Geologia

21 maio 2012 | 2 comentários

Descobri a poética da geologia em uma visita à Patagônia. Levei na mala A Viagem do Beagle, relato de Charles Darwin dos seus cinco anos de aventura a bordo do navio comandado por Robert FitzRoy. O capitão convidou Darwin para acompanhá-lo por medo de enlouquecer sem um amigo por perto. O motivo pessoal ajudou a fundamentar as descobertas que, mais tarde, revolucionariam a visão da humanidade sobre a evolução da vida no planeta.

Jamais terminei o livro, falha que espero um dia corrigir. A descrição detalhada da paisagem lembra A Terra, o primeiro capítulo de Os Sertões, de Euclides da Cunha, cujas observações sobre a geografia brasileira guardam um caráter tão dramático quanto a terceira parte da obra: A Guerra, dedicada a Canudos. Euclides ignora o fato de não dotarmos o reino animal e o vegetal de uma suposta alma e iguala, em sentimento, a batalha travada por homens, plantas e pedras na dura natureza do Nordeste. Darwin fez escola.

Na minha modesta viagem exploratória ao Chile, me ative aos capítulos sobre a passagem do Bea­gle pela América do Sul meridional. A narrativa de como as enormes planícies argentinas foram criadas lembra um romance épico. A placa submersa, atingida por uma força geológica inimaginável, teria emergido de uma só vez, trazendo para a superfície seres marinhos que, até hoje, descansam no solo dos Pampas.

Ao chegar a Torres del Paine, outro impacto monumental. A coroa de vales e montanhas, grande atração do parque nacional, é uma das mais jovens cadeias do mundo. Acredita-se que um cataclismo súbito tenha elevado o complexo de uma só vez. Imaginar um fenômeno de tal proporção é como arriscar dar forma a um titã.

A geologia é uma ciência exata e ao mesmo tempo mística. É impossível contemplar a grandeza de suas medidas sem ser açoitado pela consciência da pequenez humana. Torres del Paine é uma cadeia adolescente, seus picos ainda não foram corroídos pela erosão. A impetuosa aspereza de suas rochas ainda não foi domada. Elas demonstram uma índole oposta à doçura redonda dos contornos do Pão de Açúcar.

Todo brasileirinho se acalma quando entende que não há terremotos nem furacões no Brasil. Estamos sentados no centro de uma placa tectônica. Somos quentes, úmidos e arredios aos enfrentamentos. Mesmo lidando com a violência diária, o Brasil permanece refratário às revoluções sanguinárias e às guerras com os vizinhos. Tal e qual o chão que pisa.

Pois eu estava envolvida em um texto sobre Minas Gerais e me interessei pela mineração de diamantes. Ignorante absoluta das técnicas de extração, escrevi que um escravo cavava a rocha e fui consultar um amigo geólogo para saber se estava dizendo besteira.

Estava.

Cássio me falou de um mistério inquietante e infinitamente mais interessante do que a minha estupidez poderia criar. Os diamantes surgem em um complexo grupo de rochas chamado kimberlito. Sua fusão ocorre 150 quilômetros abaixo da terra e, na sua jornada até a superfície, o mineral carrega consigo os xenocristais, também fundidos nas profundezas do Hades. Ou seja, o kimberlito não produz diamantes, apenas os arrasta até nós. Todos os diamantes encontrados no Brasil são aluviais, trazidos pela água dos rios. Mesmo com todos os avanços da tecnologia, a fonte de kimberlito que os despejou no Sudeste e Centro-Oeste jamais foi encontrada. Suspeita-se que esteja em uma reserva indígena, no coração da Amazônia, atualmente explorada pelos nativos, em parceria com mineradoras israelenses.Essa mistura de Tupã com Torá, corrida do ouro e mistérios de Minas e essa faceta fantasmagórica dos solitários de noivado reafirmaram minha admiração pelo tema. Não sabemos de onde eles vêm, temos apenas a arte, a luxúria e a ganância de possuí-los.

Um alto funcionário da Vale me disse uma vez que o Brasil está sentado sobre um tesouro de mais de 300 anos de exploração mineral. Ainda somos, e talvez sempre seremos, um país extrativista. A terra que nos fez assim.

