Clique e Assine a partir de R$ 9,90/mês
Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

A ignorância é doença grave no século 21

Evitar informações é uma forma de perpetuar desconhecimento. Segundo o grande autor Guimarães Rosa, “o medo é a extrema ignorância em momento muito agudo”

Por Patricia Lins e Silva 9 dez 2021, 18h03

A notícia de que um Ministério da República não apenas aceita como incentiva denúncias anônimas contra escolas é de pasmar. Caso se pudessem admitir denúncias anônimas sobre escolas (porque nada menos educativo do que uma denúncia anônima), elas nunca são sobre a falta de material, a falta de laboratórios, de banheiros funcionando, de infra estrutura adequada, dos salários baixos dos professores, não. As denúncias esperadas são sobre ideologia política e ideologia de gênero, dois entes vazios que, todos sabem, absolutamente não são os problemas reais das escolas.

É difícil acreditar que um diretor de uma Escola Pública de Resende tenha sido intimado a depor na polícia por causa uma denúncia anônima contra sua escola, acusando-a de expor alunos ao ‘comunismo’, um fantasma que espantosamente ainda assombra desavisados. O que será que se interpreta como ‘comunismo’? Certamente muitas pessoas não sabem o significado da palavra, mas é bastante prático ter uma razão esfíngica para repelir o que não agrada ou interessa, de ideias a pessoas, sem precisar de muita explicação. Cada um entende comunismo como a quimera que puder ou quiser.

Não bastando o enigma tolo do comunismo, lança-se outra ameaça imprecisa que é a ‘ideologia de gênero’, introduzida num manual realizado por um Ministério do Governo. Mais um enigma de esfinge, mas este bastante simples de decifrar: trata-se de pura e simples homofobia com todos os preconceitos ligadas ao assunto. É disfarçada com uma expressão que não quer dizer nada, mas que pode impressionar, mais uma vez, os desavisados.  Antes de prosseguir, é bom esclarecer que em decisão de 13 de junho de 2019 o Supremo Tribunal Federal arbitrou que é crime praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito em razão da orientação sexual da pessoa.Portanto, a homofobia é ilegal. No Brasil o casamento gay é reconhecido pela justiça e Marcos Prado, pesquisador do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da UFMG, lembra que o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que ideologia de gênero não existe.

Num estudo com o título de ‘Rumo a uma teoria social da ignorância’ (1985), Michel Smithson argumenta que a ignorância (assim como o conhecimento) é socialmente construída e negociada. Diferentes tipos de ignorância podem cumprir diferentes funções. Onde o conhecimento induz culpabilidade ou responsabilidade por ações, a ignorância pode conferir inocência ou irresponsabilidade, facilitando assim a ação onde o conhecimento a inibe.

Mas estudos intrigantes são os dos pesquisadores (Jost, Banaji, & Nosek, 2004) que mostram que na relação dinâmica entre as pessoas e os governos, o animal social não age só como um observador imparcial e juiz dos sistemas governamentais e também não depende do governo apenas para o fornecimento de bens físicos tangíveis, como segurança, estradas, água;  curiosamente depende do governo e de outras organizações também para lidar com várias necessidades psicológicas. As pessoas recorrem aos sistemas externos para regular uma série de ameaças relacionais, existenciais e epistêmicas (Jost et al., 2004; Kay et al., 2009; Sullivan, Landau, & Rothschild, 2010). Esta tendência das pessoas de confiar e terceirizar suas preocupações e medos a seus sistemas de governança pode levar à propagação da ignorância no contexto de questões sociais importantes.

Continua após a publicidade

As pesquisas revelam que diante de questões sociais que parecem muito complexas, pessoas sem familiaridade com o assunto costumam recuar e evitar participação. Essa atitude aparece com maior intensidade nas questões consideradas mais urgentes e sérias. Portanto, quando a mudança é mais necessária, as pessoas se tornam inclinadas a defender o status quo e os agentes dos sistemas sociopolíticos. Ao invés de garantir que os responsáveis ​​tenham o máximo de qualificação para estar no comando e notar quaisquer problemas do sistema, os processos psicológicos induzidos por problemas percebidos como de difícil compreensão e gravidade, as pessoas limitam críticas ao sistema e a seu processo de tomada de decisão. Segundo o grande escritor Guimarães Rosa, “o medo é a extrema ignorância em momento muito agudo”.

Isso pode ajudar a esclarecer por que algumas pessoas desejam que assuntos que fazem parte do precioso acervo cultural da humanidade sejam evitados nas escolas de seus filhos. Além de muitos outros fatores, é decorrência da tentativa de manter a crença reconfortante de que o governo e o sistema como um todo podem ser confiáveis, especialmente no contexto de questões importantes que as pessoas não compreendem e desconhecem.

No século do conhecimento, da ciência, das tecnologias digitais, da inteligência artificial, as pessoas precisam ser expostas a informações sobre todo e qualquer assunto para que saibam lidar com a série de desafios de um mundo em transformação.  As novas gerações precisam acreditar em sua capacidade de pensar e discutir, estudar, refletir e pesquisar sobre a realidade em que vivem, para agirem positivamente na sociedade.

Evitar informações é uma maneira de perpetuar a ignorância.

 

 

Continua após a publicidade

Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Saiba tudo o que acontece na Cidade Maravilhosa. Assine a Veja Rio e continue lendo.

Impressa + Digital

Plano completo da Veja Rio! Acesso aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias e revista no app.

Acesso ilimitado ao Site da Veja Rio, diariamente atualizado.

Resenhas dos melhores restaurantes, bares e endereços de comidinhas do Rio.

Receba mensalmente a Veja Rio impressa mais acesso imediato às edições digitais no App Veja, para celular e tablet

a partir de R$ 12,90/mês

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos no site e ter acesso a edição digital no app.

Resenhas dos melhores restaurantes, bares e endereços de comidinhas do Rio.

a partir de R$ 9,90/mês

ou

30% de desconto

1 ano por R$ 82,80
(cada mês sai por R$ 6,90)