A ditadura do centímetro
O que a arte de Vik Muniz pode nos ensinar sobre beleza, imperfeição e a obsessão contemporânea por olhar de perto demais
Recentemente, fui ver A Olho Nu, exposição de Vik Muniz no CCBB RJ, e saí de lá pensando em beleza. Não necessariamente na beleza das obras. Mas na maneira como elas nos obrigam a olhar.
Vik Muniz tem uma habilidade extraordinária de construir imagens a partir do improvável. Fragmentos, objetos, materiais cotidianos, resíduos. Elementos que, vistos isoladamente, muitas vezes não têm qualquer pretensão estética. É preciso alguma distância para que aquilo se transforme em outra coisa.
De perto, vemos a matéria. De longe, aparece a imagem. E talvez exista aí uma bela metáfora para a forma como estamos enxergando a nós mesmos.
Vivemos um momento de enorme aproximação do próprio corpo. Espelhos de aumento, câmeras de altíssima definição, selfies, filtros, zoons, ring lights. As videochamadas ainda acrescentaram um hábito curioso à nossa rotina: passamos horas não apenas olhando para os outros, mas olhando para o nosso próprio rosto enquanto falamos.
Talvez nunca tenhamos nos observado tanto. E talvez nunca tenhamos encontrado tantos defeitos.
Um poro se torna grande demais. Uma ruga, intolerável. Uma pequena assimetria passa a incomodar. Uma mancha que ninguém percebia torna-se protagonista. Começamos a dividir o rosto em pequenas partes e a avaliá-las separadamente, como se a beleza fosse o resultado da soma de características perfeitas.
Será?
Há algo que frequentemente esquecemos: ninguém se relaciona conosco a poucos centímetros de distância, sob uma luz branca, com o rosto imóvel e ampliado na tela. As pessoas nos veem falando, sorrindo, gesticulando. Veem expressão, movimento, presença. O olhar do outro não funciona como uma lente de aumento.
A vida acontece em outro enquadramento.
Na arte, também é assim. Ninguém se aproxima de uma pintura esperando encontrar perfeição em cada pincelada. Muitas vezes é justamente a irregularidade, a textura, a marca da matéria que dá força à obra. Por que temos tanta dificuldade em permitir o mesmo ao corpo humano? Talvez estejamos olhando de perto demais.
Como dermatologista, acredito nos tratamentos que melhoram a pele, corrigem alterações, recuperam saúde e ajudam a pessoa a se sentir melhor com a própria aparência. A medicina avançou extraordinariamente e hoje temos recursos capazes de estimular processos da própria pele, melhorar sua qualidade e favorecer a produção de colágeno, sem necessariamente modificar aquilo que torna um rosto único.
Essa ideia me parece particularmente bonita quando penso nas obras de Vik Muniz.
A matéria-prima não precisa deixar de ser aquilo que é para formar algo belo. O açúcar continua sendo açúcar. A poeira continua sendo poeira. Os fragmentos permanecem fragmentos. É a maneira como se organizam que produz a imagem. Talvez a boa estética também devesse partir desse princípio: trabalhar com aquilo que existe, melhorar sem apagar, cuidar sem substituir, preservar identidade em vez de perseguir uma versão padronizada de beleza.
O problema começa quando cuidar deixa de significar melhorar e passa a significar corrigir incessantemente. Quando nenhuma ruga pode permanecer. Nenhuma assimetria pode existir. Nenhuma marca do tempo é tolerada.
É aí que começa a ditadura do centímetro: quando passamos a julgar um rosto por detalhes que só viram problemas porque decidimos observá-los de perto demais.Nesse momento, corremos o risco de perder algo que a arte conhece há séculos: beleza não é sinônimo de perfeição. Beleza depende de proporção, contexto, movimento, história e, sobretudo, percepção.
Uma obra de Vik Muniz pode ser composta por inúmeros elementos aparentemente banais e, ainda assim, produzir uma imagem extraordinária. Cada fragmento sozinho conta alguma coisa, mas é o conjunto que lhe dá sentido.
Nós também somos assim.
Um rosto não é uma ruga. Não é uma olheira. Não é a linha da mandíbula, a textura da pele ou o formato dos lábios. Um rosto é também expressão, memória, personalidade, sorriso, movimento. É aquilo que acontece quando todas essas partes são vistas juntas.
Talvez uma das consequências mais perversas da cultura da imagem seja justamente termos transformado a beleza em uma espécie de auditoria permanente de nós mesmos. Procuramos o que corrigir antes de perceber o que existe.
E isso não é apenas uma discussão estética. É também uma discussão sobre saúde. Uma relação saudável com a própria imagem deveria permitir autocuidado sem produzir vigilância; desejo de melhorar sem exigir perfeição; medicina sem transformar cada característica humana em diagnóstico e cada diferença em indicação de tratamento.
Há uma enorme diferença entre cuidar de um rosto e tentar reconstruí-lo segundo um ideal. A boa dermatologia estética deveria saber reconhecer essa fronteira.
Talvez nosso trabalho não seja criar rostos sem marcas, mas ajudar cada pessoa a envelhecer preservando aquilo que a torna reconhecível — inclusive para si mesma.
A exposição de Vik Muniz se chama A Olho Nu. E achei curioso sair de lá justamente com vontade de fazer o movimento contrário ao que fazemos tantas vezes diante do espelho: afastar um pouco o olhar. Porque algumas coisas só revelam sua verdadeira beleza quando deixamos de examinar cada fragmento e voltamos a enxergar o todo.
Talvez a beleza nunca tenha estado na ausência de imperfeições. Talvez ela esteja na capacidade de olhar para todas elas, dar alguns passos para trás e perceber que, vistas em conjunto, continuam formando algo único.
E, muitas vezes, profundamente belo.






