Depois do rosto e do corpo, a pressão estética chegou à intimidade?
O problema não está na existência dos tratamentos, mas na possibilidade de começarmos a criar defeitos para justificá-los
Durante muito tempo, a intimidade feminina foi cercada por silêncio. Mulheres conviviam com dor, ressecamento, desconforto, alterações após a gestação ou a menopausa e até doenças dermatológicas sem falar sobre isso — muitas vezes nem mesmo com seus médicos.
Felizmente, isso está mudando.
Hoje falamos mais sobre sexualidade feminina, menopausa, saúde vulvar e qualidade de vida. As mulheres conhecem melhor o próprio corpo, perguntam mais e procuram ajuda para questões que, durante gerações, foram tratadas como algo que deveria ser suportado em silêncio.
Essa mudança é uma conquista. Mas, como médica, começo a observar também o outro lado dessa história.
Depois do rosto, do corpo, do cabelo e de tantas outras áreas, será que a pressão estética chegou também à intimidade?
Nos últimos anos, aumentou o interesse por procedimentos voltados à região íntima feminina.
Existem tratamentos para flacidez, perda de volume, alterações de pigmentação, cicatrizes, mudanças na qualidade da pele e uma série de outras queixas.
Alguns têm indicações médicas importantes e podem melhorar de maneira significativa o conforto e a qualidade de vida. Outros têm finalidade predominantemente estética — o que também é legítimo quando existe um desejo consciente da paciente e uma indicação segura.
O problema não está na existência dos tratamentos.
Está na possibilidade de começarmos a criar defeitos para justificá-los.
A anatomia genital feminina apresenta uma diversidade enorme de formatos, tamanhos, tonalidades e assimetrias. Vulvas não são iguais. Envelhecem, mudam depois da gestação, sofrem influência hormonal e se transformam ao longo da vida, como qualquer outra parte do nosso corpo.
Mas basta uma determinada imagem começar a se repetir nas redes sociais para que aquilo que sempre foi normal passe a parecer inadequado.
Já vimos esse fenômeno acontecer com o rosto. Poros passaram a incomodar mais. Pequenas assimetrias ganharam importância. Linhas naturais de expressão começaram a ser percebidas cada vez mais cedo. Características que antes simplesmente faziam parte de um rosto passaram a receber nomes, protocolos e tratamentos.
Agora precisamos ter cuidado para não reproduzir o mesmo processo em uma região ainda mais íntima.
E existe outra confusão que precisamos evitar: associar uma determinada estética íntima a uma vida sexual melhor.
Saúde sexual e prazer são muito mais complexos do que a aparência da vulva. Envolvem desejo, conforto, ausência de dor, lubrificação, sensibilidade, conhecimento do próprio corpo, autoestima, intimidade e qualidade das relações. Não existe um formato, uma cor ou uma aparência “ideal” capaz de garantir nada disso.
É claro que, quando uma característica física provoca desconforto, dor ou interfere na autoestima a ponto de repercutir na vida sexual, tratá-la pode trazer benefícios reais. Mas é muito diferente melhorar uma queixa concreta de criar a expectativa de que uma vulva esteticamente “perfeita” produzirá mais prazer, desejo ou satisfação sexual.
Talvez este seja mais um padrão do qual precisemos nos libertar: uma vida sexual saudável não depende de uma anatomia íntima perfeita.
Há uma diferença enorme entre tratar algo que incomoda uma paciente e ensinar uma paciente a se incomodar com algo para depois oferecer a solução.
E essa diferença deveria fazer parte da ética de quem trabalha com estética médica.
Não acredito em demonizar procedimentos. Trabalho há muitos anos justamente cuidando da pele, da aparência e da autoestima das pessoas e sei o impacto positivo que um tratamento bem indicado pode ter. A saúde da mulher evoluiu de maneira extraordinária e nos oferece possibilidades que seriam inimagináveis algumas décadas atrás.
Mas talvez justamente por termos tantas possibilidades precisemos desenvolver também a capacidade de estabelecer limites.
Nem tudo o que pode ser tratado precisa de tratamento. E nem tudo o que pode ser modificado precisa ser corrigido.
Na região íntima, isso se torna ainda mais importante porque uma queixa aparentemente estética pode, inclusive, esconder uma condição médica.
Coceira, ardência, alterações de pigmentação, fissuras, dor ou mudanças na textura podem estar relacionadas a doenças dermatológicas ou ginecológicas que precisam de diagnóstico e de tratamento adequados.
Da mesma forma, sintomas que aparecem no climatério e na menopausa podem ter relação com alterações hormonais e merecem uma abordagem médica muito mais ampla do que simplesmente escolher uma tecnologia ou um procedimento.
A consulta, portanto, não deveria começar pelo aparelho,preenchimento e/ou bioestimulador de colágeno.
Deveria começar pela paciente:
O que a incomoda? Há quanto tempo?
Existe desconforto físico ou a insatisfação apareceu depois de uma comparação? Aquilo representa uma alteração que precisa ser tratada ou apenas uma variação normal da anatomia? Existe uma doença que precisa ser investigada?
E, talvez uma das perguntas mais importantes: o que essa paciente espera encontrar depois do tratamento?
A medicina não pode ignorar o desejo estético. Mas também não deveria fabricá-lo.
Existe algo muito positivo acontecendo quando mulheres finalmente se sentem livres para falar sobre o próprio corpo, sua sexualidade e sua intimidade. Não podemos permitir que essa liberdade seja substituída por uma nova forma de vigilância.
Talvez um dos maiores sinais de evolução da medicina estética não seja saber fazer cada vez mais procedimentos.
Seja saber quando fazer — e, principalmente, quando não fazer.
Porque, algumas vezes, uma das coisas mais importantes que uma médica pode dizer a uma mulher dentro do consultório é também uma das mais simples:
Isso é normal. Você não precisa corrigir nada.
Eu acho chique o imperfeito.





