O Rio à mesa: quem são os cariocas que levam seu tempero a Portugal
Com botecos, cozinhas autorais e restaurantes consagrados, a gastronomia da cidade amplia sua presença em Portugal
O papo se estica e vem à mesa mais uma rodada de bebida. Ninguém ali tem pressa de ir para casa. Poderia ser mais um daqueles festivos fins de tarde no Baixo Gávea, mas a cena se desenrola em Cascais, a quarenta minutos de Lisboa, na varanda do Guimas, o clássico carioca que cruzou o Atlântico levando para a terrinha o jeito descontraído de receber.
A história começou no fim de 2018, quando Domingas Mascarenhas, filha e sócia dos fundadores do restaurante, embarcou para Portugal. Queria experimentar a vida por lá e ver como as crianças se adaptavam. A pandemia prolongou a pausa e, quando tomou a decisão de fixar endereço, o caminho pareceu natural — ela e o marido, Marcelo Azeredo, apostaram no que já sabiam fazer.
Aberto há três anos, o Guimas Cascais tem decoração e cardápio praticamente idênticos ao original: picadinho, filé boursin e os famosos pastéis são consumidos sob bandeiras bordadas espalhadas pelo teto. Nas paredes, desenhos de clientes feitos com giz de cera nas inconfundíveis toalhas de papel. Durante a visita de VEJA RIO, três crianças entraram no salão e um menino de cerca de 10 anos exibiu aos amigos “tugas” sua obra de arte, o peito estufado de orgulho. “As pessoas chamam de portal, de embaixada. Entram aqui e se sentem no Rio”, conta Domingas.
A travessia de negócios cariocas rumo ao solo luso vem ganhando corpo — e prestígio. De restaurantes que exportam o modo descontraído do Rio a casas que investem em novas combinações, empreendedores conquistam seu lugar às margens do Rio Tejo.
Ao levar seu italiano de Botafogo para Cascais, o chef e fundador do Sult, Nelson Soares, preservou as raízes da casa, mas conferiu ao menu outro sotaque. “A pegada aqui é ítalo-lusitana, mas com nossos vinhos naturais de pano de fundo”, explica.
Apenas duas pedidas fizeram a ponte entre o Rio e o animado balneário: a entrada de cogumelos com queijo pecorino e a lasanha à bolonhesa, best-seller em ambos os países. As demais receitas enveredam por outras trilhas, como o arancini de alheira com queijo de Azeitão e o pappardelle com ragu de porco preto. “Faltavam bons italianos na região, oferecer uma proposta diferente foi decisivo”, avalia o dono.
Não demorou, e o Sult se tornou a primeira casa brasileira indicada pelo Guia Michelin em dois países. Em Portugal, ainda figura no Repsol, outra referência na seleção de boa cozinha na Península Ibérica.
Assim como no Guimas, a clientela do Sult se divide entre brasileiros, portugueses e turistas, o que confirma que a geração de cariocas extrapola fronteiras, agraciando paladares diversos. “Quando cheguei, há mais de vinte anos, a presença de chefs brasileiros na alta gastronomia e na culinária contemporânea era exceção. Hoje, existe uma comunidade fortíssima, extremamente talentosa e respeitada”, celebra o sushiman (carioca) Lucas Azevedo, à frente do Ryoshi e do Enso, em Lisboa.
E não é a única fórmula que explica o sucesso além-mar. Existem no rol dos que ali se aventuram a turma que exporta para a Europa a descontração dos botecos cariocas e outros que incorporam brasilidade a uma cozinha mais autoral, de inspiração internacional. Nascido no Rio e criado em Portugal, Kiko Martins inaugurou seu primeiro restaurante no circuito lisboeta, O Talho, em 2013. Passou depois por outros endereços, mas a origem brasileira manteve lugar à mesa — em 2019, ele inaugurou O Boteco, com pastéis, espetinhos e farofa.
No Cícero, o toque verde-amarelo se manifesta, desde 2024, na criativa cozinha assinada por Alessandra Montagne, carioca do Vidigal que pavimentou uma trajetória de sucesso em Paris. Entre obras que dão uma amostra da arte brasileira, com destaque para telas de Cícero Dias (1907-2003), que batiza o restaurante, a técnica francesa mescla ingredientes made in Brazil a memórias de infância.
É assim que o frango com quiabo vira um tartare de lingueirão, molusco apreciado na Europa, com glacê da ave, pele crocante e a planta em texturas variadas. “Minha cozinha é brasileira, mas também tem tudo aquilo que aprendi vivendo e trabalhando fora do Brasil”, resume Alessandra.
São muitas as histórias de vida que embalam a decisão de empreender do lado de lá do Atlântico. Para Camila Martins, à frente do bistrô Magnolia e do bar de vinhos Calma, próximos à Praça das Flores, em Lisboa, a mudança começou com uma separação, em 2018. “A ideia era ir para São Paulo e trabalhar na confeitaria do Fasano, mas acabei ficando lá só quarenta dias”, lembra. Ao saber que uma amiga iria chefiar um restaurante na capital portuguesa, se ofereceu para acompanhá-la.
Adaptada ao ritmo menos acelerado, hoje não pensa em voltar. O tópico da segurança em geral aparece nos relatos desses migrantes da boa mesa. Para quem trabalha até tarde, poder baixar as portas e seguir para casa sem sobressaltos tem um valor que escapa à matemática das planilhas. Marcelo Azeredo lembra uma noite em que trancava o Guimas já com a rua vazia. Olhou para Domingas e comentou: “Isso não tem preço”. Referia-se à liberdade de poder encerrar o expediente mais tarde sem a necessidade de contratar segurança extra.
