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Por que Rio lidera ranking de intolerância contra religiões africanas

Praticantes de religiões como umbanda e candomblé se movimentam para combater o preconceito que fere as liberdades individuais

Por Pedro Tinoco e Saulo Pereira Guimarães Atualizado em 23 ago 2021, 13h23 - Publicado em 20 ago 2021, 06h00

Medalha de ouro nos Jogos de Tóquio, a seleção olímpica de futebol do Brasil começou muito bem sua caminhada rumo ao alto do pódio: na estreia, em 22 de julho, ganhou da Alemanha, rival que revolve dolorosas lembranças, por 4 a 2. Quem sacramentou a vitória foi Paulinho, joia do clube europeu Bayer Leverkusen, um legítimo craque carioca criado em Madureira e revelado no Vasco da Gama.

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No último gol, depois do balaço no ângulo, o atacante comemorou com uma coreografia em homenagem a Oxóssi — “o caçador de uma só flecha” na mitologia iorubá, reverenciado pelas religiões de matriz africana como sábio guerreiro que irradia conhecimento, afasta a miséria e traz alegria.

O gesto de Paulinho, filho e neto de seguidoras do candomblé, chega em boa hora: é resposta corajosa a um histórico de perseguição contra crenças de origem africana que ganhou força nestes tempos de polarização. O fenômeno é nacional, mas no Rio adquire contornos particularmente incômodos. Segundo o Disque 100, serviço do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, no primeiro semestre deste ano o estado ultrapassou o vizinho São Paulo e assumiu o topo do ranking das unidades da federação com mais denúncias registradas por vítimas de intolerância ligadas a candomblé, umbanda e outras religiões de ascendência africana.

arte Religião

Dois dias antes do jogo contra a Alemanha e da comemoração que rodou o mundo, Paulinho já havia agitado a arquibancada da internet ao professar sua fé em artigo no site The Players’ Tribune. No texto, intitulado “Que Exu Ilumine o Brasil”, ele define sua relação com o candomblé e a umbanda: “Prefiro chamar de filosofia de vida. Uma coisa bem pessoal, que toca o meu coração”. E segue filosofando: “Sou eu comigo mesmo, entende? Como praticante, vou ao meu pai de santo sempre que estou no Brasil e peço proteção aos orixás, principalmente ao meu Pai Oxóssi e à minha Mãe Iemanjá. Exu é o caminho…”.

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Sua postura sobressai em um cenário, o dos gramados de futebol, onde a maioria dos atletas costuma celebrar conquistas de joelhos, apontando para o céu e fazendo o sinal da cruz. Na edição anterior dos Jogos Olímpicos, no Rio, em 2016, quem deu o que falar foi o jogador Neymar, ao envergar uma faixa na testa onde se lia “100% Jesus” — justiça seja feita, naquele ano o time também faturou a medalha de ouro.

O craque Paulinho, ouro em Tóquio: gol comemorado com coreografia em homenagem a Oxóssi -
O craque Paulinho, ouro em Tóquio: gol comemorado com coreografia em homenagem a Oxóssi – Lucas Figueiredo/CBF/Divulgação

Paulinho, hoje campeão olímpico, sofreu ataques em suas redes sociais ao festejar a convocação para a seleção com a frase “Nunca foi sorte, sempre foi Exu. Laroyé!”. Longe dos gramados, no mundo real, essa modalidade de intolerância ganha agressividade e vem se tornando cada vez mais frequente e visível. Em levantamento recém-divulgado, o Instituto de Segurança Pública do Rio contabilizou 1 355 crimes em 2020 que, por suas características, podem estar relacionados à intolerância religiosa, embora não sejam registrados como tal. São mais de três casos por dia, e subindo.

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Nos últimos tempos, aumentou o terror promovido por criminosos (traficantes e milicianos) que, dizendo-se evangélicos, perseguem seguidores de cultos afro-brasileiros nas favelas, silenciando-os. O inacreditável fenômeno dos “traficantes de Jesus”, versão local para o talibã, espalhou-se pela Baixada e atinge comunidades na Zona Norte, como Parada de Lucas e Vigário Geral. Terreiros às dezenas acabaram depredados e fechados de 2019 para cá. Religiosos foram submetidos a proibições — impedidos de vestir branco, de tocar tambor — e, em vários casos, expulsos de casa.

