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Skincare e meio ambiente? Esses dois temas se esbarram – e muito

Tendência de cosméticos naturais não exclui cuidados tradicionais, alertam os médicos

Por Jeane Moraes, Maria Eduarda Severiano e Renata Marins Atualizado em 3 dez 2020, 13h07 - Publicado em 3 dez 2020, 11h35

A chegada dos dias mais quentes e o aumento da exposição sol impulsiona o consumo de protetores. Assim exige a saúde da pele. Especialistas alertam, no entanto, que o excesso de cosméticos aumenta o risco da chamada “poluição invisível”: substâncias não absorvidas pela pele acabam poluindo a água das grandes cidades. A consciência ambiental tem alimentado o crescimento de protetores solares naturais.

Esses produtos tendem a ser bem absorvidos pelo corpo, observa a farmacêutica e cosmetóloga Camilla Moraes, da Faculdade Oswaldo Cruz. A composição química dos cosméticos naturais alinha-se à composição química da pele, produzindo, em geral, “um melhor entendimento”.

A conjugação entre o tipo de pele e o tipo de protetor é um dos cuidados importantes para preservar a saúde e o meio ambiente, orientam dermatologistas. Há protetores específicos para cada categoria de pele (normal, oleosa, seca, mista). Orientações médicas e exames ajudam essa harmonização. O cuidado integra o conjunto crescente de comportamentos e produtos voltados ao casamento entre a proteção dermatológica e a proteção ambiental.

 

Para a atriz Estela Silva, articuladora ambiental da ONG Engajamundo, esse alinhamento deveria ser quase instintivo, pois, relembra ela, “seres humanos são parte da natureza”. A empresária Marcela Tronco embarcara na tendência antes de criar a marca Bio Despertar. Há muito ela faz da cosmetologia natural um estilo de vida, estendido à sua filha. O primeiro contato veio com a busca de alternativas para a pele sensível. “Eu e minha filha temos a pele muito sensível. Os produtos industrializados nos davam alergia e irritação. A gente se entendeu melhor com os naturais. Antes de adotar o novo costume, alguns produtos deixavam o rosto seco num primeiro momento e, depois, causavam um efeito rebote, ou seja, produziam mais oleosidade que antes”, explica.

A compatibilidade entre pele e cosméticos, inclusive protetores solares, é fundamental para prevenir alergias, irritações e outros efeitos colaterais danosos. A orientação médica revela-se imprescindível a esse cuidado.

Outro cuidado importante é dosar a exposição solar, sobretudo em cidades como Rio, cuja atmosfera climática e cultural estimulam programas ao sol. A dermatologista Patrícia Silveira observa que pessoas com pele suscetível a alergias se identificam mais com o clima quente e úmido da capital fluminense.

Cosméticos naturais
Cosméticos naturais Acervo pessoal/Divulgação

Para o climatologista Francisco Eliseu Aquino, diretor do Centro Polar e Climático da UFRGS, a constante brisa carioca também pode fazer. Ele alerta, no entanto, para necessidade da proteção adequada à alta radiação solar também constante ao longo do ano. Mais intensa e nociva das 10h às 16h, pode provocar o envelhecimento precoce e diversos problemas de saúde, inclusive o tumor de pele, tipo de câncer mais comum.

O uso de protetor adequado, mesmo em dias nublados, é a principal forma de prevenir o câncer de pele. Ele responde por 33% dos diagnósticos desta doença no Brasil, aponta o Instituto Nacional do Câncer.

Patrícia é categórica: fora o risco maior de câncer, quem não se protege dos raios solares e descuida da saúde da pele tem mais chance de ficar com manchas e acne. A também dermatologista Luiza Archer acrescenta que a radiação solar tende ainda a tornar a pele mais oleosa, com os polos dilatados.

