Frankel Brandão (cardiologista): “O que vale mesmo é a vida”
A medicina me ensinou sobre o corpo humano e o coração. Os meus pacientes me ensinam sobre a vida
Passei boa parte da minha vida estudando medicina. Aprendi como o coração funciona, por que o corpo adoece e como a ciência evolui para que possamos prevenir doenças e viver mais. Estudei fatores de risco, longevidade, qualidade de vida e tudo aquilo que a medicina moderna tem descoberto para aumentar nossa expectativa de vida.
Mas, com o passar dos anos, percebi que algumas das lições mais profundas da minha vida jamais estiveram nos livros. Vieram das pessoas que se sentaram à minha frente.
A medicina me ensinou sobre o corpo humano e o coração. Os meus pacientes me ensinam sobre a vida.
Durante uma consulta, fiz uma pergunta ao Sr. Francisco, de 93 anos.
O senhor reclama muito da vida?
Ele olhou para mim, sorriu e respondeu:
“Não. Eu sou grato à vida. A vida é uma dádiva. A vida é uma experiência única que nós temos e não sabemos o que vai acontecer amanhã. O que passou, passou. O passado é como um sonho. O amanhã é ilusório. O que nós temos é o aqui e o agora. Então temos que agradecer a vida. A vida é bela e boa de se viver. Lógico que temos os nossos problemas. Nem sempre é um mar de
rosas. A nossa vida é uma alternância de frustrações e alegrias. Mas o que vale mesmo é a vida.”
Por alguns instantes, esqueci que estava no consultório. Permaneci em silêncio.
Passei anos estudando maneiras de prevenir doenças e prolongar a vida. Naquele dia, porém, percebi que um homem de 93 anos estava me ensinando algo ainda mais importante: por que vale a pena prolongá-la.
Vivemos em uma época curiosa. Nunca tivemos tantos recursos para prolongar e facilitar a vida e, ainda assim, continuamos com a sensação de que não temos tempo suficiente para vivê-la.
Adiamos conversas importantes. Adiamos viagens. Adiamos o cuidado com a saúde. Vivemos como se o futuro fosse uma garantia, quando, na verdade, ele é apenas uma possibilidade.
Não temos tempo para dormir melhor.
Não temos tempo para nos alimentar melhor.
Não temos tempo para nos exercitar.
Não temos tempo para estar com quem amamos.
Não temos tempo para cuidar da nossa saúde.
Vivemos adiando o início de tantas coisas.
A atividade física fica para a próxima semana. Os exames para o próximo mês. A viagem para quando a agenda permitir. O abraço para outro dia.
Talvez por isso as palavras do Sr. Francisco tenham encontrado tanto espaço dentro de mim.
“O passado é como um sonho.” Quantas vezes permanecemos presos a acontecimentos que já não podem ser modificados?
“O amanhã é ilusório.” Quantas vezes deixamos de viver o presente tentando controlar um futuro que talvez nunca aconteça?
“O que vale mesmo é a vida.” Talvez essa seja a maior lição.
Compreendi que a medicina moderna conquistou algo extraordinário: aumentamos a expectativa de vida, reduzimos a mortalidade por inúmeras doenças e aprendemos a prevenir condições que antes pareciam inevitáveis. Mas também passei a acreditar que existe uma missão igualmente importante: ajudar as pessoas a viverem melhor o tempo que conquistaram.
É observando histórias como a do Sr. Francisco que minha forma de compreender a medicina continua se transformando. Aos poucos, percebi que meu trabalho nunca foi apenas proteger o coração contra um infarto ou o corpo contra o adoecimento. Meu verdadeiro compromisso passou a ser proteger aquilo que o coração sustenta: a possibilidade de viver plenamente.
Foi dessa transformação que nasceu um conceito que hoje orienta a minha vida e a minha prática médica, e que eu chamo de EnVIVERcer. Não porque acredito que seja possível impedir a passagem do tempo. Mas porque acredito que envelhecer pode ser muito mais do que acumular anos. Pode significar acumular vida, significado, autonomia, gratidão e presença.
Porque, no fim, entre todas as conquistas da medicina moderna, nenhuma será maior do que preservar nossa capacidade de reconhecer, todos os dias, que o que vale mesmo é a vida.
Frankel Brandão é médico cardiologista, especialista pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), com pós-graduação em Nutrologia, Gerontologia e Medicina do Exercício e do Esporte. Atualmente, aprofunda sua formação científica como mestrando em Ciências Cardiovasculares, integrando pesquisa e prática clínica com foco na prevenção cardiovascular, saúde cardiometabólica, longevidade e medicina do estilo de vida.





