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Sonhos estranhos na pandemia? Você não é o único

Estudos sobre o universo onírico mostram que eles estão carregados de medos e incertezas, sobretudo em cidades onde o vírus grassou, como o Rio

Por Carolina Barbosa - Atualizado em 17 jul 2020, 21h32 - Publicado em 17 jul 2020, 06h00

A teoria dos sonhos enunciada por Sigmund Freud em 1900 finca-se na ideia de que eles são uma expressão de desejos muitas vezes primitivos, vetados pela moral vigente e libertos pelo inconsciente quando a cabeça repousa sobre o travesseiro. Em meio à quarentena, a advogada Carolina Carvalho de Andrade, 32 anos, deu de sonhar que seguia para o trabalho em mais um dia normal, usando roupa social e até salto alto.

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Chegou ao escritório e foi surpreendida por uma aglomeração na sala. Apenas ela tinha máscara sobre a face, o que lhe pareceu estranho dadas as circunstâncias. “Nem parecia que estamos no meio de uma pandemia”, conta a carioca sobre o enredo que a fez despertar com  aquela sensação de que era real. Quando acordou, instantaneamente lembrou que se encontrava em isolamento e que seu calçado preferencial nos tempos atuais é um par de chinelos.

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Após quatro meses com o mundo posto do avesso, o universo onírico das pessoas está recheado de ansiedades e temores, segundo o que vêm observando especialistas no assunto. “Estamos mais angustiados e vivendo pior diante desse estressor chamado pandemia. Nesse contexto, os sonhos se tornam um recurso para a gente sentir que a vida continua intensa”, explica José Alberto Zusman, doutor em psicanálise pela UFRJ.

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Pois se sonhar é um ato individual, capaz de refletir o que se passa nos labirintos do cérebro de cada um, a coletânea onírica, quando analisada coletivamente, pode ajudar a decifrar capítulos da história. Entre 1933 e 1939, época de ascensão do nazismo e eclosão da II Guerra Mundial, a jornalista alemã Charlotte Beradt reuniu depoimentos de vizinhos acerca de seus sonhos.

O neurocientista Sidarta Ribeiro: “A violência carioca é mais um fator que influencia” Elisa Elsie/Divulgação

Considerado ferramenta importante para analisar os efeitos de um regime totalitário na psique daquela população, o acervo ficou guardado a sete chaves anos a fio, até ser publicado no livro Sonhos do Terceiro Reich (1966). Na África do Sul, o Apartheid Project recolheu experiências desse período de grande sofrimento e convulsão nesta parte do globo, também expondo o interior da mente de quem experimentou o regime segregacionista.

Um momento tão cercado de incertezas como o que a humanidade atravessa agora é um prato cheio para pesquisadores entenderem melhor como as pessoas reagem internamente a duras adversidades a partir do que elas sonham. No Brasil, um desses estudos já coletou cerca de 1 000 depoimentos em vários estados e chegou a algumas conclusões.

“Quando se trata do Rio, que tem a segunda maior taxa de letalidade do país, os temas sonhados evidenciam medo, ansiedade e giram em torno da morte, ao passo que em locais onde o cenário está mais sob controle, como Belo Horizonte, o confinamento domina”, conta Carla Rodrigues, professora de filosofia da UFRJ e uma das coordenadoras do projeto.

Outros fatores ainda se somam à crise sanitária, fazendo a cabeça do carioca fervilhar. “O Rio é um caso à parte, não só pela intensidade da pandemia, mas também pelo cenário de uma guerra civil não declarada, com alta violência policial. Tudo isso se reflete nos sonhos, que elaboram e digerem tais emoções”, frisa o neurocientista Sidarta Ribeiro, autor de O Oráculo da Noite.

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Uma série de pesquisas mostra que, em lugares onde a epidemia grassou, como Nova York, Itália e o próprio Brasil, o enredo dos sonhos nestes tempos revela alguns padrões “Em comum, eles carregam uma carga de ansiedade maior do que em tempos normais”, afirma a psicóloga americana Deirdre Barrett, professora da Universidade Harvard. Desde 24 de março ela já dissecou cerca de 8 000 relatos de mais de 3 600 pessoas (leia mais na entrevista abaixo). “Aparecem durante o sono profissionais de saúde tentando colocar tubos em seus pacientes com Covid-19 sem sucesso; desastres naturais e até invasão de multidões em casa”, ela relata.

