A beleza de continuar crescendo
Aos 88 anos, Regina da Veiga Pereira lança um livro e nos lembra que amadurecer não é ter todas as respostas, mas manter a coragem de continuar aprendendo
Durante a noite de autógrafos de “As coisas que a vida me ensinou – E me fizeram ser mais feliz”, vi Regina da Veiga Pereira, aos 88 anos, acolher cada leitor com um olhar atento e vibrante. A celebração de sua obra parecia traduzir uma das mensagens mais bonitas do livro: a felicidade não exige uma vida perfeita, mas a coragem de continuar aprendendo, amando e sendo quem somos.
Vivemos em uma sociedade que valoriza tanto a juventude que, muitas vezes, esquecemos de reconhecer a beleza de quem envelhece sem perder a capacidade de se transformar. Talvez por isso aquele encontro e a leitura tenham me emocionado tanto.
Regina compartilha suas experiências com uma honestidade rara. Fala de seus erros, inseguranças, descobertas e aprendizados sem a pretensão de apresentar uma fórmula pronta para a felicidade. Ao contrário, mostra que amadurecer também significa aprender a conviver com nossas dúvidas e reconhecer que nunca estaremos completamente prontos.
Uma das reflexões mais bonitas do livro diz respeito à inteligência. Desde cedo, somos estimulados a utilizá-la para conquistar resultados, competir, alcançar reconhecimento e corresponder a expectativas. Regina propõe algo aparentemente simples, mas profundamente transformador: colocar a inteligência a serviço do autoconhecimento, da capacidade de amar e da própria felicidade.
Quantas pessoas passam a vida inteira tentando ser aquilo que os outros esperam delas, sem jamais descobrir o que verdadeiramente desejam?
Regina conta que precisou de muitos anos para reconhecer a própria identidade, depois de uma infância marcada pela preocupação em agradar e pelo medo de decepcionar. Nesse processo, descobriu que a criança que fomos continua existindo dentro do adulto que nos tornamos. Crescer é também aprender a acolher essa criança, compreender suas feridas e não permitir que antigas inseguranças determinem nossas escolhas atuais. Olhar para trás não para nos condenar, mas para compreender o que vivemos.
Outro ensinamento precioso está no cuidado com os modelos idealizados de perfeição. Vivemos cercados por imagens de corpos impecáveis, famílias felizes e trajetórias de sucesso sem falhas. As redes sociais ampliaram essa vitrine e, com ela, a sensação permanente de que precisamos ser melhores em tudo.
Como médica, observo diariamente o quanto essa cobrança interfere na autoestima e na relação das pessoas com a própria imagem. O maior desafio talvez não seja alcançar uma versão idealizada de nós mesmos, mas aprender a gostar de quem somos, reconhecendo que podemos continuar crescendo sem transformar esse desenvolvimento em mais uma obrigação de perfeição.
O amor também ocupa um lugar especial nas reflexões de Regina. Em uma das passagens mais delicadas, ela utiliza a imagem de uma cestinha de flores carregada por duas pessoas, cada uma segurando uma alça. Para preservar as flores, é preciso atenção, equilíbrio e cuidado compartilhado.
Que metáfora bonita para a complexidade das relações. O amor não se sustenta apenas pela intensidade do sentimento, mas exige escuta, generosidade e disposição para reparar os desequilíbrios do caminho. Essa mesma delicadeza aparece quando fala da maternidade. Ao reconhecer que não pode controlar as tempestades enfrentadas por um filho adulto, Regina nos lembra que amar também é confiar. Estar disponível sem invadir. Apoiar sem controlar. E há ainda a gentileza dos pequenos gestos cotidianos: um sorriso, um cumprimento caloroso, um elogio sincero. Em tempos de relações tão apressadas, ela nos faz lembrar que a felicidade também se constrói na maneira como tratamos os outros.
Na medicina, falamos cada vez mais sobre longevidade. Buscamos preservar a saúde física, a memória e a autonomia. Tudo isso é fundamental. Mas Regina nos apresenta uma dimensão da longevidade que nenhum exame consegue medir: a capacidade de permanecer emocionalmente disponível para a vida. Continuar curioso. Rever certezas. Reconhecer erros. Acolher diferenças. Amar e permitir-se ser amado.
Em uma das passagens mais marcantes, ela escreve: “Eu acho uma beleza pensar que vou morrer crescendo.” Que maneira extraordinária de olhar para o envelhecimento. Em vez de encarar a passagem do tempo apenas como um acúmulo de perdas, Regina reconhece nela a possibilidade permanente de aprender e se renovar.
Existe um valor inestimável nessa transmissão entre gerações. Uma mulher de 88 anos que, ao compartilhar sua história com tanta generosidade, continua ensinando outras mulheres a reconhecer suas fragilidades, questionar expectativas e encontrar mais liberdade para viver.
Terminei a leitura e aquela noite especial com a sensação de ter recebido um presente. E com a certeza de que precisamos ouvir mais quem veio antes de nós. Não apenas por tudo o que acertou, mas também pela coragem de dividir seus erros, suas dúvidas e suas descobertas.
Aos 88 anos, Regina continua ensinando. Não porque tenha encontrado todas as respostas, mas porque preservou algo que o tempo, tantas vezes, ameaça nos tirar: a disposição de continuar aprendendo.Ela nos lembra que não precisamos acertar sempre ou carregar o peso de sermos extraordinários o tempo inteiro. Podemos simplesmente ser humanos: imperfeitos, contraditórios, capazes de mudar, amar e recomeçar. Afinal, o verdadeiro privilégio de envelhecer talvez não seja chegar a uma idade em que já sabemos tudo, mas continuar descobrindo, até o último dia, novas maneiras de viver.







