Canetas emagrecedoras movimentam bilhões e transformam mercado de serviços
A corrida pelo corpo mais leve leva diferentes setores a se adaptar aos efeitos dos medicamentos para emagrecer
Durante muito tempo, emagrecer era o ponto de chegada de uma dura maratona. Fechar o zíper de uma calça que já não cabia havia tempos, voltar a apreciar o reflexo no espelho, comemorar o número sinalizado na balança — tudo isso indicava o cumprimento de uma meta, e a jornada terminava ali (ou quase, já que a manutenção é eterno desafio). Só que agora, com a sacudida dada pela popularização das chamadas canetas para emagrecimento, a lógica mudou: os cuidados variados exigidos no cenário pós-perda de peso não são poucos. E isso faz florescer uma nova cadeia de serviços no Rio, que passam a atender as demandas de um corpo rapidamente transformado, como é tão comum com as canetinhas.
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A servidora pública Renata Curry, 44 anos, sentiu tal virada na pele — e no corpo. Depois de duas gestações, um quadro de depressão e anos de tentativas frustradas, chegou a mais de 100 quilos. Iniciou então o tratamento com um endocrinologista que envolveu exames, medicamentos, alimentação e contínuo acompanhamento. Lá se foram impressionantes 54 quilos. “Antes eu apenas sobrevivia. Hoje sou outra pessoa”, resume Renata, contando que, em meio aos ganhos na saúde, percebeu uma queda intensa de cabelo e notou sinais de flacidez, o que a fez intensificar os cuidados dermatológicos e nutricionais.
Os desdobramentos do fator canetinha se fazem notar também nas academias, onde cresce o interesse por treinos voltados não à perda de peso, mas à recuperação da força e à preservação da massa muscular, uma vez que parte dos quilos eliminados em ritmo veloz pode justamente vir da massa magra. “O tratamento não deve ficar restrito ao emagrecimento, mas dar suporte a uma jornada de saúde”, afirma Dudu Netto, sócio e diretor técnico da Bodytech. Atenta a esta crescente tribo, a rede inseriu nas 26 unidades o protocolo GLP-1 Training, com avaliação por bioimpedância, prescrição de exercícios, revisão periódica do treino e vigilância de um professor.
O empresário Marcelo Botafogo, de 59 anos, aluno no Jardim Oceânico, na Barra, encontrou na combinação de exercício físico e orientação médica e nutricional uma maneira de mudar os próprios hábitos. Quando passou a injetar a tirzepatida, buscou se alimentar melhor e incluiu whey protein para complementar a ingestão de proteínas nos dias em que a fome reduzida o impedia de raspar o prato. Seu personal trainer, Bruno Costa, ajustou as atividades para preservar a musculatura, e o empresário recuperou a massa magra subtraída no início do tratamento. “Com a caneta, pessoas que nunca tinham treinado começaram a ver a necessidade de fazer musculação, o que é ótimo”, diz.
Se a balança aponta motivos para celebrar, a pele às vezes se ressente. Perdas expressivas podem deixar mais evidentes a flacidez, os sulcos faciais e a redução de volume nas bochechas, nas têmporas e no pescoço. É o fenômeno popularmente chamado de “rosto de Ozempic”. “Grande parte dessas alterações está relacionada à velocidade e à magnitude da perda de peso”, explica a dermatologista Daniela Alvarenga. A solução varia de acordo com idade, genética, exposição solar e preservação da massa muscular. “Temos na tecnologia uma aliada. Bioestimulação de colágeno, proteína que confere firmeza à pele, e reposições pontuais de volume, sempre com avaliação individual, são as mais indicadas”, lista Daniela.
A busca por procedimentos estéticos para rosto, corpo e cabelo, relacionados a queixas provocadas pelo acelerado emagrecimento, já se reflete nas clínicas. “A procura expandiu mais de 60% nos últimos dois anos”, calcula Lígia Reis, sócia da rede Rio Arte, com catorze unidades na cidade. “Agora, quando me olho no espelho, me acho linda”, fala a designer de interiores Roberta Pinheiro, 52 anos, após perder 5 quilos em três meses e procurar tratamento para a flacidez do pescoço. Daniela, porém, faz soar um alerta: nem todo excesso de pele pode ser corrigido com aparelhos ou recursos injetáveis — os casos mais acentuados exigem intervenção cirúrgica.
