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Beco do Becoza Por Juarez Becoza, repórter de gastronomia popular e caçador de botequins

Taste Lab: um dia na Yellow Brick Road gastronômica da Zona Norte

Bares e restaurantes de todo o Rio se unem num coletivo gastronômico que lembra uma espécie de "Terra de Oz" para glutões e boêmios, como este colunista

Por Juarez Becoza Atualizado em 15 dez 2020, 20h56 - Publicado em 15 dez 2020, 12h00

Quando eu era criança, caro leitor, negócio de Shopping Center era pra jogar videogame. Ou melhor: fliperama, como nós chamávamos as diversões eletrônicas nos anos 70 e 80. Uma ficha, um crédito. Igual nos orelhões. Portanto, na minha juventude, shopping center não era comprar, era pra se divertir. E comer alguma coisa, em geral bem ruim. Os anos se passaram, parei com os fliperamas, e na minha formação de boêmio glutão todos os meus esforços de autoindulgência consumista acabavam sempre se voltando para a nobre atividade do comer e beber. Roupa? Eletrodomésticos? Nunca fui disso. Ainda tenho cuecas compradas no século passado. Minha máquina de lavar sapateia enquanto trabalha. Praça de alimentação, então? Vade retro! Shopping, portanto, nunca foi a minha praia. Era um cinema e olhe lá.

Por tudo isso, foi pra mim uma grata surpresa visitar semana passada, a convite, o Taste Lab Coletivo Gourmet, novo empreendimento gastronômico localizado no imenso NorteShopping, no Cachambi. Confesso que entrei lá dando uma de Romário em fim de carreira: “bom, dou umas pedaladas pela área e, na primeira oportunidade, simulo uma contusão e vaso pro Cachambeer, que fica a 150 metros de distância e, ali sim, é lugar pra botequeiros como eu”, pensei. Pois bem: passou-se o tempo regulamentar, a prorrogação, os pênaltis, a mesa redonda, e eu ainda estava em campo, descobrindo cada centímetro daquele gramado cheio de comida boa, oriunda de todos os cantos da cidade. Pois o Taste Lab – empreendimento gastronômico nacional da brMalls que abriu sua primeira empreitada carioca no início deste mês, conforme a própria Veja Rio noticiou em detalhes dias atrás – agregou bares, restaurantes, cervejarias, confeitarias e até dark kitchens para criar um área que é pura diversão e prazer. Pelo menos para glutões boêmios, como eu.

Pra começar, o ambiente geral é muito atraente. E bem sinalizado. Basta olhar pra baixo que se chega facilmente, senão a um gol, às principais delícias que o lugar tem para oferecer. É que o chão é todo marcado de setas amarelas, como num mapa da mina, apontando a direção dos quiosques com seus respectivos nomes. Quase uma espécie de Yellow Brick Road gastronômica, onde todos os caminhos levam a um “chef de Oz”, um melhor que o outro.

setinhas amarelas indicam o caminho
As setinhas amarelas do Taste Lab: yellow brick road gastronômica Taste Lab/Divulgação

Logo ao adentrar o local, já dei de cara com um deles: é o imenso rosto sorridente da chef Katia Barbosa que recebe os comensais, no cartaz que decora justamente o boxe número 1: o Katita, que oferece versões rápidas de algumas das mais conhecidas criações da chef do famoso Aconchego Carioca. Do célebre bolinho de feijoada ao mais recente arroz de rabada, passando por tesouros poucos conhecidos. Como o inacreditável bolinho de vaca atolada, na verdade um croquete ao melhor estilo botequim das antigas: com aquela carne assada assada macerada com aipim, num quase creme consistente o suficiente pra não liquefazer dentro da boca. Uma marrávilha, como diria o parceiro dela na TV.

