Encarnação

30 junho 2012 | 4 comentários

Uma das passagens mais eloquentes que conheço sobre a fronteira entre a vida e a morte se encontra no livro Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Nele, uma frágil almazinha em formação anima as entranhas de bichinhos silvestres, de um ou dois curumins inocentes, até que, um dia, encarna em um feroz aborígine, o Caboco Capiroba. Canibal convicto, o selvagem engorda europeus cativos com sádica paciência, antes de devorá-los à moda da casa.

No seu retorno ao poleiro dos anjos, depois de livre das amarras do insano Caboco, o desnorteado espírito sobe depressa aos céus, rezando para nunca mais ter de acordar em um mundo tão desalmado como este em que vivemos.

Apesar da tormentosa descrição de Ubaldo, encontro um grande conforto na ideia da reencarnação. Eu adoraria ter a eternidade para ajustar as contas, e não no paraíso ou no inferno, mas na vida terrena que tanto estimo.

Seria mesmo um alento, mas não cultivo tal crença.

Entre as inúmeras vantagens da reencarnação, eu destacaria os sucessivos fins. É uma forma de imortalidade muito diferente da angústia entediante dos vampiros e highlanders, condenados a ser os mesmos ad aeternum.

Um budista emérito me explicou, certa vez, que o que reencarna é uma parte tão ínfima que, nela, não há espaço para nada parecido com o que se entende por indivíduo, ou eu.

A teoria não difere muito da concepção materialista que tenho da morte. Acho que vou virar gás, água; vou apodrecer e servir de alimento para moscas, larvas ou bichos carniceiros. Voltarei para a mãe natureza como Lavoisier previu: sem nada perder, mas também sem deixar vestígios.

Não sei da mágica budista para reorganizar a energia dispersa de volta ao ser. Mesmo incapaz de conceber
o conceito, não deixo de me sentir seduzida pela possibilidade.

Gosto de pensar que homens e mulheres retornam 1 milhão de vezes, alternando os sexos em temporadas distintas; longos ciclos contínuos de masculinidade e feminilidade.

Há os que estão começando a sua caminhada de fêmea e há os que estão abandonando a de macho. Nada a ver com desmunhecar ou falar grosso. Conheço sensualíssimos mulherões curvilíneos que, tenho certeza, retornarão homens feitos no próximo passeio na Terra.

Eu ia dar exemplos, mas temo ser deselegante. Sirvo eu de cobaia.

Nasci menina, tenho todos os romantismos de menina, mas a maneira como dispenso ajuda na hora de carregar as malas, o modo como me visto, tão afeito a alfaiatarias, e a inadequação ao ritual de beleza que meu sexo impõe me fazem desconfiar que deixei de fazer a barba há pouco tempo.

Tenho amigas que estão no auge da sua feminilidade, mas são tão diretas, ativas e voluntariosas que, notadamente, já estão tomando o rumo oposto.

Nunca pensei na questão da homossexualidade. A opção óbvia seria situar os que fazem essa escolha nas extremidades de cada fase.

Mas uma segunda consideração me fez fugir do esquema. Eu me lembrei dos Dzi Croquetes e de Silvinho, o cabeleireiro do Jambert, a locomotiva dos anos 70. Silvinho reinou alto, lindo, peludo e selvagem. Era gay e era bi. Aposto que tanto Silvinho quanto Lenny Dale voltarão cabras-machos, ou Barbies demais, sem meios-termos, se é que já não estão por aí. Talvez, o homossexualismo seja a maneira mais rápida de pular os infinitos degraus desse vaivém sem fim.

E você que me lê? Gostaria de renascer moça ou moço? Tem inveja do pênis? Morre de vontade de usar minissaia e não pode? Quantas encarnações ainda lhe restam no estado em que está?

***

Gostaria de agradecer à leitora Lêda Couto Ferreira, que me escreveu alertando que progenitora é avó, e não mãe, como eu supunha. Obrigada, Lêda.

A propósito, minha genitora me deu de presente um livro besta, desses que se compram nas caixas das livrarias, chamado Os 300 Erros Mais Comuns da Língua Portuguesa. Para os que, como eu, sofrem com a gramática, fica aqui a recomendação.