Em família: a atriz Luana Xavier está à frente do terreiro que era comandado pela avó Chica Xavier -
Em família: a atriz Luana Xavier está à frente do terreiro que era comandado pela avó Chica Xavier – Leo Lemos/Divulgação

Mesmo em áreas da cidade aparentemente a salvo dessa modalidade de barbárie, as manifestações da intolerância se multiplicam. Em 2018, o produtor cultural Diego Gomes de Oliveira participou da inauguração de um santuário dedicado ao Zé Pelintra sob os Arcos da Lapa. Não poderia haver lugar mais apropriado para homenagem à figura típica do malandro, reverenciada na umbanda e no candomblé.

Giras — cerimônias religiosas da umbanda — foram realizadas, mas nem todo mundo gostou da ideia. “Foram mais de dez ataques em três anos. Em 2020, fizemos uma vaquinha e conseguimos substituir a escultura destruída, isso inúmeras vezes”, lembra Diego. Leandro Ty Logum Edé joga Búzios, dá consultas e faz sessões — “gira de caboclo, giras de preto velho”, lista — no barracão Ilê Ase Ode Afaiá, sua casa em uma rua sem saída de Jacarepaguá.

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Em outubro de 2020, pôs uma oferenda diante de seu portão, como já havia feito diversas vezes. Porém, naquele dia, visitantes de um imóvel vizinho reagiram com gritos de “casa de satanás”, aspergindo um suposto “óleo ungido” e pisoteando a oferenda, conhecida como padê. “Foi terrível. Moro aqui há vinte anos e nunca tive problemas com outros moradores”, desabafa. Leandro deu queixa na delegacia e, nove meses depois, soube que as investigações ainda engatinhavam.

O santuário dedicado ao Zé Pelintra: inaugurado na Lapa pelo produtor Diego Gomes, o local já sofreu dez ataques -
O santuário dedicado ao Zé Pelintra: inaugurado na Lapa pelo produtor Diego Gomes, o local já sofreu dez ataques – Leo Lemos/Divulgação

O cenário de acirrada intolerância não impediu, no entanto, que a neta da saudosa Chica Xavier (1932-2020), Luana Xavier, assumisse, após um ano de luto, o posto da matriarca como ialorixá (mãe de santo), da Irmandade do Cercado do Boiadeiro. Ciente da responsabilidade, a atriz pensou em abdicar da carreira, mas lembrou que a avó conciliou as duas atividades com grandeza desde a criação do terreiro de umbanda, quatro décadas atrás. No dia a dia, Luana não dispensa as guias no pescoço e a roupa branca das sextas-feiras — sinais irresistíveis para os preconceituosos de plantão.

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Na faculdade de assistência social, habituou-se a ouvir desejos de “feliz Ano-Novo”. Tem mais: o terreiro onde se iniciou, ainda criança, em Maceió, já amanheceu várias vezes com montes de lixo na porta. A experiência própria e notícias sobre a escalada desse tipo de manifestação, que empareda as liberdades individuais, preocupam a jovem sacerdotisa. “Lidar com isso em 2021 vai destruindo a gente por dentro. Tenho pensado muito, como ialorixá, em como vou tratar dessas questões”, fala.

Sob investigação: a deputada Martha Rocha está à frente da CPI que investiga casos de intolerância -
Sob investigação: a deputada Martha Rocha está à frente da CPI que investiga casos de intolerância – Thiago Lontra/Alerj

A apreensão de Luana Xavier, e de todo o povo de santo, como são chamados os seguidores de religiões afro-brasileiras, ganhou espaço na Assembleia Legislativa do Rio. Em 18 de maio, foi instalada na casa a CPI da Intolerância Religiosa, reivindicada e presidida por Martha Rocha (PDT). “O episódio da imagem de Nossa Senhora chutada (por um pastor evangélico, em 1995) foi um caso de intolerância, mas o que estamos vendo hoje está um degrau acima: trata-se do racismo religioso, que age contra crenças que estão no berço da população negra brasileira”, define a deputada.