Os cardápios também sentem os efeitos da revolução do emagrecimento. Com a saciedade aumentada e o apetite minguado, alguns clientes já não conseguem chegar ao fim de porções que antes pareciam razoáveis. E os restaurantes se mexeram. O Mare Mare, com lojas no Shopping Leblon e no Rio Design Barra, passou a servir meia-porção dos sanduíches de focaccia. “Prefiro pagar proporcionalmente um pouco mais caro a pedir algo maior e ter que jogar comida fora”, afirma a gerente comercial Luciana Meyer, cliente da casa. “Essa demanda nos surpreendeu. A meia-porção já representa 40% das vendas”, relata o sócio Claudio Gandelman.
O mesmo ocorreu no japonês Minimok, que em dezembro do ano passado começou a oferecer nas três unidades combinados mais enxutos, com nove, doze e dezesseis peças. “Eles respondem agora por 20% do faturamento”, diz a sócia Cris Preciado. Sucesso no delivery, a Ducadu, especializada em hambúrgueres selados na brasa, lançou o sanca fit, com dois discos de carne smash de 60 gramas. A adaptação para receber clientes mais saciados acompanha uma tendência global: pesquisa da consultoria Galunion indica que 24% dos brasileiros já usaram ou pretendem experimentar medicamentos para emagrecer, percentual que chega a 40% entre consumidores da classe A. Nos Estados Unidos, um em cada oito adultos afirma já ter usado remédios análogos de GLP1, segundo a Kaiser Family Foundation. O que está em curso não é apenas um sacolejo no comportamento, mas uma oportunidade comercial que se abre a diferentes setores.
No último ano, rótulos como Mounjaro, Wegovy e Ozempic movimentaram 13,3 bilhões de reais no Brasil, de acordo com a empresa de análise de dados farmacêuticos Close-Up International. E a expectativa é fechar 2026 com 20 bilhões de reais, segundo a Infoprice. O impacto de tamanha adesão às canetinhas vai além do nicho médico. Levantamento da plataforma Scanntech aponta alta de 440% nas vendas da categoria de produtos proteicos, puxada por itens como o whey protein, que ajuda na preservação da massa magra ao impedir que o corpo use o músculo como fonte energética, e a creatina, que permite manter a força e o rendimento nos treinos de resistência, fornecendo energia rápida para células musculares.
A prateleira de iogurtes proteicos, shakes e leites enriquecidos também avançou em 2025, enquanto redes como Bacio di Latte, Rei do Mate e Cosechas passaram a oferecer adição de proteína a milk-shakes, sucos e vitaminas. “O whey protein pode complementar a dieta quando necessário, mas não deve substituir a comida”, pondera a nutricionista Ana Carla Thomaz, reforçando que o plano alimentar precisa priorizar fibras, proteínas, gorduras saudáveis e hidratação. De olho no rentável mercado das canetas emagrecedoras, gigantes farmacêuticas aceleram a corrida por uma nova geração de medicamentos contra a obesidade.
A disputa é por tratamentos capazes de ampliar a perda de peso, melhorar os efeitos metabólicos e, em alguns casos, preservar a composição corporal. Entre as moléculas em desenvolvimento estão a retatrutida, cuja dose de 12 miligramas levou a uma perda média de 28,3% do peso corporal ao longo de oitenta semanas, segundo o estudo patrocinado pelo laboratório americano Eli Lilly, o mesmo do Mounjaro. Já a cagrisema, aposta do dinamarquês Novo Nordisk (que produz a Saxenda e o Wegovy), mescla princípios ativos para combinar mecanismos complementares de controle da ingestão alimentar e do metabolismo. Também há medicamentos orais em estudo ou em etapas regulatórias distintas.
Mas que não se confunda todo esse avanço com a ideia de uma solução mágica, pronta para evitar a perda de massa magra ou garantir a manutenção do peso pós-tratamento. O endocrinologista Fabiano Serfaty enfatiza que é preciso cautela em relação a essas novidades: “A retatrutida, por exemplo, ainda está em fase de investigação, sem aprovação da Anvisa e sem data oficial de chegada ao Brasil”. Médicos lembram que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e sujeita a recaídas, e que o tratamento deve se alongar por toda a vida. Estudos dão dimensão ao desafio. Uma análise publicada no The New England Journal of Medicine identificou que participantes que interromperam a semaglutida recuperaram, após um ano, cerca de dois terços do peso perdido.
Já uma pesquisa do Weill Cornell Medicine, em Nova York, também observou a adição de significativo peso entre pessoas que suspenderam a tirzepatida. “Isso não quer dizer que todos devam seguir o mesmo esquema indefinidamente, mas que a manutenção precisa ser planejada desde o início, com decisões individualizadas”, esclarece Serfaty. O acompanhamento pode incluir ainda o cuidado com a saúde mental e o comportamento alimentar.
