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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

“Não mexa com meu futuro!”

Próximas gerações de brasileiros precisarão lutar pela preservação do ambiente favorável à vida e pelo direito a uma educação de qualidade

Por Patricia Lins e Silva 10 nov 2021, 16h16

Em Glasgow, na conferência de cúpula sobre o clima, reuniram-se 130 presidentes e primeiros-ministros com a idade média de 60 anos e em que menos de 10 eram mulheres. Nas ruas, havia protestos de milhares de pessoas lideradas por jovens ativistas do clima, que acusavam os líderes mundiais de desperdiçar o pouco tempo que resta para salvar seu futuro.

A indignação com a lentidão das ações para preservar o ambiente vem, principalmente, de jovens e de mulheres. Mas quem tem o poder de decidir sobre o aquecimento do planeta nas próximas décadas são, em sua maioria, idosos e homens. É uma divisão que deve crescer no futuro próximo. Ambos os lados têm opiniões muito divergentes não apenas quanto aos objetivos da cúpula como também quanto à noção de tempo.

Enquanto os líderes estabelecem metas para 2030, e até metas para 2060 e 2070, os ativistas pedem mudanças já, reivindicam que os países parem de usar combustíveis fósseis imediatamente e reparem os danos climáticos sentidos em todos os cantos do globo, mas que atinge especialmente as pessoas mais vulneráveis ​​no Sul Global. Para eles, meados do século é uma eternidade.

O que torna a divisão geracional do movimento climático tão acentuada é que, afinal, os líderes mundiais se reúnem para decidir as mudanças necessárias desde antes do nascimento da maioria dos jovens manifestantes. Até agora sem resultados.

Os cientistas preveem menos de uma década para o corte drástico das emissões de gases para que se evitem as piores consequências climáticas. As emissões causam o aquecimento global e aumentaram drasticamente desde a primeira cúpula internacional do clima lá pelos idos de 1994. Essa urgência impulsiona os protestos dos manifestantes.

Os líderes mundiais mostraram-se sensíveis às críticas e elogiaram a preocupação dos jovens, não sem uma certa ansiedade porque, afinal, são jovens eleitores e a ação climática emerge como uma importante questão eleitoral. Chefes de estado e de governo discursaram esta semana e garantiram aos participantes que tinham ouvido as demandas da juventude.

Os organizadores da conferência incluíram palestrantes jovens no programa oficial. Uma ativista climática de 24 anos, das Filipinas, disse que se eles estivessem realmente ouvindo “estariam priorizando as pessoas em vez do lucro”. Eric Njuguna, de 19 anos, do Quênia, afirmou que há uma “dissonância cognitiva”. Pensavam em “compromissos sérios na COP26 sobre financiamento para mitigação do clima, mas os compromissos não são fortes o suficiente”.

Há uma grande diferença na forma como os líderes e os jovens ativistas veem a cúpula.

John Kerry, o enviado dos EUA de 77 anos, ficou maravilhado com o progresso porque percebeu “um senso de urgência maior nesta COP”. Reconheceu a complexidade das negociações globais, com diplomatas a tentar elaborar regras para o comércio global de carbono e a discutir como atender às demandas de reparações de países que não desempenharam nenhum papel na criação do problema climático, mas que sofrem seus efeitos mais agudos.

Para os trabalhos da cúpula, as ações são divididas em áreas distintas, o que dilui as necessidades e queixas dos países pobres, para os quais a mudança climática é uma ameaça urgente. E a adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças de clima dependem do apoio dos países ricos, que emitem a maior parte dos gases de efeito estufa que já estão na atmosfera. O sucesso ou o fracasso – que só serão quantificáveis com dificuldade e em retrospectiva – pertencerão a todos.

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O ministro de energia alemão, Jochen Flasbarth, citou três áreas de progresso: um acordo global para reverter o desmatamento até 2030; o compromisso de reduzir as emissões de metano, também até 2030; e um plano de retirada do uso de carvão endossado por três dezenas de países, embora não sejam os seus maiores usuários.