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As reuniões da comissão já apontam caminhos, como a interiorização da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), criada em 2018, para se aproximar de regiões sensíveis como a Baixada e Campos. No início de julho, a Polícia Militar também se mexeu: publicou em seu boletim interno “procedimentos a serem adotados durante o serviço no atendimento a ocorrências relacionadas a intolerância religiosa”. Outro sinal de mudança veio da aprovação unânime, em 5 de agosto, da concessão da Medalha Pedro Ernesto, maior honraria da Câmara Municipal, para Paulinho, o craque da flecha de Oxóssi.

No Carnaval de 2020, último grande suspiro da folia antes da explosão de Covid-19, os quatro primeiros lugares do desfile do Grupo Especial, vencido pela Viradouro, foram ocupados por escolas com enredos inspirados na cultura e na religião afro-brasileiras — e na próxima edição da festa a presença afro já está garantida em vários enredos.

O axé embala a festa, não é de hoje. Nem todo mundo lembra, mas outra de nossas maiores celebrações, o Réveillon na Praia de Copacabana, se desenvolveu a partir de uma prática instituída pelo pai de santo Tancredo da Silva Pinto (1904-1979): a das oferendas a Iemanjá. “Os terreiros, além de locais de culto ao sagrado, guardam memória ligada às mais importantes manifestações culturais surgidas no Brasil, do jongo ao samba, passando pela nossa alimentação, por nossos costumes”, ensina Bruno Lima, historiador carioca e, há cinco anos, médium de umbanda. “O Rio que canta junto não é o mesmo que apedreja. Esse aí só canta louvores e música gospel”, opina o cantor, compositor, escritor e exímio pesquisador Nei Lopes.

O babalawô Ivanir dos Santos: encontro com o papa Francisco e discussões na ONU -
O babalawô Ivanir dos Santos: encontro com o papa Francisco e discussões na ONU – Leo Lemos/Divulgação

A intolerância, apesar de hoje mais associada a determinadas denominações evangélicas, é uma atitude política, segundo Carlos Alberto Ivanir dos Santos, pedagogo e doutor em história comparada pela UFRJ. Sacerdote de candomblé e babalawô, Ivanir dos Santos também é há quatro décadas um abnegado militante dos direitos humanos. Em 2008, participou da criação da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e organizou a 1ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa — que em 2019 chegou à 12ª edição.

Com esse olhar que vem de longe, ele recorre a uma anedota para ilustrar o fenômeno. “Sou muitas vezes convidado a debater na Assembleia Legislativa. No elevador da casa, tem um quadro de avisos onde se lê algo como ‘segunda-feira, no auditório, culto com o pastor tal, terça, o padre tal vai orar’ ”, conta, antes de arrematar, com uma ponta de ironia: “Experimenta botar no quadro ‘quarta, meio-dia, horário com vovó Maria Conga’. Aí não pode!”, diz Ivanir, que foi recebido pelo papa Francisco em sua visita ao Rio, em 2013, e participa de discussões sobre o tema na ONU.

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E por que não pode, se o Estado é laico e a intolerância religiosa, um crime, segundo a lei estadual 7 855/18 e o artigo 208 do Código Penal Brasileiro? A resposta remonta a séculos de opressão e preconceito, atravessados pela iniquidade da escravidão, que, não resolvidos, deixaram herança pesada para os turbulentos dias de hoje. “Quem primeiro confundiu Exu com o demônio dos cristãos foram missionários na África, já no século XV”, ensina Nei Lopes. “A religiosidade africana sempre foi desconsiderada e reprimida neste país e em todo o Ocidente. Da República Velha até a Era Vargas houve repressão”, lembra Lopes, autor de obras como Dicionário Literário Afro-Brasileiro e Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana.