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Para o psiquiatra José Carlos Appolinario, coordenador do grupo de obesidade e transtornos alimentares da UFRJ, é fundamental observar compulsão, sofrimento emocional e distorções da imagem corporal antes e durante o tratamento. “As canetas ajudam pacientes a lidar com a fome e os impulsos alimentares, mas não substituem o cuidado psicológico”, alerta. Como se vê, a perda de peso nem de longe encerra a árdua jornada, mas inaugura uma nova etapa envolta em cuidados para sustentar o resultado. Da musculação à mente, diferentes serviços se ajustam às novas necessidades de quem emagrece, enquanto o desafio maior segue firme no horizonte — zelar pelo bem-estar duradouro.
Efeito colateral
A perda de peso acentuada pode trazer mudanças que vão além dos números
Músculos. Parte do peso perdido pode vir da massa magra, ou seja, da musculatura. “o treino de força se torna fundamental”, afirma Dudu Netto, sócio e diretor técnico da rede Bodytech.
Saúde Mental. É importante investigar compulsão, sofrimento emocional e distorções de imagem corporal antes e durante o processo, como destaca o psiquiatra José Carlos appolinario, professor da UFRJ.
Pele e rosto. A redução de gordura tende a acentuar a flacidez corporal e deixar as bochechas encovadas. “Eu não diria que a flacidez é inevitável. Idade, genética e quantidade de peso perdido influenciam o resultado”, pondera a dermatologista Daniela Alvarenga.
Cabelo. Uma queda intensa dos fios pode ser observada durante o processo de emagrecimento, e a ingestão insuficiente de nutrientes acaba contribuindo para o problema. “Trouxemos um protocolo da Coreia com células-tronco que regenera o bulbo capilar”, conta a sócia da Rio Arte Ligia Reis.
Peso. Alcançar a meta desejada não significa encerrar os cuidados. “A manutenção não é uma etapa secundária. Ela é parte do tratamento de uma doença crônica”, frisa o endocrinologista Fabiano Serfaty.
Nutrição. Com menos apetite, fica mais difícil consumir proteínas, fibras, vitaminas e minerais em quantidade adequada. “Priorize alimentos nutritivos e recorra a suplementos apenas quando necessário”, diz a nutricionista Ana Carla Thomaz.
Firme e forte
Especialistas endossam medidas para um processo de emagrecimento saudável
Não fuja do treino de força
A musculação é uma das principais estratégias para preservar a massa magra. “o programa deve ser adaptado à condição física de cada pessoa, com progressão orientada por um profissional de educação física”, diz Dudu Netto, diretor técnico da Bodytech.
Priorize a ingestão de proteínas boas
“ovos, leite integral, iogurte natural, carne vermelha, frango, peixe e frutos do mar são boas fontes e devem estar previstos no plano alimentar ao longo de todo o dia”, orienta a nutricionista Ana Carla Thomaz.
Entenda que a balança é só um dos fatores
O peso isolado não mostra quanto foi perdido de gordura ou de massa magra. “A avaliação da composição corporal, da força e da evolução física ajuda a identificar mudanças que a balança não revela, permitindo ajustar a estratégia de tratamento”, observa Dudu.
Durma bem para se recuperar
A má qualidade do sono pode prejudicar o desempenho físico e a recuperação, dificultando a manutenção de uma rotina de exercícios. “o descanso correto ajuda a regular os hormônios da fome, controla o estresse e fornece energia para o metabolismo e os treinos”, destaca o endocrinologista Fabiano Serfaty.
Evite atalhos
Comer muito pouco ou tentar acelerar o emagrecimento pode aumentar o risco de perda muscular e inadequação nutricional. “A preservação da massa magra depende da combinação entre alimentação, exercício e acompanhamento individualizado, com orientação médica durante o uso dos medicamentos”, frisa Ana Carla.
Bilhões na agulha
As canetinhas redesenham o varejo farmacêutico e mudam a lógica do setor
R$ 13,3 bilhões Foi o faturamento nas farmácias brasileiras com a venda de Ozempic, Wegovy e Mounjaro, entre maio de 2025 e maio de 2026
R$ 20 bilhões É a projeção de vendas para o mercado brasileiro de medicamentos análogos do GLP-1 em 2026
24% Dos brasileiros já usaram ou pretendem usar medicamentos para emagrecer
R$ 3500 É o preço máximo observado da caixa com quatro canetas nas farmácias cariocas
R$ 8,14 É o efeito sobre a cesta de compras, ou seja, para cada 1 real gasto com as canetas, os clientes gastam oito vezes mais em outros produtos







