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Balanço e aprendizados dos museus cariocas na pandemia

Pesquisa divulgada no fim de junho aponta que 40% das organizações ligadas às áreas culturais e criativas afirmaram que a perda de receita foi de 50% a 100%

Por Adriano Monteiro e Caroline Névoa* Atualizado em 12 jan 2021, 11h58 - Publicado em 12 jan 2021, 11h00

A primavera de 2020 trouxe, além das flores, a reabertura dos espaços culturais cariocas. Em março, com a chegada do novo coronavírus ao Brasil, o então prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, implementou uma série de medidas de restrição para conter a doença, dentre estas, o cancelamento de eventos com aglomeração e a suspensão das atividades de museus, teatros e cinemas. O primeiro a fechar e, provavelmente, um dos últimos a reabrir, o setor cultural e seus trabalhadores viveram dias difíceis nos meses iniciais da pandemia. Segundo a pesquisa Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Culturais e Criativos do Brasil, divulgada no final de junho, 40% das organizações ligadas às duas áreas afirmaram que a perda de receita foi de 50% a 100%.

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Com as portas fechadas, muitos equipamentos culturais públicos e privados migraram para o meio digital para manter suas atividades e a proximidade com o público. Roberta Guimarães, diretora-executiva do Museu do Amanhã, conta que os primeiros meses da pandemia foram difíceis. Sem repasse de verbas da prefeitura, o museu se mantém a base dos valores de bilheteria, eventos e patrocínios. O lucro dos ingressos de visitação e dos eventos realizados passou a ser inexistente com o fechamento do espaço, na Praça Mauá, centro do Rio. Para se ajustar à realidade financeira, Roberta explica que foram necessários cortes de gastos, redução da equipe e adaptação à programação online.

– Foi muito difícil e foi muito trabalho. Não tinha atividade presencial, mas continuamos com uma programação grande online. A equipe trabalhou e está trabalhando bastante, até por conta da redução de pessoal. O resumo é isso: dificuldade de tocar um equipamento como esse sem novas receitas.

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O Museu do Amanhã reabriu as portas para o público no início de setembro, porém com algumas mudanças. Segundo Roberta, a venda dos ingressos passou a ser estritamente online, o uso de máscaras é obrigatório, há equipes dedicadas apenas para a limpeza do espaço e dos equipamentos, em especial os de touch, e a capacidade máxima de frequentadores é de 300 pessoas, um terço do número pré-pandemia. A diretora-executiva reforça que a equipe se prepara há meses para a reabertura do espaço, e que o momento exigiu, além de paciência, estudo e dedicação.

– Todo nosso modelo de segurança foi pensado no visitante. Começamos a nos preparar para a reabertura no final de maio. Para isso, estudamos todos os protocolos, os da prefeitura e, também, os que foram adotados por outros museus e equipamentos culturais internacionalmente – afirma Roberta, que acredita que a vida do museu é o público, e a relação entre ambos é primordial.

O Museu Casa do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, também transferiu suas atividades para os espaços virtuais. Angela Mascelani, diretora-curadora do museu, afirma que as atividades foram intensificadas durante o período de suspensão do funcionamento presencial. Ela ressalta que os funcionários se engajaram em prol da reinvenção que o momento exigia, e que diversos setores se uniram para pensar estratégias alternativas para consolidar e fortalecer vínculos. A diretora-curadora relata que a equipe do Museu Casa do Pontal já estava familiarizada com diferentes formas de se comunicar com os visitantes desde o ano passado, quando foi criada uma rede de apoiadores do espaço cultural.

– Essa experiência de dialogar de maneira ampla nos deu ferramentas e experiência para entender esse momento – de limitação – como também um momento de aprofundamento de relações. Criamos diálogos com artistas em várias partes do Brasil, oferecemos suporte a iniciativas solidárias, voltadas para a geração de recursos para os artistas populares e ampliamos nossos diálogos em muitas direções.

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Em novembro, a tradicional sede do Museu Casa do Pontal, no Recreio, se despediu do público com a exposição “Até logo, até já”, que contou com grande parte do acervo. A diretora-curadora Angela Mascelani afirmou que a exposição final foi bem recebida pelo público, que, com todos os cuidados e medidas de segurança necessários, despediu-se do local que abrigou a instituição por mais de 40 anos. Agora, o museu e suas obras estão de mudança para um novo espaço, na Barra da Tijuca, próximo à Cidade das Artes.

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Atriz e roteirista relata dificuldade de adaptar peça para o virtual

A pandemia afetou de forma incisiva o setor artístico como um todo, e além de inviabilizar atividades presenciais nos espaços culturais, modificou completamente a vida dos profissionais e artistas da área. Cláudia Ventura, atriz e roteirista, conta que o seu mais novo espetáculo “A Hora da Estrela ou o Canto de Macabéa” teve sua temporada interrompida pelas medidas de isolamento. Com estreia no dia 5 de março no CCBB Rio, a peça teve algumas exibições antes da suspensão da agenda no dia 13, sexta-feira. Cláudia diz que a expectativa criada em cima da produção foi completamente apagada pela interrupção das apresentações, que seriam um salto profissional em sua carreira. A atriz ainda pontuou a dificuldade de passagem de um espetáculo presencial para o meio digital, recurso constante na pandemia:

– Esse espetáculo (A Hora da Estrela) foi interrompido. A gente ainda não conseguiu criar uma forma de ele acontecer de uma maneira virtual. O espetáculo lida muito com a ideia de espaço confinado da Macabéa. O primeiro terço do espetáculo acontece muito embaixo de três mesas pequenas, ficamos ali completamente claustrofóbicos. Então como é que você dá essa sensação para o espectador. Eu acho que, por muita coisa, este espetáculo ainda não foi modificado para esses tempos virtuais.

Ainda assim, Cláudia Ventura se diz otimista com a retomada das atividades. O CCBB Rio, local das apresentações de sua peça, já está retomando alguns espetáculos e atividades com novos protocolos. Entretanto, pelo setor cultural não ser visto como essencial para a retomada, ela diz haver um longo percurso pela frente:

– Há a ideia, claro, de que o teatro não é um gênero de primeira necessidade, então a gente esbarra também nisso. O bar vem antes. Então acho que a questão ainda é de ter público. Isso é ainda um desafio.

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Outra discussão levantada pela atriz foi a falta de apoio às pessoas envolvidas na produção cultural, como técnicos e iluminadores. Artistas que trabalham diretamente com produção, conseguiram continuar na profissão de alguma forma remota. Já as pessoas envolvidas diretamente com os espaços culturais e com a montagem e execução de atividades não tiveram como continuar, afirma a atriz.

– Eu acho que a maior questão foi de fato a sobrevivência. E quando eu falo da classe, eu acho que a gente tem que chamar a atenção especialmente para os técnicos. Eu consegui produzir um curta e me inscrever em editais. Mas, e a camareira do espetáculo? E os técnicos de som e de luz? Como é que você se vira nesse momento? Eu acho que o grande gargalo foi a demora na votação da lei Aldir Blanc, e na execução dessa lei pelos municípios e estados.

Por fim, a atriz afirmou que o momento atual não é de reinvenção do teatro, mas das possibilidade de se fazer audiovisual, um modelo de experimentação. A peça “A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa” teve uma transmissão virtual no dia 20 de dezembro. A gravação foi realizada diretamente do palco do CCBB Rio e foi a única transmissão do espetáculo até o seu retorno aos palcos de forma presencial.

Adriano Monteiro e Caroline Névoa*, estudantes de comunicação, sob supervisão dos professores da universidade e revisão de Veja Rio

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