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Fusão

16 junho 2012 | 1 comentário

Uma das sensações mais estranhas para um filho de atriz é ver a sua mãe possuída por alguém que não é exatamente ela, embora seja. Quando pequena, eu evitava assistir à novela Sangue do Meu Sangue porque o personagem da minha progenitora apanhava demais do marido. Também sentia vergonha na plateia de Seria Cômico Se Não Fosse Sério, quando Zanoni Ferrite cortejava a desvairada Alice. Mais velha, substituí por uma noite a menina que fazia a filha de Petra Von Kant. Nunca mais esqueci o rosto transtornado e a fúria de minha mãe deitada no chão, bêbada, como que em transe. Desde então, trabalhamos juntas diversas vezes, a ponto de eu achar que havia me curado do mal-estar da juventude. Coube ao filme Central do Brasil ressuscitar os medos atávicos. Nele, Dora, a ex-professora que escreve cartas para analfabetos na estação de trem, aceita levar um menino órfão de volta para o pai, no Nordeste. Assim que embarca no ônibus, Dora saca uma garrafa de pinga da bolsa e entorna pelo gargalo. Diante da cena, senti, novamente, o velho embaraço de ver dona Fernanda louca, descomposta e mãe de coisa nenhuma. Suspeito que a ideia da bebedeira tenha saído da cabeça de João Emanuel Carneiro, corroteirista do filme. A crueldade do núcleo principal de Avenida Brasil cultiva a mesma dureza. A sensação de que o mundo adulto é tão ou até mais desamparado do que o infantil. Na semana passada, corri para tirar a maquiagem depois de um dia longo no estúdio. No camarim, a TV estava ligada na novela das 9. Parei. Carminha largava o filho no lixão. O único alento para o ato funesto era o olhar amoroso de Vera Holtz; o resto, silêncio. Fui tomada pela mesma insegurança que me abateu no Central. A Adriana deve gravar tanto, decorar tanto, que não há mais resistência para a ardilosa Carminha. Não se vê mais a atriz, só sobrou a personagem. É um vício comum no intérprete a exibição das lágrimas como se fossem troféus. As de Adriana, não; bem antes de cair, já enchiam os olhos de mágoa, mirando o filho desaparecer pelo retrovisor. Medalha de honra para o diretor Gustavo Fernandez. Voltei deprimidíssima para casa. No dia anterior, eu tivera a sorte de ouvir os dez cornos repetidos em série por Marcello Novaes. Uma surra de impropérios digna do pior cafajeste de Nelson Rodrigues, tão canalha que chegava a dignificar a cornidão heroica de Tufão. Na sua novela anterior, A Favorita, João propôs começar  a trama sem estabelecer com clareza quem seria a heroína e quem seria a vilã. Em Avenida Brasil, fez diferente, definiu de saída, sem espaço para dúvidas, para depois subverter os papéis. É um dramaturgo e tanto. Se é que existe algo que ainda não foi dito sobre Avenida Brasil, cito aqui a cinematografia com que são feitas, principalmente, as externas. Há uma utilização muito precisa das lentes, do desfoque do primeiro plano e da profundidade de campo. Durante muitos anos, o cinema e o vídeo trilharam caminhos separados, quase opostos. O primeiro era feito em película e o outro em tape. Não havia conversa. A revolução tecnológica do início do milênio aposentou o celuloide e ampliou as nuances da captação digital. Hoje, cinema e TV falam a mesma língua. Cabe aos envolvidos explorar  os recursos advindos dessa fusão. Ricardo Waddington é meu cunhado. Graças a essa proximidade, pude acompanhar as dezenas de visitas feitas por ele a feiras de equipamentos, bem como a contratação de técnicos que redefiniram as rotinas de som e luz de seu núcleo na TV Globo. Esse apuro tecnológico, hoje, dimensiona o realismo cortante de Avenida Brasil. Cordel Encantado, também dirigida por Amora Mautner, foi um divisor de águas, mas a atual trama das 9 leva o padrão ainda além. É uma televisão que aponta para o futuro e quebra uma barreira de linguagem importante, dando um peso cinematográfico ao carro-chefe da programação. Que venham outras em seu lugar.

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“Haviam” coisas

02 junho 2012 | 11 comentários

Felipe Pinheiro, meu saudoso amigo, costumava fazer uma brincadeira que adoro repetir sobre a epidemia do “pra mim fazer”. Quando um “pra mim andar” ou “pra mim comer” lhe feria os ouvidos, meu compadre franzia as sobrancelhas e repetia, entre o irritado e o desesperado: “Mim não faz nada! Mim não anda! Mim não come! Mim não faz coisa nenhuma!”.

