Nosso Soho: lojas autorais e ateliês descolados dão novo ar ao Jardim Botânico
Chegada de grifes e restaurantes acelera a transformação da região em um polo de arte, moda e design que privilegia a experiência em vez da vitrine
Em 2005, quando abriu a multimarcas Dona Coisa no início da Rua Lopes Quintas, Roberta Damasceno ouviu que o nome da empreitada era ruim e a localização improvável. Duas décadas depois, a empresária comemora a chegada de novos negócios à vizinhança. Entre abril e julho, três grifes abriram as portas por ali: K&T, Assos e Nauanin, essa última de Giselle Nasser, que escolheu o Jardim Botânico-quase-Horto para abrir seu único ponto fora de São Paulo. Guardadas as devidas proporções, a concentração de lojas autorais, ateliês de artistas e restaurantes descolados faz o pedaço lembrar o Soho, em Nova York, onde arte, design e comércio convivem sem abrir mão do clima de bairro. Foi exatamente esse perfil que levou a paulistana Nauanin a apostar na região. “Nosso público é muito específico, uma mulher antenada, politizada, com consciência ambiental. Então a gente começou a pesquisar e entendeu que esse perfil, no Rio, circula justamente pelo Jardim Botânico, não pelo Leblon ou Ipanema”, diz Giselle, que lançou a etiqueta de roupas bem-cortadas e confortáveis durante a pandemia. A loja em Pinheiros fez tanto sucesso que ela precisou mudar para uma ampla casa na Vila Madalena.
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A clientela — fina, elegante e sincera — da região, como bem notou a estilista paulistana, quer fugir de shoppings e de outros lugares mais movimentados na Zona Sul. “Temos clientes como Alinne Moraes e Marisa Monte, por exemplo, que passaram em frente, gostaram da vitrine e entraram”, conta Luisa Meirelles, dona da marca que leva o nome dela e que divide espaço com o Galpão 51, em frente à Nauanin. “O Horto é um polo de encontro de gente interessante e interessada”, resume. Esse novo mapa do consumo também reflete uma mudança na própria geografia comercial da Zona Sul. Se o Jardim Botânico ganha mais lojistas, bairros antes considerados incontornáveis começam a perder espaço. Depois de 26 anos em Ipanema, a K&T, de Monica Chamma e Thereza Langlands, tomou o caminho de volta para a Lopes Quintas, onde nasceu, há trinta anos. “A casa que ocupavámos na Garcia d’Ávila foi derrubada para virar mais um empreendimento imobiliário. O Rio se tornou uma loucura de incorporação”, protesta Monica. “Até procurei um ou outro lugar em Ipanema, mas, sinceramente, o Jardim Botânico tem mais charme”, opina a sócia da K&T. O imóvel tem projeto de Bel Lobo, com jardim no fundo, e manobrista na porta. A busca por um ambiente mais acolhedor e conectado à natureza também orientou outras escolhas recentes. Luiza Leindecker abriu a L!, misto de ateliê e loja de peças tingidas a mão na Rua Caminhoá, em dezembro, e congrega do mesmo pensamento. “Já vendemos numa multimarcas em Ipanema, mas somos slow fashion. Aqui o trabalho é conectado à natureza e a gente consegue se aproximar das pessoas, mostrar nossos processos”, reflete Luiza.
Porta de entrada para a Vista Chinesa, o Horto também é queridinho de quem pedala e ganhou agora o showroom da Assos, marca suíça de roupas especializadas para ciclistas. “Abrimos há onze anos numa sala no Leblon, o que era interessante por estar bem no meio do mercado financeiro, mas sentíamos necessidade de um espaço para sentar com o cliente, tomar um café sem pressa”, explica Claudia Klingerman, sócia da marca esportiva de luxo. A Casa Ocre, de Andrea Brito e Thomaz Velho, há cinco anos funciona na Rua Barão de Oliveira Castro, ali perto, e em abril inaugurou a Mobiliário, na Caminhoá, onde exibe suas famosas luminárias, objetos de decoração e obras de artistas plásticos. “A gente até pensou em ir para um lugar com mais fluxo, mas também pensou ‘será que tanta exposição é necessária?í”, diverte-se Andrea. A soma dessas inaugurações consolida uma nova identidade para a região. Entre pontos de encontro, de compras e de excelente gastronomia — a exemplo da Casa 201, do Gonza, do japonês Mitsubá, da Casa Horto e do asiático Elena e seu filhote Eleninha —, o Jardim Botânico e o Horto deixam de ser apenas um refúgio verde da Zona Sul para se firmar como um dos circuitos mais interessantes de moda, design, gastronomia e consumo autoral da cidade.
De portas abertas
Endereços para visitar na área
1 Luisa Meirelles. Moda feminina com estética vintage. Rua Lopes Quintas, 46. @shop.luisameirelles.
2 K&T. Moda casual carioca por Monica Chamma e Thereza Langlands. Rua Lopes Quintas, 321. @lojaket
3 Assos. Marca de roupas de luxo para ciclistas. Rua Lopes Quintas, 147. @assosbrasil.

4 Dona Coisa. Multimarcas de moda, design e papelaria. Rua Lopes Quintas, 153. @donacoisa.
5 Nauanin. As peças de Giselle Nasser são confortáveis e bem-cortadas. Rua Lopes Quintas, 87-B. @ n_a_u_a_n_i_n.
6 L! Feito à Mão. Ateliê de tingimento natural e loja de roupas. Rua Caminhoá, 27. @lefeitoamao.br.

7 Casa Ocre Mobiliário. Objetos de decoração e obras de arte. Rua Caminhoá, 33. @casaocre.mobiliario





