Hugo e o papa

22 março 2013 | deixe seu comentário (0)

Tenho horror a ver filmes baseados em obras da literatura antes de ler o original. É como se me roubassem o delírio. Resisti cinco minutos na plateia de Anna Karenina, desastrosa versão bufa do romance de Tolstoi para o cinema. Tapei os olhos, se pudesse teria tapado os ouvidos, para evitar que o semblante do elenco se grudasse ao dos personagens.

Os poucos trechos que vi das chamadas do Oscar de Os Miseráveis já foram suficientes para deixar a marca. O tijolo me olhava havia meses da cabeceira da cama, Andréa Beltrão me atiçava a ler, mas a mídia maciça do musical acelerou o ímpeto de encarar as mil e tantas páginas antes que fosse tarde demais. Mesmo sem ter ido ao cinema, na minha imaginação Javert insiste em ser Russell Crowe e Valjean desfila ares de Wolverine.

Mas Victor Hugo é Victor Hugo, é maior que tudo. É Janete Clair e tratado socialista, é melodrama e narrativa histórica. Victor Hugo salvou a Notre Dame da ruína com o Corcunda, atraindo fundos para a recuperação do monumento. Na porta lateral esquerda da catedral, um corcundinha de pedra adorna a fachada em agradecimento.

Victor Hugo é a França e a humanidade. É o povo. De vez em quando acontece de um extraordinário talento explicar não só o seu tempo, mas o porvir.

Impossível, depois de conhecer Cosette, olhar para uma criança de rua e não sentir repulsa pela própria indiferença, a mesma dos burgueses de Montfermeil, que fazem vista grossa para a escravinha dos Thénardier.

Na abertura do conclave que escolheria o novo papa, acompanhei na TV as imagens ao vivo do Vaticano, enquanto lia a descrição de Victor Hugo do convento de Petit-Picpus, onde Valjean se esconde do oficial Javert.

O autor dedica um longo capítulo à condenação do claustro. Faz duras críticas à austeridade monástica e à adoração da morte: “O regime monacal, bom no começo da civilização, útil para a redução da brutalidade, é pernicioso à virilidade dos povos. [...] Os mosteiros, bons no século II, discutíveis no século XV, são detestáveis no século XIX”.

Eu, ali, admirando a Cúria em pleno século XXI, olhando com desconfiança a inexistência das mulheres e o celibato dos eclesiásticos, ciente dos últimos escândalos, me encontrei na repulsa de Victor Hugo.

Mas, depois de afirmar que “a tomada de hábito é um suicídio recompensado com a eternidade”, de cobrir o leitor de razões para renegar “uma filosofia que resume tudo no monossílabo não”, no apagar do sétimo livro de Cosette, o autor lança mão de um pequeno capítulo intitulado “Fé e lei”, no qual diz:

“Censuramos a Igreja quando saturada de intrigas, desprezamos o espiritual que não poupa o temporal, mas honramos sempre o homem que pensa.

Saudamos quem se ajoelha. Uma vez ao menos isso é indispensável ao homem. Desgraçado de quem não crê em nada”.

Para fechar, Hugo enaltece a fé.

Dois dias depois, meu orgulho patriótico sofreria o baque com a notícia de que o papa era argentino. E olha que eu adoro a Argentina. A vaidade besta desapareceu quando fui apresentada a Francisco.

Bento XVI era sinistro até quando sorria, faltava nele o carisma. Francisco o tem de sobra. Passei a admirar Bento XVI depois da renúncia. Não havia por que repetir o papel de santo mártir que João Paulo II encarnou como ninguém. A abdicação de Bento XVI faz da exceção a regra. Os futuros papas, uma vez privados de sua força física, se sentirão no direito e, até, no dever de se aposentar.

Francisco tem bochechas grandes, um sorriso relaxado, quebra protocolos e anda de van. Escolheu Francisco de Assis como guia depois que o cardeal brasileiro Claudio Hummes o aconselhou a não esquecer os pobres. O calor humano da figura de Francisco produziu, em mim, o mesmo efeito do capítulo VIII de Cosette, o de reconciliação.

A presença de João Paulo II nas canecas, chaveiros e retratos das vitrines das lojas de suvenir do entorno do Vaticano é esmagadora. Tenho certeza de que Francisco, já, já, vai dominar o comércio local.

