O que levamos conosco até a urna?
Na medicina e na vida em sociedade, o bem-estar coletivo depende da nossa capacidade de enxergar para além de nós mesmos
Ontem, milhões de brasileiros estiveram diante de uma urna. Sozinhos.
Talvez exista algo de muito simbólico nessa imagem. Por alguns instantes, desaparecem as discussões à mesa, os grupos de WhatsApp, as redes sociais, as opiniões dos amigos, da família, dos colegas de trabalho. Ninguém pode apertar aquela tecla por nós.
A escolha é individual. Mas suas consequências nunca são apenas individuais. E talvez seja justamente aí que comece a reflexão mais importante sobre cidadania. Em períodos eleitorais, falamos muito sobre candidatos, partidos, pesquisas, propostas, disputas e resultados. Falamos menos sobre nós mesmos. Sobre qual é a nossa responsabilidade dentro de uma democracia.
Temos histórias diferentes, experiências diferentes, prioridades diferentes. Naturalmente, podemos olhar para o mesmo país e imaginar caminhos distintos para ele. Democracia nunca significou pensar da mesma forma. Ao contrário. Ela existe justamente porque somos diferentes e precisamos encontrar uma maneira de construir uma sociedade comum apesar dessas diferenças.
O desafio talvez esteja em compreender que o direito que considero tão valioso para mim — o de formar minhas próprias convicções e fazer minhas escolhas — precisa ser igualmente reconhecido no outro. Inclusive quando ele escolhe diferente. Isso não significa deixar de discordar. Tampouco abandonar princípios ou convicções. Uma sociedade democrática precisa do debate, do contraditório e da crítica.
Mas existe uma enorme distância entre discordar de uma ideia e desqualificar uma pessoa. Entre defender uma posição e perder a capacidade de escutar. Entre ter convicções e acreditar que somente quem pensa como nós merece respeito. Talvez uma das responsabilidades mais difíceis do cidadão seja justamente resistir a essa simplificação.
Porque é confortável imaginar o mundo dividido entre os que entenderam tudo e os que não entenderam nada. Muito mais difícil é aceitar que pessoas inteligentes, bem-intencionadas e preocupadas com o país podem, a partir de experiências diferentes, chegar a conclusões diferentes das nossas.
Mas cidadania também é responsabilidade com aquilo que fazemos antes de escolher. É procurar informação. É desconfiar daquilo que confirma perfeitamente tudo o que já gostaríamos de acreditar. É não compartilhar uma informação apenas porque ela favorece o nosso lado. É perguntar de onde ela veio, quem a produziu e se é verdadeira. É compreender que nossas decisões não dizem respeito apenas à nossa vida.
Quando votamos, participamos de escolhas que também alcançam pessoas que nunca conheceremos. Crianças que ainda estão crescendo. Idosos. Famílias que vivem realidades muito diferentes das nossas. Pessoas que dependem intensamente de serviços públicos e outras que quase nunca os utilizam diretamente.
Pensar no coletivo talvez seja justamente conseguir enxergar para além do perímetro da própria vida. Não significa abrir mão dos nossos interesses ou das nossas convicções. Significa lembrar que uma sociedade não é feita apenas de pessoas parecidas conosco.
Há ainda uma responsabilidade sobre a qual falamos pouco: aquela que começa depois que a urna é fechada. Porque o exercício da cidadania não acontece apenas em anos eleitorais. Escolher representantes é uma parte da democracia. Acompanhar, questionar, fiscalizar, cobrar coerência e participar da vida da sociedade também são.
Talvez tenhamos transferido responsabilidade demais para aqueles que elegemos e responsabilidade de menos para nós mesmos. Nenhum governante, partido ou instituição substitui completamente aquilo que fazemos todos os dias nas pequenas relações que formam uma sociedade. A maneira como tratamos quem pensa diferente. O cuidado que temos com aquilo que divulgamos. Nossa disposição para ouvir.Nossa capacidade de reconhecer um erro. O interesse pelo que acontece para além daquilo que nos afeta diretamente. Tudo isso também é exercício de cidadania.
E existe ainda um último desafio. Na manhã seguinte à eleição, continuaremos encontrando as mesmas pessoas. À mesa de casa. No elevador. No consultório. No trabalho. Na escola dos filhos. Nas ruas da mesma cidade.
Algumas terão feito as mesmas escolhas que nós. Outras, não. Ainda assim, continuaremos compartilhando o mesmo país.
Talvez amadurecer democraticamente seja compreender que nenhuma eleição deveria nos fazer esquecer disso.
Podemos defender nossas convicções com firmeza sem transformar quem discorda em inimigo. Podemos querer convencer sem humilhar. Podemos questionar sem destruir. Podemos perder uma eleição sem deixar de participar da sociedade. E vencê-la sem acreditar que a vitória nos concede razão absoluta.
Porque o voto é secreto, mas a cidadania é pública. Ela aparece na maneira como vivemos juntos. E talvez, no fim, seja essa a reflexão que valha levar conosco até a urna: uma democracia não se mede apenas pela liberdade que temos para escolher, mas também pela maturidade com que convivemos com as escolhas dos outros.