“Trata-se de uma onda de sonhos de natureza semelhante aos que estudei após os atentados de 11 de setembro. O que varia são as metáforas para o vírus, como uma nuvem de insetos”, completa a autora do livro Pandemic Dreams. “Atribuir imagens àquilo que não tem uma é uma tentativa de controlar o inimigo invisível, ainda que  subjetivamente”, analisa Anderson Nunes Pinto, chefe do setor de psicologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho.

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Durante a etapa de sono mais profundo, conhecida como REM, a queda intensa nos níveis do hormônio noradrenalina permite que as ondas cerebrais experimentem trajetos incomuns, em vez de fortalecerem sinapses acionadas com frequência pela mente acordada. A liberdade de combinar fragmentos de tempos distintos e criar enredos inacreditáveis também resulta da desativação parcial do córtex pré-frontal, o lugar da razão.

Isso significa que, em algumas fases da noite, a corrente elétrica que percorre os mais de 86 bilhões de neurônios do cérebro humano se acentua, gerando as mesmas ondas rápidas que nos mantêm despertos de dia. É exatamente aí que germinam os sonhos mais “reais” – e o que explica o fato de muita gente se recordar deles.

“Fiz análise por cinco anos e passava semanas sem anotar um sonho porque simplesmente não lembrava. Eles eram normalmente ligados ao momento que eu estava vivendo. Agora, tenho misturado muito cenas passadas e futuras”, diz Carolina, a única de máscara naquele agitado sonho da volta ao trabalho.

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Deirdre Barrett: mais de 8 000 sonhos analisados durante a pandemia Kris snibbe/Harvard/Divulgação

 

“Os enredos estão mais emocionais”

Professora da Harvard e ex-presidente da Associação Internacional para o Estudo dos Sonhos, a americana Deirdre Barrett falou a VEJA RIO sobre mudanças no padrão dos sonhos durante a pandemia, objeto de sua mais nova pesquisa

A senhora diz que as pessoas estão se lembrando mais de seus sonhos agora. Por que isso acontece?

Com a pandemia, nossa rotina está alterada, dormimos mais ou até mais tarde. A maioria dos sonhos acontece durante o sono mais profundo. No entanto, se a pessoa estiver ansiosa e despertar mais nesta fase, é provável que se lembre de mais deles.

Em locais onde o vírus avançou com maior intensidade, como Nova York e Rio, os sonhos carregam conteúdo mais trágico?

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Desde 24 de março, quando iniciei minha pesquisa, os sonhos extremamente traumatizados, como os de profissionais de saúde que sonhavam com pessoas morrendo enquanto tentavam intubá-las, vieram da Itália. Mais tarde, comecei a perceber isso nos Estados Unidos. Os brasileiros são os que têm me enviado os piores pesadelos ultimamente.

Poderia descrever alguns deles?

Os mais dramáticos são os de profissionais de saúde brasileiros que parecem muito impressionados com toda a situação. O sonho mais recorrente é que eles estão tentando colocar um tubo de respiração em um paciente com Covid-19 e não conseguem ou precisam de um ventilador e não têm um. Parte deles sonha que está tratando seus filhos ou pais moribundos, em vez de seus pacientes reais.

O que acontece em nosso subconsciente em períodos de stress extremo?

Qualquer evento importante desperta nossos sonhos — e, se for uma crise, ela estimula a ansiedade. Pensamos de forma mais intensa e emocional durante o dia. Acredito que os sonhos sejam apenas pensamentos em um estado bioquímico diferente. Natural que sejam também mais intensos e emocionais. Já havia observado uma alta semelhante em sonhos que pareciam reais depois dos atentados de 11 de setembro.

Como esse material todo sobre sonhos pode ajudar futuramente?

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É ótimo que as pessoas estejam interessadas em compartilhá-los. Elas podem ter ideias sobre como seguir em frente de novas maneiras a partir das metáforas que aparecem em tão vasto repertório onírico.

 

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