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Cristiana Beltrão Por Cristiana Beltrão, restauratrice e pesquisadora de gastronomia e alimentação

Cringe é tão ontem!

Já fui a “geração Z” do meu tempo. Também ficávamos lá, julgando o que ia para a fogueira ou não, e na gastronomia não era diferente

Por Cristiana Beltrão Atualizado em 27 jun 2021, 16h28 - Publicado em 25 jun 2021, 16h18

Estava ansiosa por retomar a coluna depois de umas três semanas de férias, mas escolher o próximo tema é sempre um nó. Nunca fui de escrever sobre o assunto “da vez”, até porque nasci com 200 anos de idade e só o atemporal me interessa.

Desde que voltei, no entanto, estranhei o barulho em torno da gíria nova. Afinal, é só mais uma.

Ao contrário de troll, influencer ou selfie, que são os estrangeirismos da geração Y, esse debate em torno de “cringe” – termo adotado pela geração Z – só acontece porque a questão não é a gíria, e sim o fato de traduzir vergonha.

Na verdade, cringe é só um termo novo para um assunto antigo: o embate geracional e a moda. Desde que o mundo é mundo, adoramos rebatizar coisas e abandonar costumes, nomes, roupas ou pratos para mostrar que andamos para a frente. A questão é quando nos vemos entre aqueles que ficaram para trás.

Enquanto a geração Z discute está “in” ou “out”, entre eles mesmos, ou ainda no olhar sobre os “velhos” hábitos dos millenials, estou aqui sentadinha na geração X, anos-luz além de qualquer embaraço. Afinal, a geração Z é a dos meus filhos.

Como diria Hannah Arendt, educar é um ato de amor. Temos que preparar quem chega para esse mundo mais velho e, ao mesmo tempo, acolher de cabeça aberta o novo, sua singularidade e essa liberdade de ditar novas modas e termos.

Já tem um tempo que plant based é o novo “vegetariano”. Em vez de exclamar: “Por quê, meu Deus, por quê!!??”, dou um suspiro de preguiça. Procuro explicar que “vegetariano” é o novo “pitagórico”. Sim… Pitágoras lançou moda porque acreditava na transmutação de almas e por isso não comia animais. Vários de seus seguidores filosóficos adotaram a dieta e vegetarianismo continua na moda, mas “pitagórico” é tão 520 a.C, não?

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Já fui a “geração Z” do meu tempo, mas isso antigamente se chamava ter 20 anos. Também ficávamos lá, julgando o que ia para a fogueira ou não, e na gastronomia não era diferente.

Pobre do tomate seco. Foi muito cringe, nos restaurantes dos meus 20 anos. Não tinha nada a ver com ser gostoso, ao contrário. Mas estava por toda parte, onipresente, assim como creme de papaya com cassis, o frango com catupiry, o queijo derretido com damasco, as bruschettas, o alecrim espetado no centro do prato ou a salsinha salpicada nas bordas…. Queimem!!!

Muito antes deles, e mesmo nos jantares caseiros, algumas coisas já estavam debaixo da forca: a flor de tomate, o coquetel de camarão, o vol au vent, o manjar de coco com ameixa… E o que dizer do beef wellington e da torta salgada de pão de forma e maionese?

Gastronomia molecular já foi sucesso absoluto nas mãos do gênio Ferran Adrià. Quando começaram a pipocar esferificações, espumas e nuvens de congelamento por nitrogênio em qualquer festa infantil… Criiiiinge!

Enfim, tudo aquilo que causa “vergonha alheia”, é embaraçoso ou considerado cafona, com o molho do tempo vira retrô e até saudade.

Na época de meus avós, os estrangeirismos eram roubados da língua predominante: o francês. Tudo aquilo que era ultrapassado chamavam de “démodé”.

Então nem sei como dizer, mas um dia, Geração Z, o novo tomate seco pode ser você.

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