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Marcelo D2 faz shows de reabertura do Circo Voador

Artista falou a VEJA RIO sobre a ansiedade pelo reencontro com o público, a situação do país e o ódio que recebe por manifestar suas posições políticas

Por Kamille Viola Atualizado em 21 out 2021, 13h00 - Publicado em 20 out 2021, 22h20

Conhecido de longa data do Circo Voador — ele subiu no palco do lugar pela primeira vez em 1991 —, Marcelo D2 reabre a programação da mítica casa da Lapa, com apresentações nesta quinta (21), sexta (22) e sábado (23). O período foi de jejum também para o próprio artista, que não só ainda não fez nenhum show como também não viu. Em agosto, ele foi pai pela quinta vez: nasceu Maria Isabel, a primeira filha de seu casamento com a produtora Luiza Machado.

Em entrevista a VEJA RIO, ele falou sobre temas como a ansiedade pelo reencontro com o público, o desejo de sair do Rio de Janeiro, a atual situação do país, o ódio que recebe por manifestar suas posições políticas nas redes e a experiência de ser pai pela quinta vez aos 53 anos.

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Como você está se sentindo com esse retorno? Ansioso, nervoso?

Eu me sinto muito abençoado por estar nessa posição de ser o cara que vai reabrir o Circo, sabe? Eu acho que subi a primeira vez no palco do Circo em 91, cantei com o DeFalla, 92 a gente já tava com o Planet Hemp lá no Circo. Pô, cara, são 30 anos. Ali é minha casa. Quando eu era moleque, todo mundo sonhava em tocar no Canecão. Meu sonho era tocar no Circo Voador, tá ligado? Eu tô ansioso com esse encontro de tanta gente na frente, eu nem sei mais como é que é isso. Acho que vou chorar pra caralho, não vai ter jeito. Pra todo mundo que tá passando por essa pandemia, tem sido difícil pra caramba. Pra gente, que tem contato com o público, eu nem sei mais como é que esse sentimento de chegar e ter uma multidão na frente gritando e cantando, aquela energia toda que já estava ficando comum na minha vida, 28 anos fazendo isso, e agora tô há quase dois anos sem. E ser no Circo é mais do que especial, talvez seja o lugar onde eu mais amo tocar no mundo.

E ver algum show, você já foi?

Não, a primeira vez. Eu não fiz nada. Tô com bebezinho em casa (Maria Isabel nasceu em 3 de agosto). Eu não tenho saído, não cheguei a ir a lugar nenhum. Vai ser minha primeira experiência coletiva, pra várias pessoas da minha banda também. E a gente tá falando muito sobre isso, de fazer desses shows da volta do Circo uma experiência coletiva. É uma banda enorme, do jeito que eu não tinha há muito tempo, são dez pessoas no palco, contando comigo.

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Você fez dois discos nessa pandemia, de uma forma diferente, transmitindo o processo ao vivo pela internet. Como se sentiu fazendo disco dessa forma? E quando sai o Assim tocam os meus tambores volume 2?

Acho que vai sair em dezembro, eu tô nos finalmentes. Eu acho que nunca fiz um disco igual a outro, foi mais uma maneira de fazer disco, sabe? O Amar é para os fortes (2018) eu fiz bem sozinho, na rua. Eu tinha um pendrive de 65GB que eu botava no bolso e eu tinha o disco todo dentro dele. E Assim tocam os meus tambores foi o disco mais colaborativo que eu já tive na minha vida, dentro do isolamento social (risos). Esse novo agora é um pouco diferente, porque eu tô indo numa busca de uma ancestralidade e tal. Mas acho que isso só deixou mais claro na minha cabeça que não tem uma maneira de fazer disco. Eu tava falando agora com o (rapper) Don L, que lançou uma música que se chama Na batida da procura perfeita. Eu tava falando com ele que a procura vale mais do que a batida. Pra mim, ainda é a procura o grande lance.

O Planet Hemp vai fazer shows em dezembro, na Fundição Progresso. Vocês tiveram um disco interrompido pela pandemia, né? Como está isso? 