E termino agradecendo a Nossa Senhora Cármen Lúcia a graça concedida ao Espírito Santo e ao Rio de Janeiro na questão dos royalties do petróleo.

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Londinium

29 julho 2011 | 7 comentários

Passei uma semana em Londres. Na última vez em que estive lá, multiplicava-se o preço em libras por sete para saber quanto as coisas custavam em reais. Agora, pasmo, o caro é sobreviver aqui no Rio.

O verão londrino é tão frio quanto o outono/inverno carioca. Isso faz pensar na falta de sol que aquela ilha deve enfrentar de outubro a maio todos os anos. Saí de casa com pena de perder os dias frescos, mas bastaram algumas horas de espera no vergonhoso terminal do Aeroporto do Galeão para ser tomada pelo desejo incontrolável de ir embora.

Depois de deixar a polícia, o turista desavisado dispõe apenas de uma lanchonete encardida e um diminuto free shop para resolver as emergências. Não há farmácia e, detalhe impressionante, não há nem uma banca de jornal nos portões de embarque.

Qualquer rodoviária tem jornaleiro, será que a porta de saída do Rio de Janeiro é um negócio tão arriscado que não vale a pena montar nem uma desgraça de uma tenda de revistas no corredor de tapumes do Tom Jobim?

Deixei a prova do desmantelo fluminense para trás e cruzei o Atlântico.

Londinium é reconhecida como um centro de comércio e prosperidade desde os tempos do historiador romano Tacitus, 900 anos atrás. Durante séculos, aprimoraram-se, ali, as regras da convivência e o limite da liberdade pessoal.

Meu filho menor, em um movimento digno de uma tartaruga ninja, puxou a alavanca vermelha de emergência ao lado do assento do metrô. O alarme disparou dentro do túnel e continuou zumbindo até chegarmos à próxima estação. Ninguém brigou, não houve cara feia. O vagão riu com sobriedade e voltou para a sua rotina de sempre. Isso em plena era de ameaças terroristas. Um senhor me aconselhou a informar o funcionário da estação sobre o ocorrido, o que fiz prontamente.

Não houve bronca, mas também não senti bom-mocismo em ninguém. É através do pragmatismo cortês que o inglês espera que o resto da humanidade aprenda as regras de sua civilidade.

Um taxista leva quatro anos para tirar a carteira e dirige com a propriedade de quem possui curso superior. De 100 inscritos, apenas um ganha o direito de conduzir nas centenárias ruas. Sabem de cor as mais de 10 000 vielas e avenidas da capital e servem de guia quando preciso.

Com um distanciamento caloroso, eles devotam a mesma atenção aos bêbados, às senhoras idosas, aos bebês barulhentos e aos compatriotas cientes da etiqueta.

Tenho um casal de amigos que se mudou para Richmond, um subúrbio belíssimo distante trinta minutos de metrô do centro de Londres.

Conversando sobre a estranheza dos hábitos em além-mar, meu amigo observou que o inglês come pouco, virando o garfo para baixo para equilibrar uma porção reduzida de alimento sobre a curva enviesada do talher.

Mãe de suas duas filhas, minha amiga sentiu o disparate entre a nossa cultura e a deles na intimidade das festas infantis. Segundo ela, não se contratam decoradores nem animadores profissionais. Os adultos vêm comidos, não se bate palma no Parabéns e o bolo é cortado e colocado em uma bolsa que as crianças levam para comer em casa.

Eu gosto de bater palmas e acho que engolir o bolo sozinha não tem a mesma graça. Além disso, ficaria frustrada de não empurrar um caminhão de comida goela abaixo com o garfo devidamente virado para cima, mas o Brasil está desenvolvendo uma escravidão consumista para a qual deveríamos ficar atentos. A indústria das celebrações infantis é um exemplo enervante dessa tendência emergente.

“No Brasil, eu era madame, aqui, sou classe média”, disse minha amiga. “É muito bom ser classe média, é uma vida mais simples, libertadora de certa forma.”

A Inglaterra, apesar da rainha, do Parlamento, da libra, do luxo e do Rolls-Royce, é um país de classe média. A rua é um bem comum usufruído por todos e os parques são jardins dignos da realeza ocupados por plebeus educados.

Defendo a tese de que o inglês tem pena de quem não é inglês. O Homo sapiens sapiens é inglês. Os outros podem até ser chamados de Homo, alguns poucos de sapiens, mas só o bretão ostenta essa definição elevada à segunda potência.

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