Petrópolis recebe Santos Dumont, o maior supercomputador do Brasil

Fabricado na França, novo cérebro eletrônico começa a funcionar em outubro e promete ajudar de médicos a meteorologistas

Dom Pedro II sempre foi conhecido por ter sido grande incentivador da tecnologia. Sabe-se, por exemplo, que o imperador era fotógrafo, num tempo em que isso não era tão comum, e que foi amigo do escocês Alexander Graham Bell, o criador do telefone. Pois agora Petrópolis, cidade que o homenageia até no nome, se tornará em breve palco de um acontecimento extraordinário na ciência nacional: em outubro, entrará em operação, ali, o Santos Dumont, considerado o maior supercomputador da América Latina.

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Cerca de 1 milhão de vezes mais rápido que um notebook comum, ele é uma máquina que, simbolicamente, voa — à semelhança da personalidade que lhe empresta o nome, tão fã daquela cidade serrana que até morou lá. A novidade tecnológica é fruto de um acordo assinado entre Brasil e França, e está abrigada no Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), um instituto de pesquisa cercado de plantas, localizado atrás do charmoso Palácio Quitandinha. “Trata-se da realização de um sonho da comunidade científica brasileira”, afirma Pedro Dias, diretor da entidade.

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Basicamente, os supercomputadores são versões turbinadas dos aparelhos que temos em casa. Enquanto um laptop topo de linha tem seis processadores, o novo cérebro eletrônico fluminense tem 1 milhão de componentes do tipo. Por conseguir analisar enormes quantidades de informação num curto período, será útil para diversas áreas. Uma delas é a meteorologia, que usa máquinas assim para comparar condições climáticas de um determinado momento com outras do passado e, a partir disso, fazer previsões do tempo. Na medicina, por sua vez, os pesquisadores perceberam que o ângulo natural da artéria carótida favorecia o seu entupimento e usaram supercomputadores como esse para descobrir a posição perfeita e criar próteses que minimizassem o problema.

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Como se pode observar, o novo equipamento ajudará, e muito, em variados setores da ciência. Mas isso tudo tem  um preço: o Santos Dumont custou 60 milhões de reais. Fabricado na França, foi testado lá por duas semanas antes de vir de navio para o Brasil, numa viagem que durou um mês. Partindo do Porto do Rio, quatro carretas foram necessárias para que o gigante de 15 toneladas subisse a serra. Para se ter uma ideia, esse é o peso de dois exemplares de elefante-africano, animal tido como o maior mamífero terrestre. Lá em cima, um guindaste facilitou o descarregamento de todas as partes da máquina antes da remontagem, que levou uma semana para ser concluída. 

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Neste exato momento, o supercomputador petropolitano repousa em dois contêineres que foram unificados e lhe servem de casa. O ambiente cinza e branco lembra o cenário de filmes de ficção científica. No teto, estão os fios que vão alimentar a fera digital. Quando estiver funcionando, o Santos Dumont devorará energia suficiente para abastecer um bairro com 3 000 habitantes. Por isso, três geradores estão à sua disposição. A estimativa dos cientistas é que a novidade sozinha acarrete um gasto de 500 000 reais de luz por mês, valor quatro vezes maior que o da atual conta de energia paga pelo laboratório. Entretanto, o investimento é considerado válido, já que a máquina consegue processar trinta vezes mais dados do que a capacidade de todos os computadores do LNCC hoje. São números que animam os cientistas, que não veem a hora de ter tudo ligado. “Quanto mais poder computacional, mais ferramentas nós temos para lidar com os problemas”, explica Fábio Porto, pesquisador do instituto. O alvoroço é tanto que já despertou até a curiosidade de hackers — nos últimos meses aumentou o número de tentativas de invasão dos sistemas do órgão.

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O Santos Dumont poderá ser usado por qualquer cientista do país. Para isso, será preciso apenas que o pedido seja feito ao LNCC, que vai avaliar as solicitações e liberar a máquina de acordo com a urgência e a necessidade de cada projeto. Esse é um formato inédito no universo dos supercomputadores brasileiros, que geralmente têm uso restrito a finalidades específicas. Destronado pelo gigante de Petrópolis, o Yemoja, que pertence ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), é voltado para estudos na área de geofísica. O mesmo acontece com o Tupã, aparelho usado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apenas para análises climáticas, e com o Grifo04, da Petrobras, focado nas pesquisas da própria empresa. Embora seja um avanço respeitável em termos de computação científica, o novo dispositivo ainda está longe dos melhores do mundo. Primeiro da lista, o chinês Tianhe-2 tem três vezes mais processadores que a máquina brasileira. Mesmo assim, a novidade pode servir de passaporte de entrada para o país no clube das nações que fazem ciência de ponta. 

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