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Muitos verões e uma pandemia: a quarentena de Roberto Menescal

Entre lives, gravações e entrevistas, o músico, produtor e ex-diretor artístico completa 83 anos com agenda lotada, especialmente durante pandemia

Por Por Felipe Musa* Atualizado em 22 dez 2020, 10h56 - Publicado em 21 dez 2020, 12h57

Isolado em seu refúgio bucólico, repleto de bromélias, na antiga casa projetada pelos irmãos arquitetos Renato e Ricardo Menescal, que destoa no condomínio Pedra de Itaúna, na Zona Oeste, o compositor Roberto Menescal segue uma rotina lotada: gravou dois novos álbuns, fez 50 lives, além de dezenas de entrevistas e outros projetos, somente no período de quarentena.

“A pandemia estourou dois dias antes do lançamento de meu livro. Logo depois a gente embarcaria para o Japão: Carlos Lyra, João Donato, Marquinhos Valle e eu. A gente ia fazer 17 shows e de lá iria para os EUA fazer turnê. Também íamos fazer uma temporada no Village Mall com Wanda Sá. Tudo isso caiu. Mas estou aproveitando. Na hora em que liberar, a gente sai em campo. E, fora isso, estou participando de várias lives. Todo dia tem uma”, conta Menescal, que completou 83 anos em outubro ao lado da mulher, Yara Menescal, cercado de mimos mandados pelos filhos e netos.

Expoente da Bossa Nova, Menescal faz o possível para levar suas músicas e narrativas aos fãs. Além da gravação do EP Faz Parte do Meu Show, com Leila Pinheiro e Rodrigo Santos, e da homenagem japonesa aos 60 anos de O Barquinho e de diversas participações em álbuns como músico, cantor e produtor, a lista de novos projetos é extensa. Na agenda de lançamentos, constam a gravação de quatro álbuns: um com a cantora Sálua, outro com Cris Delano, Luiz Pié e um novo projeto para crianças e pais, a Bandinha Legal, com a artista Tia Gê – que é também nora de Menescal. Para não deixar o público na mão e apoiar os músicos de sua banda, por exemplo, fez uma live solidária, recheada de histórias, que contou com a presença de Leila Pinheiro, Wanda Sá, Fernanda Takai, Patricia Alvi, Cris Delano e Joyce Moreno.

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“A demanda aumentou muito. Pensei que ia arrumar os armários, e fiz isso no primeiro dia. Daí em diante, não mexi mais. Recentemente fizemos o Festival de Montreaux – uma megaprodução toda ensaiada pela internet –, e participei do Brasil Music Trends, em que fui homenageado. Um dia foi o ensaio para o festival, e depois a conferência. No dia seguinte foi o show, e no outro participei do Festival de Cinema Brasileiro de Los Angeles. Quando chegou meu aniversário, pensei que precisava descansar, mas não. A vida não parou, pelo contrário, está mais complicado do que antes. Estou doido que acabe a pandemia” – afirma Menescal, que se ressente da falta da interação com o público ao vivo.

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A esperança da retomada de shows é nítida na fala do músico, que a cada mês recebe um novo prazo para a realização da turnê no Japão, além de planos para o lançamento presencial da biografia Um Arquiteto Musical, escrita pela prima Claudia Menescal. Acumula ainda funções de gestão, como produtor e diretor do selo musical Albatroz, ao lado do filho Márcio Menescal, baixista do Bossacucanova, e como presidente da Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus), de gestão coletiva de direitos autorais.

O compositor mantém uma tranquila e saudável rotina, cercado por animais e bromélias – botânico honorário, Menescal criou uma rara bromélia do gênero Achmea que leva seu nome. A companhia dos cachorros, tartarugas e gato, assim como a prática de exercícios, são sua receita para sobreviver bem à quarentena.

“Eu estou descobrindo o lado bom de ficar em casa. Até agora estou muito bem. Estou aproveitando e fazendo tudo: faço ginástica, ligações de vídeo e cuido das minhas plantas. Não posso jogar futebol, mas continuo com minha bicicleta ergométrica. Certas coisas suprem o afastamento. Sei que tenho algo que poucos têm, mas tenho que agradecer muito. Agora, do abraço eu sinto falta”.

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A simplicidade no modo de vestir e a fala simpática refletem a tônica dos shows, em forma de histórias e apresentações intimistas. Nas lives, as camisas e calças sociais deram lugar a trajes caseiros: blusa lisa, shorts, chinelo e, depois de seis meses em quarentena, até um singelo rabo de cavalo.

Apesar da vontade de voltar a receber netos, noras, enteados e amigos nos almoços de domingo, Menescal afirma que já estava preparado para uma década de grandes mudanças. Em conversas entre consultas a um curandeiro, nos anos 1980, ouviu do bruxo que a década de vinte de qualquer século é sempre época de mudanças intensas que desencadeiam profundas transformações. E seguiu um conselho que norteia sua carreira até hoje, quase 40 anos depois:

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“Eu perguntei a ele o que viria de novo, e ele respondeu: ‘Não tem nada para vir; já veio’. Perguntei: o que eu faço? Ele disse: ‘Não faz; refaz’. Então o certo a se fazer é emendar algumas coisas, amarrar outras, em cima de coisas já feitas. Enquanto não vem a nova onda, você refaz: pega uma coisa dos anos 50, faz de outro jeito e junta com a tecnologia que tem. Isso foi no final do século passado, estou fazendo isso até hoje, e está dando muito certo, mas o mundo vai mudar muito, e isso é cíclico. Se olhar a história do século, todo começo tem uma mudança geral. Há cem anos o jazz estava sendo inventado, assim como o samba, o avião, o rádio, o telefone. E agora vem o 5G, que não quero conhecer”, brinca Menescal.