Para a especialista, os protetores físicos mostram-se preferíveis porque criam uma barreira sobre a pele a partir de substâncias como óxido de zinco e dióxido de titânio. Além disso, acrescenta Luiza, o protetor solar químico contribui para o chamado “branqueamento de corais”: “Nestes casos, os banhistas, ao entrarem na água, liberam compostos prejudiciais para a vida aquática. Ou seja, os corais absorvemas substâncias químicas e morram, expondo seus esqueletos brancos. Esse dano desequilibra o ecossistema”.

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Segundo o site Fast Company, um estudo europeu apontou que se acumulam nos recifes de corais, a cada ano, de 4 mil a 6 mil toneladas de filtro solar. No Havaí já foi aprovada uma lei que proíbe a venda de protetores solares nocivos à vida marinha.

Segundo a cosmetóloga Camilla Moraes, estudos científicos apontam que o uso de protetores químicos ainda desperta o risco de mulheres desenvolverem endometriose (quando o tecido uterino cresce para fora do útero). A possibilidade está associada, explica ela, a ingredientes com efeito similar ao estrogênio (hormônio sexual feminino). A atriz e modelo Maria Smigay tem uma doença autoimune na pele que a mantinha longe do sol. A necessidade de síntese de vitamina D e a adaptação a protetores físicos a levam hoje a uma a exposição regular e moderada.

A compatibilidade entre o protetor e o tipo de pele, reitera Luiza Archer, é fundamental para eficiência e a segurança nos cuidados para manter a pele resguardadas dos efeitos nocivos do sol. Daí a importância da consulta ao dermatologista, que indica o produto natural mais recomendável para cada caso. (No Rio, a pele oleosa é o tipo predominante.)

Em meio ao fantasma contemporâneo da desinformação, a ambientalista Estela Silva reforça que o conhecimento e as informações precisas devem nortear também os cuidados preventivos e protetivos com a saúde da pele. Cuidados cada vez mais influenciados por preocupações ecológicas. “Não sabemos em que escala está essa consciência (ambiental). Acredito que é um movimento mundial, porque estamos começando a bater nos limites planetários. Fico feliz por isso”, falou Estela.

Para a estudante de Comunicação Luiza Arruda, dona do blog Limão Mascavo, o uso de cosméticos naturais não é uma questão estética, mas política e social. Ela pondera que se trata de uma preferência, não de uma exclusão: “Nunca houve ‘vou substituir completamente os processados pelos naturais’. O que houve foi “sempre que eu tiver condições de escolha, irei preferenciar os naturais”.

Camilla Moraes
A cosmetóloga Camila Moraes Acervo pessoal/Divulgação

Luiza acredita que o conhecimento dos meios de produção, uma vez alinhados à preservação ambiental, favorece o consumo de cosméticos naturais Arruda. Para Maria Smigay, a defesa do meio ambiente estreita os laços entre consumidores e pequenos produtores. “Pequenos produtores levam em consideração o estilo de vida adotado por seus clientes, que é ligado à preservação ambiental. Há um ganho de sustentabilidade”, afirma.

O uso de produtos condizentes às práticas sustentáveis e adequados a cada pele conjuga-se à exposição moderada aos raios solares como hábito primordial à saúde da pele e do meio ambiente. Não menos importante, ressalta Camilla, é uma boa hidratação. Beber muita água faz bem à pele e a todo o corpo.

Conhecer a própria pele é outra recomendação elementar. Como a pele do carioca tende ser mais oleosa, dermatologistas indicam, nesse caso, produtos de limpeza facial e protetores adequados para o equilíbrio da oleosidade.

Patrícia recomenda também a aplicação semanal de argilas faciais. “São ótimas para o clima do Rio, pois têm ação secativa e controla a oleosidade”, justifica a dermatologista. Evitar as exposição nos horários de pico do sol, entre 10h e 16h; e optar por chapéus, viseiras e barracas com proteção UV também são hábitos naturais necessários à saúde da pele. Um cuidado que, conforme enfatizam especialistas, extrapola a estética, pois a pele é o órgão responsável por manter o controle da temperatura corpórea, além de sintetizar vitamina D e ser uma barreira contra os microrganismos.

 

 

 

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