Existem infindáveis “mins” realizando façanhas por aí, com o risco, inclusive, de ser aceitos pela norma culta. Se os que defendem que a linguagem já nasce com o homem estiverem corretos, e o neném berrar na sala de parto seguindo a concordância, o “pra mim errar” deve ser um defeito grave de fabricação.

Meu mim não age. É dos poucos orgulhos que eu tenho do meu português. Tenho um conhecimento pífio de gramática, escrevo de ouvido, herança da escola experimental. Passei anos com medo de desejar um bom-dia por escrito ao João Ubaldo Ribeiro. “Será que tem hífen?”, eu pensava. Um bloqueio assustador, como se estivesse prestando um exame. Só usava frases curtas, quase bilhetes e, mesmo assim, no sufoco.

Recentemente, eu me correspondi com um conterrâneo do Ubaldo igualmente culto e amante da última flor do Lácio. Fui bem, consegui desenvolver um raciocínio aceitável, mas, lá no fim do último parágrafo da caudalosa epístola, escrevi que “haviam incongruências”. As incongruências não importam, já o haviam…

“No Brasil, usamos o verbo ter no lugar do haver. ‘Tem um buraco enorme do lado esquerdo.’ Pois bem, mesmo que fossem dois (ou sete) buracos, o verbo permaneceria no singular: ‘tem sete buracos enormes do lado esquerdo’. Igual a ‘há sete buracos enormes do lado esquerdo’. Até aí, tudo bem, ninguém erra se usar o verbo haver: ninguém diz ‘hão sete buracos enormes’. Mas, se vai para o passado, neguinho fica com medo de não fazer a concordância e flexiona o verbo: ‘haviam sete buracos’. O certo é ‘havia sete buracos’. Nem ‘houveram sete assaltos’ (saí do buraco porque não dá para fazer uma frase convincente com buracos e o verbo no pretérito perfeito: houve, houveram; o imperfeito é havia, haviam).

O certo é ‘houve sete assaltos’. Ou ‘teve sete assaltos’. Claro que com o verbo ter você vai encontrar situações de flexão correta: ‘Os bancos tiveram sete assaltos este mês’. Porque aí o sujeito da frase é ‘os bancos’. É como dizer ‘os bancos sofreram sete assaltos’. Mas dizer que meramente houve assaltos não implica ‘assaltos’ ser o sujeito. Houve o que houve, há o que há, havia o que havia; o verbo haver aí é impessoal. O verbo ter, quando o substitui em casos iguais, também.”

Agradeci de joelhos a paciência e a aula, mas o lodaçal piorou. E existe? Existem sete buracos? Ou existe sete buracos? Quem existe é o buraco, então, deve ser existem. E os dias? “Hoje é 15 de setembro”? Ou “são 15”? As horas eu sei que são. E faz? É impessoal ou não? “Fazem quinze anos” ou “faz quinze anos”? É faz. A razão, segundo fui informada, beira a filosofia: é porque o tempo é.

O pediatra do meu filho tinha 14 anos quando enfrentou uma sequência de zeros distribuída democraticamente pelo professor belga de matemática do Santo Inácio. O pai recorreu a aulas particulares com um conterrâneo do mestre. O europeu mal-humorado explicou que só existem quatro operações relevantes: soma, subtração, multiplicação e divisão, depois, escreveu na lousa: 2+2, 2-2, 2×2 e 2:2 e pediu que o aluno resolvesse. Quando o rapaz terminou, o professor aconselhou um reforço em português. A dificuldade estava na leitura do enunciado dos problemas. Todas as falhas de compreensão pertenciam à lógica.

Nesse quesito, português só perde para a física em matéria de dificuldade.

O pouco que fixei, hoje, só me serve para entregar a idade.

A última reforma ortográfica dizimou os acentos. O computador conserta, mas eu redigito o agudo do “o” de “jóia” e “clarabóia”. Não aguento “joía” e “claraboía”. Voo, também, não tem mais circunflexo, virou “voo”. E não se distingue mais “história” de “estória”, uma sutileza que me agradava imenso.

Depois de tanta ignorância confessa, só não peço demissão por medo de redigir a carta.

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