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Mirante

Não me lembro do que falávamos quando o papo começou. Se era um tema escolhido por um de nós ou nascido ao acaso: uma notícia de jornal, um sonho da noite anterior ou mesmo uma cena de rua ou os caprichos do tempo. Como se víssemos o mundo e a vida do alto de um […]

Por Daniela Pessoa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 25 fev 2017, 17h33 - Publicado em 30 abr 2016, 01h00

Léo Martins

Não me lembro do que falávamos quando o papo começou. Se era um tema escolhido por um de nós ou nascido ao acaso: uma notícia de jornal, um sonho da noite anterior ou mesmo uma cena de rua ou os caprichos do tempo.

Como se víssemos o mundo e a vida do alto de um mirante. Carla, a única mulher constante na turma, falou:

— Escutem só o meu horóscopo para hoje: “Boa receptividade para quaisquer novos empreendimentos financeiros”. Esse conselho chegando logo hoje, quando eu soube que as poucas e miseráveis ações que comprei por sugestão do meu ex-marido já eram!

— Só você mesmo para seguir conselho de um ex-marido magoado, humilhado, que deve sonhar com a sua falência e com ele aparecendo então para te estender um prato de comida.

— Ele que vá esperando! Prefiro a fome! Ah, mas no amor há grande esperança. Ouçam: “Abra o seu coração, não apenas os olhos. Você está preparada para um novo amor!”.

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— E a saúde?

— Deixa eu ver… Ah, está aqui: “Saúde regular. Cuide-se. O período não é favorável”. — Carla fechou o jornal.

— Bobagem. E, depois, o amor é mais importante do que a saúde!

— Espere chegar na minha idade. Nada é mais importante que a saúde.

— Por falar nisso, todos aqui foram vacinados?

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Todos confirmaram.

— Na abertura do posto do Leblon, estava eu lá, pontualmente.

— Um professor de teatro que eu conheci tinha uma posição original sobre a pontualidade. Dizia: quem chega na hora está atrasado, quem chega adiantado está na hora.

— Tem cara de professor inglês ou alemão.

— O homem era americano.

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— Li noutro dia alguém que afirmava não ser importante sentar-se de frente para a mulher amada, olhos nos olhos. O importante é os dois olharem na mesma direção.

— Bonito.

— Bonito e vazio.

Chegou o vinho à mesa. Alguns minutos depois, o grana padano, e as palavras continuaram a pipocar entre nós, aleatoriamente.

— Acertei três números na Mega-Sena.

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— É melhor não acertar nenhum.

— Ninguém troca o bilhete de loteria que saiu em branco. Se o adultera para receber o prêmio, vai para a cadeia. O bilhete em branco é o sonho. Joga-se fora e fica-se com a realidade.

— De uns tempos pra cá, as coisas caem das minhas mãos. É uma sensação horrível. Se pego uma xícara de café, minha mulher exclama, apavorada: — Cuidado para não derrubar esse café quente em cima de você e se queimar!

— Que carinho!

— Você é um homem de sorte!

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— A minha mulher também se apavora. Não pelo risco que eu corro de me queimar, mas com medo de que eu derrube sobre o tapete da sala.

Alguém entrou no Café Severino esfregando as mãos.

— Está esfriando lá fora. Não se pode confiar no tempo.

E me veio à memória, no mesmo momento, o som da voz de minha mãe, me despachando para a escola:

— Está quente, filho, mas leva um agasalho, porque, você sabe, o tempo muda sem aviso prévio.

— A vida também, mãe — diria eu hoje, olhando o mundo do alto de um mirante.

E minha mãe repetindo baixinho:

— A vida também, filho.

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