. “Embora seja o produto com a menor margem do nosso portfólio, fizemos questão de oferecer ao cliente a melhor experiência possível”, afirma o restaurateur Marcelo Torres, acrescentando que o primeiro pedido, de 3000 garrafas, esgotou rapidamente.

Na Bráz, o pioneiro chianti, servido na clássica garrafa fiasco, envolta em palha, deu origem a uma família de seis rótulos próprios que hoje responde por cerca de 50% das vendas da bebida na rede, que tem casas no Rio e em São Paulo. Nas operações do italiano Nino, os vinhos da casa representaram quase 52% de todas as garrafas vendidas entre janeiro e maio deste ano. Para Erika Renzetti, sommelière responsável pelo desenvolvimento dos exemplares, o sucesso está ligado à coerência entre bebida e gastronomia. “São mais leves e frescos, e as pessoas perceberam essa compatibilidade”.

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Parcerias internacionais: o Giuseppe Grill se juntou à chilena Miguel Torres (./Divulgação)

A crescente produção brasileira também está na mira de estabelecimentos que investem nessa seara, caso do Cortés Asador, que antes de bater o martelo sobre os dois rótulos desenvolvidos em parceria com a vinícola gaúcha areA15 reuniu sócios, diretores, chefs e sommeliers em degustações de até doze amostras. A ideia é que as bebidas conversem com a gastronomia da casa e traduzam seus valores. “Estamos buscando microvinícolas brasileiras com jovens enólogos para valorizar o produto brasileiro, melhor a cada ano”, explica a sommelière Luciana Bernardes.

Essa busca por autenticidade e exclusividade acompanha uma mudança no comportamento do consumidor, interessado em uma boa refeição, sim, mas em história e personalidade. Essa lógica também move o recém-inaugurado Inexplicável Vinhos, em Botafogo, que abriu as portas já com cinco rótulos próprios da linha de entrada e outros quatro especiais produzidos em tiragens limitadíssimas. E, em agosto, a casa levará clientes à Serra Gaúcha para participar da escolha do novo blend. Afinal, o vinho da casa deixou de ser um detalhe do serviço para se tornar uma assinatura: um rótulo que traduz a cozinha, a filosofia e a personalidade de cada restaurante.   

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Duas pessoas, uma mulher e um homem, podando vinhas secas em um campo aberto. A mulher usa gorro cinza, cachecol vermelho, blusa escura, calça preta com listras brancas e botas marrons. O homem veste roupa camuflada, gorro mostarda, luvas vermelhas e botas verdes. O chão é de terra com grama, e ao fundo há árvores e colinas sob céu claro
Dupla Cidadania: o Nino se uniu à vinícola italiana Famiglia Cotarell (instagram @famigliacoTaRella/Reprodução)

Cada casa, um vinho 

Bares e restaurantes com rótulos próprios 

Giuseppe Grill. A coleção elaborada com a chilena Miguel Torres conta com um sauvignon blanc e um cabernet sauvignon (R$ 156,00 cada). 

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Bráz. O menu dispõe de dois brancos, um rosé e três tintos. O destaque é o Bráz Chianti DOCG (R$ 189,00), feito com as uvas sangiovese e canaiolo. 

Gajos d’ouro. São quatro rótulos com a portuguesa Casal da Coelheira, do Tejo, que vão do Clássico Branco (R$ 140,00) ao Reserva Tinto (R$ 420,00). 

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Casa da Glória. O espumante brut (R$ 118,00) foi elaborado com uvas chardonnay e criado em parceria com a Vinícola Megiolaro, da Serra Gaúcha. 

Libô. Moscato produzido pelo enólogo Daniel De Cezaro, em Farroupilha (RS), servido em taça (R$ 38,00) ou garrafa (R$ 165,00). 

Mamma Jamma. O portfólio tem três opções: o MJ Primitivo Puglia (R$ 126,00), da Itália; MJ Malbec Reserva (R$ 119,00), argentino; e o MJ Carménère (R$ 119,00), do Chile. 

Nino. Disponíveis nas versões tinto e branco, os rótulos nasceram em parceria com a Famiglia Cotarella, da Itália. Servido em taça (R$ 35,00) ou garrafa (R$ 160,00). 

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Locanda São José. São três espumantes, dois tintos e um branco. Entre os destaques, o brut rosé (R$ 156,00), feito em parceria com a Adolfo Lona (RS). 

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Cortés Asador. Há o Corte Bordalês (R$ 189,00) e o Blends (R$ 189,00), um cabernet sauvignon com marselan e 24 meses de barrica. 

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Gurumê. O chardonnay (R$ 103,00) é fruto da parceria com a Don Abel (RS), já o merlot (R$ 112,00) foi desenvolvido pelo prestigiado enólogo Adolfo Lona. 

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