Mas confesso que esse bolinho aí eu já conhecia, e deixei para o final. E como a Katia em pessoa não estava por lá naquele dia, fui prestigiar os outros mágicos de plantão. Minha primeira estação pelos caminhos amarelos do Taste Lab foi conhecer o trabalho do Rafael Cavalieri (@gastroesporte), que já assinou muita matéria aqui nessa revista, quando ainda era jornalista, e hoje responde com a maior competência pela cozinha da tasca É Giro (@tascaegiro). A casa, recém-aberta no mercado gastronômico Boxx, de Botafogo, nem pestanejou para a oportunidade de abrir sua primeira filial na Zona Norte também. O cardápio ali, assinado por Ricardo Lapeyre em parceria com o Rafael, é viagem non stop à Lisboa. No estilo da onda de tascas modernas que começou em 2016 com a Carvalho (@tascacarvalho), em Copacabana, e tomou conta da cidade este ano. Um vôo que decola com bolinhos – ou melhor, “pastéis” de bacalhau recheados com queijo Serra da Estrela -, cruza o Atlântico com bifanas de pernil ao molho de tomate e aterriza com bacalhau espiritual, entre muitas outras opções preparadas por Rafael e sua assistente. Dependendo da quantidade de chopes consumidos ali ao lado, no box da cervejaria Noi com suas 23 torneiras mágicas, dá até pra se sentir a Dorothy.

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Rafael Cavalieri: à frente do É Giro!
Rafael Cavalieri: à frente do É Giro! Taste Lab/Divulgação

Mas o filme – ou o jogo – não acabou ali, nem de longe. Aquilo foi só o primeiro tempo – ou ato. Segui da É Giro, pisando leve nas setinhas amarelas, para outra estação digna de nota nesse coletivo de sabores: o Seu Porkinn (@seuporkinn), casa especializada em suínos criada exclusivamente para o Taste Lab pelo chef Rafael Gomes (@rafagomeschef), vencedor do Master Chef Pro de 2018. A grande especialidade ali é o Porkinn’giana, um filé de porco à parmegiana feito com molho de tomate caseiro, acompanhado de purê de batata baroa ou fritas com páprica. Consta que, até a rodada atual, é a estrela da companhia: o prato mais procurado no Taste Lab.

Mas o talento leitão do Rafael Gomes não está sozinho. Seguindo na minha peregrinação (ou seria prorrogação?) achei um companheiro pra fazer dupla nesse ataque suíno: o espetinho de barriga picante do Sakei Rio (@sakei.rio), criação do também ex-masterchef André Pionteke (@andrepionteke). Foi a coisa mais surpreendentemente boa que comi nesta tarde de autoindulgências.

a imagem mostra Rafael Gomes segurando duas receitas
Rafa Gomes: o nome à frente do Seu Porkinn Taste Lab/Divulgação

Que não pararam por aí, é claro. Seguindo as setinhas amarelas – cada vez mais mágica à medida em que faziam efeito as cervejas e os drinques do quiosque da Amázzoni e do box do Bobô Bar (famosa estrela suburbana que abriu filial ali também) -, encontrei o caminho do cantinho da Olenka, casa de brownies refinados que criou coragem para traçar uma reta do Shopping Leblon para o Norte Shopping, e não deve estar se arrependendo.

E há muito mais, caro leitor. Em breve, o restaurante digital Do Batista (ele mesmo, o sous chef do Claude Troigros que faz um bruta sucesso com seu delivery na internet) vai abrir sua casa física bem ali. A TT Burguer, também do clã Troigros, é outra que tem desde sábado passado seu nome escrito nos tijolos amarelos do Taste Lab. Assim como a Blend, atualmente a casa de carnes mais popular da Zona Norte, a pizzaria Cobre, a casa de vinhos Gran Cru, a padaria Le Depanneur e a confeitaria Le Remy, que a patessiere Priscilla Rodrigues até outro dia mantinha exclusivamente na internet e agora virou negócio físico também. Tudo numa curadoria balanceada, que não permite repetições e agrada praticamente todos os gostos.

A essa altura, caro leitor, eu já ia pela disputa de pênaltis. Mais redondo que a bola. Para não perder a dignidade (tenho um nome a zelar…) ainda encarei os bolinhos de vaca atolada da Katita, que afinal são imperdíveis. Depois, bem que tentei caminhar os 150 metros que separam o Taste Lab do Cachambeer, pra uma saideira. Mas a idade um dia chega. Dei de Romário e entrei no táxi. Direto pra casa. Não sem antes ouvir um boato interessante: é bem possível que, muito em breve, a distância entre o NorteShopping e o Cachambeer fique menor ainda…

 

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