Foie gras proibido no Brasil: o que chefs do Rio pensam sobre a medida

Após sanção da lei, profissionais afirmam que vão cumprir a regra, mas discordam sobre a proibição total do produto

Por Alessandra Carneiro 24 jul 2026, 17h19 | Atualizado em 27 jul 2026, 17h36
Thomas Troisgros Homem branco de barba e cabelo escuro, vestindo camisa branca e avental azul-marinho, sorri levemente para a câmera. Ele está sentado em uma cozinha com azulejos brancos e detalhes verdes, com um pano de prato escrito gros pendurado ao fundo. Copos e talheres estão sobre uma bancada à esquerda
Proibição do foie gras: "sou contra a proibição e também contra os maus-tratos aos animais", diz Thomas Troisgros (Tomas Rangel/Divulgação)
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O Brasil passou a ser o segundo país da América Latina, após a Argentina,  a proibir a produção e a comercialização de foie gras: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei 15.475 nesta sexta-feira (24). A norma aprovada pelo Congresso proíbe alimentos obtidos por meio da alimentação forçada de animais, o gavage. Entre chefs franceses que comandam restaurantes no Rio, a sanção é vista menos como uma disputa entre tradição e proibição e mais como um reflexo das mudanças na relação entre gastronomia e bem-estar animal. Eles afirmam que vão respeitar a nova legislação e defendem que o debate passe pelo desenvolvimento de métodos de produção sem maus-tratos.

Thomas Troisgros, dos restaurantes Toto e Oseille, afirma que a discussão não deveria opor gastronomia e bem-estar animal. Para ele, é possível preservar a tradição francesa sem recorrer a práticas que provoquem sofrimento às aves. “Sou contra a proibição. Mas a discussão, na minha visão, não deveria ser simplesmente proibir o foie gras, mas incentivar melhores práticas de produção e manejo. Existem formas de produzir o produto  sem recorrer ao gavage, e é isso que deveria estar em pauta”, acredita.

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O chef cita experiências bem-sucedidas na Espanha, Itália e Canadá, onde produtores aproveitam o instinto natural de gansos e patos de acumular gordura antes do inverno, sem alimentação forçada. Um dos casos mais conhecidos é o do espanhol Eduardo Sousa, da região da Extremadura, cujo foie gras produzido sem gavage venceu, em 2006, um dos principais prêmios do Salão Internacional de Alimentação de Paris.

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Apesar disso, Troisgros reconhece que a nova legislação inviabiliza o uso do ingrediente em seus restaurantes. “Com a nova regulamentação no Brasil, não vejo adaptação possível no momento a não ser simplesmente deixar de usar o produto”, admite.

Há duas décadas no Brasil, o chef francês Didier Labbé também engrossa o coro dos que defendem outras formas de produção da iguaria. Embora seja admirador do foie gras e formado na escola clássica francesa, ele acredita que a discussão extrapola o ingrediente e convida a refletir sobre os sistemas de produção animal como um todo. “É uma discussão que gera muita polêmica, mas tem pontos muito interessantes e reflexivos. Ela também nos leva a pensar sobre a produção em massa do frango, que vive enclausurado, confinado e é abatido em tão pouco tempo de vida por causa do crescimento extremamente rápido. As técnicas usadas nesse processo também não podem e devem ser repensadas? Acho que o momento é de reflexão”, afirma.

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Para Elia Schramm, que comanda o Francese, a proibição do foie gras no Brasil é uma decisão preocupante e que afeta diretamente a gastronomia e a economia do setor. “Essa medida prejudica gravemente pequenos produtores artesanais que dependem economicamente desse produto. Clássicos mundiais da culinária, como o filé rossini, simplesmente deixarão de existir nos cardápios brasileiros. É um impacto enorme para a cultura gastronômica e para o sustento de muitas famílias.”, afirma.

No La Villa, em Botafogo, o chef Grégoire Fortat afirma que a adaptação será simples. Segundo ele, o foie gras já era um ingrediente pouco utilizado no Brasil devido ao alto custo e à baixa procura. “Por aqui, vamos respeitar a lei. Na França, o foie gras é um produto comum e barato. Já no Brasil, é um produto caro e com poucas vendas. Portanto, a proibição não vai atrapalhar a nossa rotina”, afirma. Fortat considera que a nova legislação também resolve uma insegurança jurídica que existia no país, já que algumas cidades haviam tentado restringir o produto, mas enfrentavam decisões judiciais conflitantes.

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Para o chef, a tendência mundial é de maior preocupação com o bem-estar animal, impulsionada pelo próprio consumidor. “O público que frequenta restaurantes e bistrôs franceses exige cada vez mais responsabilidade socioambiental. Práticas que envolvem sofrimento explícito dos animais, como o gavage, tornaram-se comercialmente arriscadas para chefs e marcas.”

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Ele acredita que o futuro da alta gastronomia passa pela criação de substitutos sofisticados, como o faux gras, preparado com cogumelos, nozes, especiarias e conhaque, já servido em restaurantes estrelados de Nova York. Também cita versões reformuladas de parfaits de fígado e pesquisas na França e na Espanha para produzir foie gras respeitando o ciclo natural de alimentação das aves. “Acredito que vamos explorar caminhos alternativos, mas a proibição do gavage será sem volta”, enlaça.

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