O Brasil na Garrafa
Indústria fluminense é destaque de exportação da bebida que é símbolo de soft power e brasilidade.
Em 13 de setembro de 1649, foi assinada uma ordem real rigorosa reafirmando restrições já existentes à produção e comercialização da cachaça no Brasil. Anos mais tarde, entre 1660 e 1661, ocorreu a Revolta da Cachaça, quando produtores da bebida, da região de São Gonçalo e Itaboraí, se rebelaram contra as diversas e sucessivas proibições e taxações da cachaça. Foi a primeira rebelião ocorrida no Brasil, sendo simbólica como o nascedouro de um sentimento de identidade territorial e espírito de influenciar a política local, tendo sido determinante para pôr fim a imposições governamentais contra a bebida. Em 1661, com o fim da rebelião, oficializou-se a liberação da produção e venda no Brasil.
No entanto, no país do futebol, do carnaval, da biodiversidade da Mata Atlântica, da Amazônia, entre outras tantas manifestações culturais, o destilado mais antigo das Américas, surgido no século XVI, migrou de bebida marginalizada para os mercados mais exigentes do mundo. Segundo dados do Anuário da Cachaça, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, em 2025, estavam registrados no país 1.538 estabelecimentos ativos cuja atividade principal é a fabricação de cachaça. O Brasil alcançou a marca de 11.131 marcas. Entre os estados, observa-se uma concentração no Sudeste, com 961 unidades, o que representa 62,5% do total do país. O Rio de Janeiro possui 82 produtores e 761 marcas, distribuídos entre 44 municípios.
O estado fluminense tem se destacado pela atenção às etapas de fabricação e pela valorização do produto cachaça de alambique. Produtores fluminenses têm se reunido em torno da Associação dos Produtores de Cachaça do Estado do Rio de Janeiro (Apacerj), que atua em prol da formalização dos estabelecimentos e da ação de padrões de qualidade e práticas sustentáveis. A produção estadual não se destaca pelo volume, mas por ocupar a segunda colocação no país em valores exportados, por mais de uma década. Justamente pela qualidade das cachaças premium produzidas no estado.
Além disso, o mercado tem apresentado tendências do mercado que criam valor para os produtos. Há pelo menos duas décadas, a cachaça passa por mudanças na forma como é vista e consumida. As tendências apontam para a diminuição de consumo em volume, mas para o crescimento em valor e significado.
A cachaça é instrumento de soft power, fortalece a imagem do Brasil mundo afora por meio de todo o simbolismo que esta bebida carrega em si. Ou o que podemos chamar também de Brasil Core, um movimento de valorização global da nossa identidade. Este é um movimento com origem na moda, que transforma estética, cultura e estilo de vida tropical em ativos econômicos e simbólicos. A cachaça, principalmente a caipirinha, exalam brasilidade e Brasil Core, estampando, por exemplo, camisetas da marca Farm.
Por fim, vale o destaque da origem dos produtos, que se torna diferencial diante do mercado global. Esta é a valorização do terroir e das indicações geográficas que redefinem a forma como a bebida se posiciona. Ao associar origens, condições naturais e saberes produtivos a um território específico, a bebida incorpora atributos da autenticidade valorizado por um consumidor mais atento. O território também se torna ponto de interesse para visitantes que buscam identificação com identidade da bebida.
O município de Paraty, em 2024, passa a ter a sua cachaça reconhecida como Denominação de Origem, garantindo que ela é resultado tanto de fatores naturais, como a proximidade com o mar, quanto do saber-fazer de gerações. É lá que está localizada, por exemplo, a cachaçaria Maria Izabel, cultivada com métodos orgânicos e sob processos artesanais, sem uso de substâncias sintéticas. A empresa trabalha, desde 1996, com diferentes métodos de armazenamento e envelhecimento.
Dentro desse contexto, acaba na próxima semana a exposição “O Brasil na Garrafa: cachaça – identidade, cultura e tecnologia“, realizada pela Casa Firjan e Apacerj, que provoca uma imersão para muito além da bebida alcoólica: com artes plásticas e fotografias, rótulos antigos e designs modernos das garrafas comercializadas atualmente, sua presença na literatura e na música ou em rituais religiosos e festas populares e, claro, na gastronomia e na coquetelaria.
Tudo isso só reforça a imagem da cachaça enquanto soft power e patrimônio histórico, material e imaterial do Brasil.
Coluna assinada em parceria com Katia Espírito Santo, presidente da Apacerj, e Maria Isabel Oschery, gerente de Inovação e Conteúdo da Casa Firjan.