A gente vai tentar lançar duas musiquinhas até o show, para ter duas inéditas. Tem uma com a participação do Criolo e da Clarice Falcão, a gente tem algumas prontas já. Foi legal, a gente teve um encontro semana passada, o Bernardo (BNegão) foi gravar no meu disco, e aí foi mó encontro legal. Tem sido estranho, ao mesmo tempo, bem louco, reencontrar as pessoas depois de tanto tempo isolado e ver que tá todo mundo vivo. Você sente que aquela depressão tá passando. Tá acabando o mandato do Bolsonaro também (risos), então a coisa começa a voltar ao normal.

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Você andou falando que estava a fim de ir embora do Rio e do Brasil. Você é um artista muito identificado com a cidade, a gente associa ela a você e vice-versa. Ainda pensa em sair?

Cara, eu acho que nunca vou sair do Rio de vez. Mas eu ainda tenho vontade de passar um tempo fora, projetos para fazer ano que vem em Nova York. Ano que vem acho que não vai ser um bom ano para se estar no Brasil, não, acho que o país vai pegar fogo. Mas, ao mesmo tempo, a gente quer lançar o disco do Planet Hemp. Não tá dando pra planejar muita coisa, a gente não sabe como vai ser o fim de semana que vem, enquanto tem gente catando comida no lixo… Ao mesmo tempo, eu percebi o quanto isso é um trabalho para mim, fazer música. Trabalho em todos os sentidos, não só como ofício, mas como cidadania. E o Planet Hemp pode ser importante nisso aí, sacudir, as minhas letras, as do Bernardo, as do Black Alien. Eu queria muito. Pô, tô ficando velho nessa luta. É muito triste ver o Brasil do jeito que tá agora, achei que não ia ver isso de novo, fome, banalização da violência e do ódio, mó sinistro.

Ao mesmo tempo você é um cara que joga as suas opiniões nas redes, recebe ódio… Como aprendeu a lidar com isso?

A gente não aprende, né? Por mais que a gente fale que não liga, quando alguém deseja a morte do meu filho não é uma coisa que entra num ouvido e sai no outro. Eu nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, numa favela, tô acostumado com essa vontade que eu morra desde que eu nasci. Mas porra, depois de 40 anos, 50 anos ouvindo isso, “tomara que tu morra, tomara que tu morra, tomara que tu morra”, cansa. Essa é minha vontade de me afastar, desse lugar de ter essa agressividade tão grande. E não é porque eu sou o Marcelo D2. Eu tô falando isso pra você porque eu sou o Marcelo D2, mas, se você pegar 70% da população da cidade do Rio, tá na mesma situação. Aí não é no Twitter, é no Uber, é quando quer entrar num prédio, quando entra num supermercado, e é confundido, e é morto por um segurança, quando tá na rua e é abordado pela polícia… Isso cansa pra caralho. Sei lá, acho que ir para um outro lugar vai me dar um alívio. Ou então ir para o meio do mato. Mas cara, eu não consigo sair do Rio de Janeiro, parece que tem um ímã me prendendo aqui nessa porra.

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Tipo um feitiço, né?

É. Tipo, não, acho que é um feitiço. Toda vez que eu tô pronto, parece que acontece alguma coisa. Agora, antes da pandemia, eu tava pronto para sair, cara. Aí pandemia.

Você já é avô e foi pai em agosto. Como está sendo viver esse momento agora?

Ah, muito bom, porque, de uma certa maneira, quando eu fui pai dos outros meninos, eu era muito novo, principalmente do Stephan (nascido em 1991, quando D2 tinha 24 anos). Eu tô curtindo mais essa onda de ter um neném em casa, tá sendo bom pra caramba. A Bebel, a Maria Isabel é uma menina de luz mesmo, incrível. Trouxe um momento diferente para a nossa casa. 

Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº, Lapa. Qui. (21), 19h30 (abertura dos portões). Sex. (22) e sáb. (23), às 22h (abertura dos portões). R$ 90,00 (meia solidária) e R$ 180,00.

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