O resultado desse processo histórico cruel, e em aberto, tem impacto na rotina do babalawô, acadêmico e militante Ivanir dos Santos. “Estamos enxugando gelo. Enquanto buscamos resolver casos de agressão contra cultos de matriz africana, escolas, seminários e a própria academia continuam a formar gente com uma mentalidade que acaba por perpetuar a intolerância”.

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A luta, antiga, está longe de terminar e é pontuada por momentos marcantes. Um deles foi involuntariamente protagonizado por Kayllane Coelho Campos, em 2015. Ela tinha apenas 11 anos e voltava para casa acompanhando um grupo de filhos de santo e sua avó, Kátia Marinho, a Mãe Kátia, líder espiritual de um tradicional barracão de candomblé na Vila da Penha. Estavam vestidos a caráter, de branco, com turbantes e guias, e se divertiam cantando pagode.

A farra foi interrompida por dois homens com Bíblias debaixo do braço que começaram a xingar os passantes de “demônios” e berrar que o “sangue de Jesus tem poder”. Ninguém deu muita bola, até que uma pedrada atingiu a cabeça de Kayllane. “Depois do que aconteceu, fiquei com medo de sair de branco na rua, mas fui abraçada por várias igrejas, recebi muita solidariedade”, relembra a vítima, hoje com 18 anos.

Mãe Kátia, avó e mãe espiritual de Kayllane, reconhece, estarrecida, que a situação, de lá para cá, se complicou. “No Disque 100, não tem uma denúncia de candomblecista, de umbandista, atacando ninguém, no entanto somos os primeiros a ser apedrejados”, diz. “O Estado é teoricamente laico, mas não na prática. O candomblé vem dos primórdios, sua tradição é de alegria, vida e respeito acima de tudo, mas somos agredidos, vilipendiados. Por que tudo isso? Em nome de quê?”, questiona Joe Anderson, o babalorixá Papaizinho Anderson de Oxoguian, que abriu as portas de seu espaço no bairro de Água Santa para a foto que abre a reportagem.

Ivanir dos Santos, doutor em história que, na sua longa trajetória em defesa dos direitos humanos, já conversou até com o papa Francisco, não resiste a uma última provocação. “Qual a diferença entre receber um caboclo ou o Espírito Santo? O que distingue o feitiço do milagre? Por que uma prática é demonizada e a outra é sagrada?”. Fica a reflexão.

Tesouro resgatado

Peças confiscadas pela polícia entre 1889 e 1945 contam a história de antigos terreiros e da perseguição que já sofriam

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Um acervo único chegou ao Museu da República no dia 21 de setembro de 2020 e, desde então, tem sua gestão compartilhada entre a equipe técnica da instituição e representantes de casas religiosas de matrizes afro-brasileiras. Uma das primeiras providências foi rebatizar a coleção: o pejorativo nome Magia Negra foi substituído por Nosso Sagrado.

As 518 peças, confiscadas de casas de santo pela polícia entre 1889 e 1945, passaram décadas encaixotadas no Museu da Polícia Civil. Nos últimos meses, uma minuciosa rotina de pesquisa, catalogação e restauro jogou luz sobre a história da religiosidade afro-brasileira no Brasil, assim como a de sua perseguição. “A absoluta maioria dos registros de época, que tratam de detenções de religiosos de matrizes africanas e apreensões de peças sagradas, usa termos estereotipados, tachando pais e mães de santo como espertalhões, aproveitadores, criminosos”, conta Maria Helena Versiani, integrante do setor de pesquisa histórica do Museu da República.

O progresso dos trabalhos por lá já permite o planejamento de uma exposição a ser inaugurada até o fim do ano, assim como a abertura da visitação para pesquisadores ainda em agosto. Entre as relíquias já identificadas figura uma camisa e um escudo retirados da Cabana do Zinho, em Coelho Neto, em 1935, na batida que levou às prisões de Judith Cândida de Oliveira e Alberto Santos. O crime dos dois, conhecidos como Cabocla Jupyra e Pai Zinho: participar de uma cerimônia em homenagem a Ogum, envolvendo cantos e danças rituais.

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