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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Frankel Brandão (cardiologista): “O que vale mesmo é a vida”

A medicina me ensinou sobre o corpo humano e o coração. Os meus pacientes  me ensinam sobre a vida

Por Daniela 11 jul 2026, 07h10
Homem branco de barba e cabelo escuros, sorrindo, veste blazer cinza e camiseta preta, sentado em escritório com plantas ao fundo e um notebook à frente
 (./Divulgação)
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Passei boa parte da minha vida estudando medicina. Aprendi como o coração  funciona, por que o corpo adoece e como a ciência evolui para que possamos  prevenir doenças e viver mais. Estudei fatores de risco, longevidade, qualidade  de vida e tudo aquilo que a medicina moderna tem descoberto para aumentar  nossa expectativa de vida.

Mas, com o passar dos anos, percebi que algumas das lições mais profundas da minha vida jamais estiveram nos livros. Vieram das pessoas que se sentaram à minha frente.

A medicina me ensinou sobre o corpo humano e o coração. Os meus pacientes  me ensinam sobre a vida.

Durante uma consulta, fiz uma pergunta ao Sr. Francisco, de 93  anos.

O senhor reclama muito da vida?

Ele olhou para mim, sorriu e respondeu:

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“Não. Eu sou grato à vida. A vida é uma dádiva. A vida é uma experiência única  que nós temos e não sabemos o que vai acontecer amanhã. O que passou,  passou. O passado é como um sonho. O amanhã é ilusório. O que nós temos é  o aqui e o agora. Então temos que agradecer a vida. A vida é bela e boa de se  viver. Lógico que temos os nossos problemas. Nem sempre é um mar de

rosas. A nossa vida é uma alternância de frustrações e alegrias. Mas o que  vale mesmo é a vida.”

Por alguns instantes, esqueci que estava no consultório.  Permaneci em silêncio.

Passei anos estudando maneiras de prevenir doenças e prolongar a vida.  Naquele dia, porém, percebi que um homem de 93 anos estava me ensinando  algo ainda mais importante: por que vale a pena prolongá-la.

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Vivemos em uma época curiosa. Nunca tivemos tantos recursos para prolongar  e facilitar a vida e, ainda assim, continuamos com a sensação de que não  temos tempo suficiente para vivê-la.

Adiamos conversas importantes. Adiamos viagens. Adiamos o cuidado com a  saúde. Vivemos como se o futuro fosse uma garantia, quando, na verdade, ele  é apenas uma possibilidade.

Não temos tempo para dormir melhor.

Não temos tempo para nos alimentar melhor.

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Não temos tempo para nos exercitar.

Não temos tempo para estar com quem amamos.

Não temos tempo para cuidar da nossa saúde.

Vivemos adiando o início de tantas coisas.

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A atividade física fica para a próxima semana. Os exames para o próximo mês.  A viagem para quando a agenda permitir. O abraço para outro dia.

Talvez por isso as palavras do Sr. Francisco tenham encontrado tanto espaço  dentro de mim.

“O passado é como um sonho.” Quantas vezes permanecemos presos a  acontecimentos que já não podem ser modificados?

“O amanhã é ilusório.” Quantas vezes deixamos de viver o presente tentando  controlar um futuro que talvez nunca aconteça?

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“O que vale mesmo é a vida.” Talvez essa seja a maior lição.

Compreendi que a medicina moderna conquistou algo extraordinário:  aumentamos a expectativa de vida, reduzimos a mortalidade por inúmeras  doenças e aprendemos a prevenir condições que antes pareciam inevitáveis.  Mas também passei a acreditar que existe uma missão igualmente importante: ajudar as pessoas a viverem melhor o tempo que conquistaram.

É observando histórias como a do Sr. Francisco que minha forma de  compreender a medicina continua se transformando. Aos poucos, percebi que  meu trabalho nunca foi apenas proteger o coração contra um infarto ou o corpo contra o adoecimento. Meu verdadeiro compromisso passou a ser proteger  aquilo que o coração sustenta: a possibilidade de viver plenamente.

Foi dessa transformação que nasceu um conceito que hoje orienta a minha  vida e a minha prática médica, e que eu chamo de EnVIVERcer. Não porque  acredito que seja possível impedir a passagem do tempo. Mas porque acredito  que envelhecer pode ser muito mais do que acumular anos. Pode significar  acumular vida, significado, autonomia, gratidão e presença.

Porque, no fim, entre todas as conquistas da medicina moderna, nenhuma será  maior do que preservar nossa capacidade de reconhecer, todos os dias, que o  que vale mesmo é a vida.

Frankel Brandão é médico cardiologista, especialista pela Sociedade Brasileira  de Cardiologia (SBC), com pós-graduação em Nutrologia, Gerontologia e  Medicina do Exercício e do Esporte. Atualmente, aprofunda sua formação científica como mestrando em Ciências Cardiovasculares, integrando pesquisa  e prática clínica com foco na prevenção cardiovascular, saúde  cardiometabólica, longevidade e medicina do estilo de vida.

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