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Manoel Carlos

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Blog do novelista Manoel Carlos

Migalhas

Leia na crônica de Manoel Carlos

Por Manoel Carlos 10 jul 2017, 08h00 | Atualizado em 10 jul 2017, 08h00
Léo Martins
 (Léo Martins/Veja Rio)
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De grão em grão, de bocado em bocado, de migalha em migalha. Quem gostava desse exercício literário era Adolfo Bioy Casares, o escritor argentino, amigo e parceiro de Jorge Luis Borges, com quem dividiu algumas autorias de sucesso. Uma das obras de Bioy, que eu coloco entre as mais importantes, não foi escrita por ele, mas por um punhado de autores involuntários. Bioy apenas publicou o que ouviu ou leu em alguns instantes da sua vida. Usando da mesma fonte de inspiração, eu deixo aqui, hoje, três exemplos de uns poucos grãos, bocados ou migalhas, já que também anoto e coleciono muita coisa que vejo e leio, embora eu não tenha — nem de longe — o brilho de Bioy Casares.
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Nova York não existia ainda para a nossa imaginação, apesar de já cultuada por uma elite desde a década de 40, quando a II Guerra assombrava o mundo. Humphrey Bogart, Gene Tierney, Barbara Stanwyck, George Raft, Fred MacMurray, Robert Mitchum e Edward G. Robinson eram alguns dos nomes mais fulgurantes do cinema. E entre as atrizes que atraíam a nossa admiração estavam as estrelas dos filmes leves, recheados de loiras lindas e atraentes. A campeã da minha adolescência era Betty Grable. Creiam: íamos ao cinema Rialto e nos sentávamos na primeira fila, onde acreditávamos ter uma visão mais abrangente das suas belas pernas. Coisas de meninos entre 11 e 14 anos.
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No Café Severino nasceu uma nova diversão: inventar estatísticas e estabelecer competições, como, por exemplo, quais são as mais belas pernas do jornalismo da GloboNews. Não existe inscrição para esse “concurso”, uma vez que a participação é compulsória. Sabe quem ganhou entre todos os concorrentes masculinos? Sérgio Chapelin. Uma vitória expressiva de 4 para cada 5 votos para o vencedor.
***
Na sala de espera de um médico geriatra, encontro uma senhorinha cochilando. Calculo que tenha 90 anos. Pergunto:

— Posso me referir à senhora como uma mulher idosa muito linda ou uma mulher de meia-idade ou ainda…

Ela corta, sorrindo:

— Prefiro que me chame de uma velhinha muito linda.
***
Tenho uma amiga que sonhou ser médica, mais precisamente neurocirurgiã. Um dia, no corredor de um hospital, foi apresentada ao mais renomado dos neurocirurgiões do país. Reuniu coragem e perguntou:

— Posso lhe pedir uma opinião?

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— Pois não, senhora, se eu puder…

— Seguinte: meu sonho é ser neurocirurgiã. Como o senhor. O que acha?

— Acho uma má escolha.

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— ?

— Pense bem: quem vai ter coragem de entregar a cabeça para uma mulher abrir e operar?

Ela se formou oculista.

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