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‘Me deu engulhos’, diz Andréa Pachá, sobre audiência de Mari Ferrer

Juíza conta que não presenciou nada parecido em mais de 15 anos de atuação como magistrada; 'É a reprodução do que tem de pior em machismo e misoginia'

Por Cleo Guimarães Atualizado em 4 nov 2020, 15h04 - Publicado em 4 nov 2020, 14h02

A juíza Andréa Pachá não consegue tirar da cabeça as imagens do vídeo em que a influenciadora Mariana Ferreira, conhecida como Mari Ferrer, é humilhada e agredida verbalmente por Cláudio Gastão da Rosa Filho, advogado de defesa do empresário André de Camargo Aranha, acusado de estuprá-la. “Nunca vivenciei nada parecido. Estou mal desde que vi aquilo”, conta Andréa, do alto de sua experiência de quase duas décadas como magistrada. Foram tantos os dramas e histórias presenciados nos tribunais que ela lançou um livro, A Vida Não é Justa, para contá-las. Adaptada para a TV, a obra deu origem à série Segredos de Justiça, exibida pela Globo em 2016. Andréa concedeu uma entrevista a VEJA RIO – leia logo abaixo da contextualização do caso, que causa indignação em todo o país.

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Contexto: Acusado de ter dopado e estuprado Mariana numa boate de Florianópolis, em 2018, André de Camargo Aranha foi absolvido pela Justiça catarinense em setembro, numa decisão em primeira instância que o site Intercept definiu como “estupro culposo” (em que o acusado não teria tido a intenção de estuprá-la). O termo, que não existe no ordenamento jurídico brasileiro, virou o assunto mais comentado no Twitter, nesta terça (3), e o vídeo da audiência, divulgado pelo site, também viralizou. As imagens mostram Cláudio Gastão da Rosa Filho exibindo cópias de fotos consideradas sensuais, produzidas por Mariana quando era modelo. As fotos reforçariam o argumento de que a relação entre Mariana e Aranha foi consensual. O advogado define as imagens como “ginecológicas”, e afirma que “jamais teria uma filha” do “nível” de Mariana. Ele também repreende o choro da moça: “Não adianta vir com esse teu choro dissimulado, falso e essa lábia de crocodilo”. (Leia mais trechos no final da entrevista) 

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Como juíza, o que achou do vídeo que mostra a audiência do caso de ‘estupro culposo’? Eu acho que os debates nas redes sociais acabaram abandonando o foco do problema. O que precisa ser apurado é a agressão e a humilhação sofridas por esta moça durante uma audiência e a omissão das autoridades no espaço público. Isso é muito mais relevante do que discutir o termo ‘estupro culposo’, que não está escrito em lugar nenhum, nem no processo, nem no parecer. Tanto que o Intercept atualizou a reportagem e explicou que usou o termo para dar densidade ao texto.

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O advogado que agrediu verbalmente e humilhou Mari Ferrer cometeu algum crime?  Não, não vejo prática de crime. Pode resultar em punição disciplinar. Nem tudo é crime, só o que está definido no código penal. A atuação do advogado foi cruel, lamentável. Não é o que se espera de nenhum profissional. Ele estava ali para defender um cliente e não para acusar uma vítima. Eu fiquei muito mal vendo aquelas cenas.

A atitude do advogado, de tentar culpar a vítima pelo estupro, acontece com certa frequência no país, não? A gente vive um momento de violência crescente contra a mulher, de crimes de ódio, e você olha aquela cena e vê a reprodução do que tem de pior em machismo, em misoginia. Aquilo ali foi uma exibição muito clara do que é o machismo estrutural. Como alguém consegue olhar e não dizer que é resultado de machismo?

O que achou da postura do juiz Rudson Marcos? Ele não deveria ter intercedido em algum momento? Eu não posso dar opinião sobre juiz em processo, isso é proibido pela lei orgânica. Mas eu acho que competia a qualquer autoridade interromper aquela audiência.

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Como você vê a reação da Mari Ferrer neste episódio? Não é possível você procurar o estado como vítima e acabar sendo exposta como criminosa, é inadmissível. No vídeo, a moça que estava prestando depoimento conseguiu ficar serena e ser muito incisiva, porque sabia dos direitos dela. Não sei se eu teria reagido daquele jeito ou se já teria desabado em lágrimas porque aquilo desestrutura qualquer pessoa.

Trechos do vídeo:

Cláudio Gastão da Rosa Filho, advogado do acusado, exibe fotos de Mariana que ele diz serem sensuais. ADVOGADO: Essa foto aqui foi manipulada e tudo. Essa foto foi manipulada.

MARIANA: Muito bonita por sinal, o senhor disse, né? Cometendo assédio moral contra mim. O senhor tem idade para ser meu pai; tinha de se ater aos fatos.

ADVOGADO: (Inaudível) uma filha do teu nível. Graças a Deus! E também peço a Deus que meu filho não encontre uma mulher que nem você. E não dá para dar o teu showzinho. Teu showzinho tu vais dar lá no teu Instagram depois pra ganhar mais seguidores. Tu vives disso, Mariana, vamos ser sinceros, fala a verdade! Tu trabalhavas no café, perdeste o emprego, estavas com o aluguel atrasado sete meses, eras uma desconhecida. Vives disso. Esse é teu ganha-pão, né, Mariana? A verdade é essa. É teu ganha-pão a desgraça dos outros? Manipular essa história de virgem.

Ele busca outra foto. ADVOGADO: Só pra mostrar essa última foto que ela mandou o defensor público juntar e que ela diz que foi manipulada. Essa foto aqui foi extraída do site de um fotógrafo onde a única foto chupando o dedinho e com posições ginecológicas é só a dela. E com posições ginecológicas ali… É só a dela.

MARIANA: Mas eu estou de roupa, não tem nada de mais! A pessoa que é virgem, ela não é freira, não, doutor A gente tá no ano de 2020. Mariana começa a chorar.

ADVOGADO: Não é freira. Não estou dizendo que é freira. Essas fotos não têm nada de mais. Mas por que você apaga essas fotos, Mariana? E só aparece com essa sua carinha chorando? Só falta uma auréola. Não adianta vir com este teu choro dissimulado, falso, e essa tua lágrima de crocodilo.

MARIANA: Meu Deus!

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