Nos bastidores, os líderes se mostravam impressionados com a indignação dos jovens. Flasbarth expressou preocupação de que os ativistas pensassem que todos os líderes mundiais fossem protetores da indústria de combustíveis fósseis. “Digamos aos jovens que há diferenças, nem todos os políticos e nem todos os países estão do mesmo lado”, disse ele. “O progresso é possível, e este é o grupo do progresso.”

No mesmo encontro, que contou com a presença de um bloco de países chamado High Ambition Coalition, a ministra francesa para a transição ecológica, Barbara Pompili, se reconheceu entre os jovens. Ela foi uma ativista, mas escolheu trabalhar dentro do sistema. “Escolhi ser política”, disse ela. “Eu escolhi tentar atuar.”

As diferenças entre os tomadores de decisão dentro da cúpula e os manifestantes nas ruas vão além da idade e do gênero. Embora os líderes mundiais e chefes de estado sejam em sua maioria homens, as ruas de Glasgow estão cheias de meninas e de mulheres jovens que emergiram como algumas das ativistas climáticas mais apaixonadas, argumentando que muitas das mais vulneráveis ​​à seca, escassez de água e outros desastres climáticos são mulheres de baixa renda com filhos para alimentar. O resultado é que o movimento climático compartilha esforços para educar meninas em países em desenvolvimento. As jovens ativistas encontraram uma irmandade e um senso de poder nos protestos, marchas e campanhas pelo clima. A inspiração para muitas dessas jovens é a ativista sueca Greta Thunberg, que iniciou uma greve pelo clima, às sextas-feiras, num esforço solo em 2018, o que floresceu em um movimento mundial.

Thunberg, agora com 18 anos, se tornou influente e criticou as compensações de carbono, isto é, a proposta de compensar as emissões de carbono em uma área pagando com a redução das emissões em outra área. “A COP se transformou em um evento de relações públicas, onde os líderes fazem belos discursos e anunciam compromissos e metas extravagantes, enquanto por trás dos panos os governos dos países do Norte Global recusam-se a tomar qualquer ação climática drástica”, disse ela.

O cientista climático Michael Mann, de 55 anos, explicou que as negociações entre centenas de países são complexas e que as políticas em torno da política climática não são tão simples quanto podem parecer. Os manifestantes voltaram às ruas empenhados em manter a pressão, “para continuar a responsabilizar os líderes por suas ações”.

Daphne Frias, uma ativista climática de 23 anos da cidade de Nova York, deu um aceno para o inevitável: a mudança geracional está chegando. “Nossos líderes falharam conosco”, disse ela. “Nós somos os novos líderes. Nós é que vamos tomar as decisões daqui para frente.”

A tentativa de não deixar aquecer mais a atmosfera da Terra é, certamente, a briga das próximas gerações. As escolas podem ajuda-las, trazendo para dentro de seu espaço especialistas e propondo discussões com os alunos. Quem sabe até organizando painéis todas as sextas-feiras para que fundamentem sua luta.

Nós, no Brasil, temos muitas lutas a travar. A começar por um Ministério da Educação  completamente despreparado e desinteressado pela educação no país. Seu trabalho tem sido desmontar uma estrutura – fundamental num país de dimensões continentais – que, bem ou mal, fazia funcionar uma rede de escolas. Por inépcia ou dolo, não investe nem parece acreditar na necessidade de uma educação de qualidade. Até agora, só mostrou desorientação, ambiguidade e arbitrariedade em suas ações.

As próximas gerações de crianças e jovens brasileiros precisarão lutar por um ambiente favorável à vida, e terão que acrescentar a luta pelo direito a uma educação de qualidade. Ou, como estava estampado num banner em Glasgow, precisam gritar “Não Mexa Com Meu Futuro”.

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