Clique e Assine a partir de R$ 8,90/mês
Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

O acelerador de voz do WhatsApp e a nossa dificuldade de escutar

Novo recurso do aplicativo estimula a nociva tendência à pressa

Por Analice Gigliotti Atualizado em 31 Maio 2021, 19h16 - Publicado em 31 Maio 2021, 15h14

O mundo contemporâneo tem se esforçado para nos reduzir ao essencial. E verdade seja dita: tem conseguido. As narrativas da vida agora se dão em tweets de 140 caracteres, em stories efêmeros, em talks de 20 minutos. Aquilo que foge ao cerne da questão é sumariamente descartado. A pergunta que fica é: se todos estão gerando conteúdo o tempo todo, quem está ouvindo?

Essa pressa aflitiva da comunicação ganhou novo impulso esta semana. O aplicativo WhatsApp, um dos mais usados no mundo, passou a oferecer o recurso de acelerar a voz das mensagens de áudio em até duas vezes. Assim, um áudio de 30 segundos passa a ser ouvido na metade do tempo. O receptor ganha 15 segundos do seu precioso tempo. Será que vale a pena?

Colegas que dão aulas em universidades afirmam que o recurso já é fartamente utilizado pelas novas gerações no consumo de séries e filmes. Esqueça aqueles longos planos milimetricamente pensados, o tempo de construção do suspense ou do humor na linguagem audiovisual. Para os jovens, quem dá o ritmo da narrativa não é mais o diretor, mas sim o espectador.

Em uma realidade cada vez mais veloz, em que o tempo é percebido como um bem valioso demais para ser desperdiçado (embora, contraditoriamente, as “horas mortas” em redes sociais seja crescente), a oportunidade de acelerar um áudio é vista como preciosa. No entanto, ela alimenta um autoengano recorrente nos tempos de hoje: o de não perder nada, fenômeno que ganhou até nome, FOMO (“fear of missing out” ou, em português, “medo de ficar de fora” ou “medo de perder algo”).

Recursos aparentemente inofensivos, como o acelerador de voz do WhatsApp, podem estimular gatilhos de ansiedade, transtorno mental já bastante presente entre nós. Segundo a OMS, desde 2017, o Brasil tem o maior índice de pessoas com transtornos de ansiedade em todo o mundo: 19 milhões de brasileiros – número que só tende a crescer com a pandemia.

Veja bem: nada contra o WhatsApp. Ele é um recurso sensacional e que facilitou muito a vida de todos nós. A questão não está na ferramenta, mas no uso que se faz dela. Há quem não consiga participar de uma reunião de trabalho ou fazer uma refeição à mesa sem conferir os inconvenientes “alertas de notificação”. Como se não bastasse a exaustão mental a que nossa sociedade está submetida, qual é o espaço que o aplicativo e seus recursos deixam para o ócio, para o respiro, para a pausa necessária na elaboração de um raciocínio?

Voltando ao início, a dúvida que fica é: ao lançarmos mão de um efeito que acelera áudios, o quanto estamos abrindo mão do nosso exercício de escuta? O respeito às pausas, o encadeamento da lógica da fala do emissor, tudo isso é relegado ao segundo plano, sob a alegação de estarmos “otimizando o tempo”. Talvez o novo recurso do WhatsApp fale mais sobre o nosso tempo do que podemos enxergar a princípio. Em um país rachado, dividido sob todos os aspectos em verdades absolutas, um recurso que ao invés de aprimorar a escuta a torna ainda mais superficial é tudo que não precisávamos neste momento.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

Continua após a publicidade
Publicidade