De início não entendi meu alívio ao ouvir a frase.
Longe de banalizar a gastronomia, afinal minha vida se dedicou a essa coisa aparentemente inútil de buscar técnica, equilíbrio e cultura por trás de cada prato, mas há dias em que a estrada cobra seu pedágio.
Só de pensar em enfrentar explicações intermináveis de um garçom, que pufff!… desarma uma fase do meu cérebro. Até porque uma boa refeição não é, necessariamente, complicada. Um prato perfeito é tão somente a alma gêmea de um instante. É a luva de um momento que talvez quisesse vestir outra coisa amanhã.
“É culinária, não gastronomia” disse Rodrigo Lanthiez, dono da Fazenda do Francês, pousada ecológica onde paramos para almoçar numa expedição do Instituto Bazzar a Cachoeiras de Macacu. “O que temos para oferecer aqui é esse nada”, continua Rodrigo.
E eram sete quartos com vista para a exuberante Mata Atlântica cercados de um silêncio invejável, com trilhas e cachoeiras a poucos passos, uma rede na varanda, um banco diante do lago, a banheira no meio do mato, as montanhas, os pássaros, o céu…. Tudo que o nada sempre quis ser.
Dos fundos, brota uma moça bonita e grita “Champagne!”. E não, não era a garrafa.
Parece mentira, mas obedecendo o comando de voz de Jennifer Lepoutre – esposa de Rodrigo – vem caminhando um cavalo lindíssimo. Em seguida, também se aproximaram Carotte, potranca de pelo jovem e arrepiado, e outros amigos. A especialidade da proprietária é o dressage, técnica de adestramento que ajuda o animal a dar aqueles “saltitos” ordenados que só vemos em palácios, num lindo balé de crista envergada e pernas arqueadas que torna o bicho mais calmo e atento ao cavaleiro. Os animais me pareceram mais civilizados e elegantes do que muita gente.
Trotei, também obediente, em direção ao suco de goiaba denso, felizmente cheio de caroços da fruta fresca que desbanca a polpa incolor, inodora e insípida de sucos industriais.
Religuei os disjuntores cerebrais com o rôti de porc à la moutarde de Dijon, receita da família de Rodrigo, servido com cubinhos de batata dourados, simples e perfeitos. O boeuf bourguignon vinha com arroz branco, ratatouille e farofinha. Um crumble despretensioso de banana e uma tarte au citron, nada doces, saíram da cozinha doméstica sem forno combinado ou thermomix, enfeitados com flores do jardim. A água foi servida numa garrafa de Chablis.
Nada estava fora do lugar, ali.
Corta a cena para a tarde de ontem, que me chamou até Santa Teresa.
Fui reencontrar o Aprazível que, desde 1997, também faz essa cozinha nada básica, mas basilar, sem firulas.
Pedi a casquinha de caranguejo delicada e equilibrada, coberta pela melhor e mais crocante farinha do mundo: a de Bragança, no Pará. Em seguida, um marreco tão comum aos cardápios dos anos 90 – que felizmente não saiu de lá – com um purê de maça perfumado e cheio de acidez que se misturava ao caldo do marreco e ao suco doce de uma ameixa em compota. De sobremesa, um cuscuz com castanhas de caju caramelizadas e sorvete de manga.
Como não sou besta, pedi um branco do Jura, daquela que é uma das melhores cartas de vinhos da cidade.
__
As duas casas são totalmente distintas em termos de proposta, serviço, estrutura ou ambições, mas se encontram na desafetação. São prova de que uma boa experiência não precisa ser complicada; ao contrário. Quem a complica deve ter a certeza de entregar a expectativa, inflada pelo discurso, floreio e malabarismos no prato.
Às vezes, é a falta disso tudo que mais chama a atenção.