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Limite

05 maio 2012 | 6 comentários

Não importa quão bem você faça uma coisa, haverá sempre um garoto asiático de 12 anos fazendo o mesmo, muito melhor do que você.” Meu filho mandou essa máxima da internet no carro, sentado ao meu lado, enquanto eu dirigia. Comecei a rir, olhando para o meu carioca da gema, formado, como a mãe, na melhor cepa das escolas construtivistas da Zona Sul do Rio de Janeiro.
Quando ele nasceu, eu era dona de uma prepotência invejável com relação à sua educação. Desejava que meu guri fosse bilíngue e tivesse uma formação tradicional. Mas a vida conspirou contra os meus anseios. Eu queria me afastar do modelo da minha infância, quando as descobertas de Piaget seduziram a classe média de Ipanema. Cresci durante a ditadura militar, no seio de uma família de artistas, e qualquer cerceamento à liberdade pessoal era visto como autoritarismo.Hoje, creio no contrário, tenho medo justamente da liberdade que desconhece as regras e o sacrifício implícito para o domínio de qualquer virtude. Os pais dos amigos do meu filho se parecem comigo, sempre me senti amparada pelo corpo docente nas crises escolares, mas discordo da condescendência com que as obrigações do estudante são tratadas no ensino mais liberal. Sinto como se a escola tivesse transferido para mim a cobrança.
Servir de carrasca foi o preço que paguei por não ter tido coragem de matriculá-lo em uma instituição severa. Funcionou, ele aprendeu a estudar, mas não foi fácil. Lamento, também, que as línguas estrangeiras estejam em segundo plano no currículo do MEC, mas a ideia de criar alguém distante de sua própria cultura me afastou dos educandários estrangeiros. O ideal parece não existir. E olha que estou falando de uma classe privilegiada.


A deficiência na educação, tanto pública quanto privada, é o grande empecilho para o desenvolvimento do Brasil. A tragédia da exclusão social, a falência da saúde, a truculência policial, as estradas esburacadas, todas as infindáveis mazelas nacionais são forjadas em sala de aula.
Países como a Coreia do Sul saíram do buraco enfurnando suas crianças em internatos por sessenta horas semanais. A Ásia é regida pela harmonia de Confúcio. Lá, o bem-estar comum está acima do desejo do indivíduo.

A noção de sacrifício vem de berço. É um perfil que produz uma mão de obra altamente qualificada, mas também provoca altas taxas de suicídio infantil.
Um amigo, pai de dois filhos de mãe alemã, me explicou que por volta dos 11, 12 anos as crianças da Alemanha são submetidas a provas seletivas. Os resultados definirão se aquele aluno poderá se transformar em um médico, um maestro ou geólogo, ou se será chaveiro, marceneiro ou contador.
Pareceu-me cruel essa definição tão apressada de quem virará doutor e quem permanecerá artesão. “Mas são os melhores chaveiros do mundo”, argumentou meu amigo.
Dificilmente atingiremos a mestria dos adolescentes orientais ou a eficiência dos chaveiros da Germânia. Este é um país de degredados, de filhos sem pai. As crianças imperam, o que eu não acho triste, mas as noções de dever e responsabilidade, muitas vezes, parecem estranhas a nós.
Em 1808, de Laurentino Gomes, sobre a vinda de dom João VI ao Brasil, Joaquim Marrocos, o homem incumbido de trazer a Biblioteca do Rei para o Rio, ficou horrorizado com o país vagabundo e ignorante que conheceu na chegada. Joaquim se casou, se apegou ao escravo, adquiriu outros e teve filhos. “A aversão a esse país [...] é um grande erro, de que há muito me considero despido. [...] Vivo em paz e abundância.” Dez anos depois, Marrocos havia descoberto o encanto e a crueldade da nossa sociedade imberbe.
João Ubaldo Ribeiro teve um pai terrível, que não aguentava conviver com um analfabeto dentro de casa, não interessando o fato de o pobre ter 5 anos de idade. Sob tamanha tensão, o escritor baiano aprendeu sozinho o bê-á-bá e se transformou em um dos homens mais cultos e inteligentes que conheço, mas foi incapaz de criar o filho Bento debaixo do mesmo chicote.
Oito anos depois da primeira experiência, tenho, agora, mais um rebento para matricular na escola. No lugar da prepotência, só ficaram as dúvidas. E bem abrangentes. São Bento ou Sá Pereira? Eis a questão.

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