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Fernanda Torres

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Blog da atriz Fernanda Torres

Luto

Em uma das cenas do espetáculo A Mulher que Matou os Peixes… e Outros Bichos, adaptação para o teatro dos contos de Clarice Lispector para os pequenos, Mariana Lima, Luciana Fróes e Ricardo Linhares contavam da alegria dos bichos de estimação que tiveram. O cachorro, o gato, a galinha, um não acabar de seres fofinhos, […]

Por Daniela Pessoa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 jun 2013, 16h02 | Atualizado em 25 fev 2017, 19h06

Em uma das cenas do espetáculo A Mulher que Matou os Peixes… e Outros Bichos, adaptação para o teatro dos contos de Clarice Lispector para os pequenos, Mariana Lima, Luciana Fróes e Ricardo Linhares contavam da alegria dos bichos de estimação que tiveram. O cachorro, o gato, a galinha, um não acabar de seres fofinhos, que alegravam seus donos com as estripulias deles, as brincadeiras, os carinhos e a amizade.

De repente, depois de um “aí…” , as crianças concluíam com o olhar vago: “… ele morreu”. E o outro? “Também morreu”, assim como o terceiro e o quarto da lista. Era de uma melancolia sem fim.

Os animais domésticos costumam viver menos do que os humanos. Quem se apega com frequência aos peludos e penados sabe da sucessão de óbitos, lágrimas e dramas bíblicos que pontuam essa relação. Para alguém mais suscetível, como eu, a desculpa de que apartamento não é lugar para cachorro vem bem a calhar. Não sou insensível, amei profundamente o Bodoque, o Joe, a Etelvina e a Frida. Chorei com a morte de cada um deles, a ponto de querer evitar novas perdas.

Para não ser acusada de mãe desnaturada pelos meus filhos, comprei um buldogue francês para o sítio. O Bife durou pouco, tinha problemas respiratórios seriíssimos e se afogou na piscina há três meses. Não desistimos, ganhamos um filhote de pastor preto e branco, como a mãe adotiva de Babe, o Porquinho. Platão faz o gênero intelectual e, mesmo sem possuir muita coragem, gosta de se aventurar sozinho pela mata. Vem tragédia por aí.

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Em casa, no Rio, procurei cultivar a confiança dos animais silvestres. Achei que estaria imune à tristeza com eles. Por um ano, cativei dois casais de passarinhos com pão seco.

Afeiçoei-me imenso aos quatro. Sábados atrás, acordo em uma manhã chuvosa e dou de cara com o bem-te-vi macho pendurado que nem morcego, preso na palha da palmeira que ele usava para fazer o ninho. A pata estava quebrada de tanto que ele se debateu. Peguei a tesoura, cortei o ramo e o seguramos com um pano para que não caísse no chão. Agimos em mutirão. Nós nos preparávamos para levá-lo ao veterinário quando o acidentado voou e se acocorou no canto da varanda. Tentei segurá-lo, mas ele escapuliu com a asa avariada, o pé torto, e conseguiu chegar até o parapeito. Ficou ali, respirando na beira do precipício e, em um piscar de olhos, já não estava mais lá.

Foi de cortar o coração.

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Como se não bastasse, dali a uma hora, a esposa fiel do passarinho apareceu piando. Piando, não, ganindo pelo companheiro. Era um gemido sofrido, doído, desesperado; acabou com o fim de semana. Pensei na situação dela, viúva, com o marido desaparecido e um ninho para terminar. Abandonaria os ovos? Ou encontraria um novo amor, na imensidão do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, compreensivo o bastante para ajudá-la com as crias do ex?

Não guardo esperanças de rever meu bem-te-vi.

A esta altura, já deve estar cantando no poleiro dos anjos.

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A fêmea voltou chamando mais de uma vez. Hoje, colheu palha na mesma palmeira sem soltar um gorjeio. Conformou-se. Está enfrentando sozinha, a coitada.

Meu receio é que ele tenha morrido achando que a culpada pelo destino dele fui eu.

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