Seu Jorge: As lives vieram para ficar

Nestes 83 verões vividos, um prêmio Grammy honorário, duas biografias, composições e produções infindáveis, Menescal coleciona um acervo de histórias. Apesar de no passado ter recorrido algumas vezes a cuba libres para tentar falar com seu ídolo, Tom Jobim, é moderado na bebida e, como ele próprio diz, preferia ficar no milk-shake. A saúde que esbanja hoje é atribuída à juventude, quando fazia pesca submarina – modalidade praticada por familiares na qual já se consagrou campeão.

De uma rígida família de engenheiros e arquitetos, teve dificuldade ao iniciar a carreira como músico e chegou a estudar para o vestibular de arquitetura. Seu pai não aceitou a profissão escolhida e cortou a mesada do filho, o que levou Menescal a lecionar violão com Carlos Lyra para juntar dinheiro. Foi durante uma aula no apartamento da família, em Copacabana, no prédio construído pelo tio Humberto – a Galeria Menescal –, que Tom Jobim bateu à porta e o convidou a participar da trilha sonora do filme Orfeu Negro, em 1958.

Um ano antes, durante uma festa no mesmo apartamento, João Gilberto apresentou suas primeiras músicas para Menescal – que foi instantaneamente conquistado pelas batidas de violão.

Homem idoso vestido uma camisa florida e tocando violão
O compositor com o inseparável violão, e seu boneco Acervo pessoal/Divulgação

“Era o dia das bodas de prata de meus pais. Eu estava de terno e gravata, abrindo a porta para as pessoas – sempre fui porteiro da casa. Aí tocou a campainha, e era um cara em mangas de camisa, que falou assim: “Você tem um violão aí? E tem um lugar para a gente tocar?”. Eu nem sabia quem era o cara. Levei ele para o quarto, e ele começou a tocar cantando: “Bim, bom, bim, bom”. Então perguntei: “Você é João Gilberto?”. Aí tirei a gravata, peguei o violão, o paletó e me mandei com ele. Cheguei em casa dez dias depois!”, lembra Menescal.

Mesmo com músicas nas rádios, participação em trilhas sonoras e a explosão da Bossa Nova, Roberto Menescal ainda não tinha despontado como artista e havia recusado um convite para tocar no Carnegie Hall, em Nova York, ao lado de amigos e grandes nomes da música brasileira. Foi preciso o maestro Tom Jobim convencê-lo não só a trocar a deserta praia de Cabo Frio pelo gélido outono nova iorquino, como também a estrear como cantor para uma plateia de 3 mil pessoas, entre elas Tony Bennett, Miles Davis e o The Modern Jazz Quartet – que havia recebido os brasileiros no aeroporto de Nova York, em 1962.

Afável e sorridente, Menescal admite certo incômodo ao lembrar da postura intransigente do pai – que pediu aos filhos arquitetos para cuidarem do irmão músico, que poderia morrer de fome. “De repente hoje ele falaria assim: “Beto, cuida dos seus irmãos que foram ser arquitetos, coitados, né? Não deixa eles morrerem de fome”, imagina.

Varanda com plantas e flores
O quintal onde o músico e botânico honorário cuida de bromélias Acervo pessoal/Divulgação

Ao afirmar não sentir falta do passado, “mas sim saudade do futuro”, o músico está convicto de que não só a indústria fonográfica vai sofrer grandes mudanças, mas o mundo como um todo:

“Eu estou chegando a conclusões que parecem tristes, mas para mim não é. Eu parei para pensar que essa música que está aí acabou. A gente pode refazer, tocar, mas acabou, sabe? Quando ouvi Eu Preciso Aprender a Ser Só, do Marcos Valle, anos atrás, eu me joguei no chão por causa dela. Aí ele me apresentou uma música tão boa quanto, e minha reação foi falar somente “que musicão”. É linda, mas ele já fez essas coisas e eu já fiz essas coisas, então você está vivendo do passado, sabendo que certamente tem algo novo chegando. Há cem anos colocou-se som à imagem, hoje está se colocando imagem ao som, então talvez a nova onda seja a música sempre com imagem. Anitta faz isso: todo mês lança um clipe com a música, e vai acontecendo. Aquele negócio de lançar 12 músicas está acabando. Nada será como antes”.

Tive o privilégio de participar das aulas de Lula Branco Martins na PUC-Rio. Desde então, é impossível dissociar a Vejinha de Lula. Gostaria de dedicar esta matéria em sua homenagem.

* Felipe Musa, estudante de jornalismo da PUC-Rio, sob orientação da professora Itala Maduell e revisão final de VEJA Rio.

 

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