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Fabiano Serfaty Por Fabiano M. Serfaty, clínico-geral e endocrinologista, MD, MSc Saúde, prevenção, tratamento, dieta, bem-estar, tecnologia, inovação médica e inteligencia artificial com base em evidências científicas

Pesquisas comprovam que prática regular de exercício reduz riscos

Testes com pessoas que fazem atividade física com frequência mostra uma diminuição de até 14% na chance de morte por problemas cardíacos

Por Sergio Kaiser - 25 set 2017, 18h44

Há poucas semanas, o grupo de investigadores canadenses liderados pelo prof. Salim Yusuf publicou os resultados de um grande estudo destinado a investigar a influência de padrões de alimentação sobre mortalidade geral e cardiovascular numa expressiva amostra populacional acompanhada por cerca de dez anos em diversos países, estratificados segundo nível de renda média – alta, moderada ou baixa. Dentre as várias conclusões deste enorme esforço de recrutamento e acompanhamento de 130 mil homens e mulheres ao redor do mundo, ao menos uma gerou bastante controvérsia: em pessoas a princípio saudáveis, o consumo de gorduras, inclusive as saturadas, teria efeito protetor, diminuindo a incidência de mortes por causas não cardiovasculares ¹.

Na semana passada, os mesmos autores publicaram no periódico Lancet os resultados de mais um estudo derivado da mesma coorte: desta vez – arrisco afirmar – menos propenso a gerar controvérsias e, pelo contrário, portador de importante mensagem à população e autoridades². Através de um questionário validado, os pesquisadores registraram o nível de atividade física, recreativa ou ocupacional, em 130 mil homens e mulheres, classificando-o como baixo, moderado ou alto de acordo com o número de METS gastos semanalmente (MET, a sigla para equivalente metabólico, corresponde a uma medida de consumo de oxigênio corporal e se correlaciona com intensidade de atividade física).

Independentemente do nível de renda dos países de origem, aqueles que se exercitavam moderadamente experimentaram, ao longo de 10 anos, uma redução de 20% no risco de morrerem por causas não cardiovasculares e de 14% nas chances de um ataque cardíaco em comparação com os indivíduos considerados de baixa atividade física. Para o grupo envolvido em atividade física enérgica, a redução no risco foi de, respectivamente, 45% e 14% para mortes não cardíacas e ataques cardíacos.
Como principal lição a extrair deste estudo, novamente impõe-se a relevância de um estilo de vida saudável como método altamente eficaz de evitar doenças sem a interferência de medicamentos. A longo prazo, o efeito benéfico do exercício físico regular é tão expressivo ou até superior ao das estatinas em prevenção primária, ou seja, em pessoas a princípio livres de doença cardiovascular, com a vantagem de não gerar sintomas musculares – infrequentes com o uso de estatinas, porém desconfortáveis – e auxiliar na prevenção de diabetes, em contraste com a tendência destes medicamentos em facilitar seu aparecimento, particularmente nos pacientes mais propensos ao desenvolvimento do diabetes.

De forma alguma pretende-se aqui desqualificar a formidável contribuição das estatinas na redução das mortes e ataques cardíacos em pacientes sob risco, mas não custa lembrar que aproximadamente 40% dos pacientes com formal indicação para uso de estatinas após um infarto do miocárdio interrompem seu uso ou reduzem a dose por conta própria ao longo de 2 anos de acompanhamento, expondo-se ao perigo de um novo evento cardiovascular³. Infelizmente, para muita gente também a atividade física regular é um hábito de difícil adoção e pouca persistência. Há, contudo, muitas formas de torna-la uma atividade lúdica e cabe a nós, médicos, a responsabilidade de influenciar nossos pacientes a buscar a adoção de hábitos saudáveis de vida –de preferência, servindo-nos de exemplo!

Referências:
1. Dehghan M et al. Associations of fats and carbohydrate intake with cardiovascular disease and mortality in 18 countries from five continents (PURE): a prospective cohort study. Lancet. 2017; doi: 10.1016/S0140-6736(17)32252-3. [Epub ahead of print]
2. Lear SA et al. The effect of physical activity on mortality and cardiovascular disease in 130 000 people from 17 high-income, middle-income, and low-income countries: the PURE study. Lancet 2017; doi:10.1016/S0140-6736(17)31634-3 [Epub ahead of print]
3. Chowdhury R et al. Adherence to cardiovascular therapy: a meta-analysis of prevalence and clinical consequences. Eur Heart J 2013;34:2940-48

Reprodução/Arquivo pessoal

Mestre em Cardiologia, Doutor em Fisiopatologia Clínica e Experimental
Professor adjunto de medicina interna da UERJ
Coordenador da Disciplina de Fisiopatolgia Clínica e Experimental da UERJ

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