Ter mais tempo para viver fora da cozinha também pesa na decisão de cruzar mares. Enquanto o Brasil acaba de promulgar a emenda que implanta gradualmente a escala 5×2, profissionais instalados em Portugal já se habituaram há tempos à pausa na rotina. “Uma das grandes razões que me fizeram ficar foi a oportunidade de trabalhar cinco dias por semana. Ter um a mais para descansar faz toda a diferença na vida de um cozinheiro”, diz Ângelo Lellis, à frente da tasca Cerqueira, no bairro da Pena, em Lisboa. Camila Martins, do Magnolia e do Calma, reconhece o contraste com o dia a dia no Rio. “No meu único dia de folga, eu só conseguia ficar deitada”, lembra. Hoje, no Calma, parte da equipe trabalha quatro dias por semana.
Além da segurança, Mário de Andrade Netto, o Mário Maluco, que levou o Palaphita para Cascais, destaca a previsibilidade financeira e o cumprimento das regras, “sem depender do jeitinho brasileiro”. Desde que se mudou, em 2018, o empresário não voltou ao Brasil e diz não sentir falta. “Aqui dá para fazer muito mais dinheiro. Em menos de uma década, estou construindo propriedades que nem em 200 anos no Brasil conseguiria”, fala. “Sem contar que hoje passo as férias em Mônaco.”
Recrutar profissionais para a cozinha e o salão, por outro lado, figura entre os grandes desafios, assim como a adaptação às normas trabalhistas locais. Segundo empresários ouvidos pela reportagem, as restrições à demissão após um ano de casa dificultam a gestão das equipes e incentivam a não renovação de contratos antes de tal prazo — uma proteção que, na avaliação deles, acaba prejudicando os próprios trabalhadores.
Vencido o cipoal burocrático, os estabelecimentos brasileiros na terrinha são palco de altos encontros. Carioca do Flamengo, o sommelier Marcello Sales, do restaurante paulistano Cantaloup, instalado há seis meses no coração do bairro do Chiado, conta que nunca trabalhou com tantos cariocas quanto em Lisboa, mesmo após uma década no grupo BestFork, onde passou por Giuseppe Grill e Xian.
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A busca por bons quadros ocorre em um cenário de maiores restrições migratórias: em 2024, Portugal extinguiu a “manifestação de interesse”, caminho para a regularização via trabalho sem visto de residência, e, em 2025, restringiu o visto na seara dos empregos qualificados. “Quem vem para Portugal ainda encontra emprego com facilidade na área de prestação de serviço, mas tem que trabalhar duro para ter chance de crescer”, diz Mário Maluco.
Antes de fazer as malas, é mandatório colocar o sonho na ponta do lápis. Em Portugal, o serviço Empresa na Hora permite constituir uma sociedade por 360 euros (pouco mais de 2 000 reais). Só que o ponto, a obra, equipamentos e a reserva para os primeiros meses entram em uma conta à parte. “Abrir um negócio é fácil e rápido. Difícil é mantê-lo”, alerta Camila, do Magnolia e do Calma. Ela também lembra que cumprir as obrigações fiscais exige mais atenção do que simplesmente pagar boleto, e qualquer erro pode sair caro. Atrasos nas declarações e falhas na apuração ou no repasse dos valores rendem vultosas multas, as chamadas coimas.
A compra da passagem e o registro da empresa são, portanto, apenas o começo de uma jornada que exige conhecer o mercado, formar equipe e ter fôlego para ajustar a operação após a euforia da alta temporada. A língua em comum facilita a conversa, claro, mas não dispensa o aprendizado de hábitos, regras e cultura. Para quem se lança na aventura, a recompensa pode vir tanto nas mesas cheias quanto na possibilidade de, a certa hora, baixar as portas após o expediente e ter tempo para aproveitar a vida do lado de fora. E ela é repleta de opções, ora pois.
TRÊS SÉCULOS À MESA
A gastronomia carioca herdou bem mais do que receitas portuguesas

O vaivém de sabores entre as duas margens do Atlântico deixou marcas que o carioca reconhece sem precisar de passaporte. Em 1808, a chegada da corte portuguesa e a abertura dos portos ampliaram a circulação de ingredientes, cozinheiros e hábitos europeus, sobretudo entre as elites.
Essa influência, reforçada por sucessivas gerações de imigrantes, ultrapassou os salões: está no bolinho de bacalhau que acompanha o chope no boteco, nos rissoles de camarão e nos croquetes das vitrines de salgados — preparos também habituais nos cafés portugueses. Aparece ainda nas sardinhas fritas, nas conservas e nos pastéis de nata, que ganharam endereços próprios em terras cariocas.
Agora, as casas ligadas ao Rio fazem a travessia inversa, levando receitas e a maneira descontraída de receber. Açaí, picanha e caipirinha já fazem parte do repertório lusitano, inclusive. Ainda neste mês, Kátia Barbosa vai cozinhar com José Avillez, um dos cozinheiros mais renomados de Portugal, levando sua feijoada para o centro da mesa do Páteo, no complexo gastronômico do chef no bairro Chiado.
DO TIPO EXPORTAÇÃO
Bares, padarias e restaurantes de DNA carioca em Portugal
BIKE BAKERY. O pão que Luiz André Alvim produzia e entregava de bicicleta no Rio ganhou endereço fixo na Bica, em Lisboa. Além do carro-chefe, doces e salgados têm toque brasileiro, como o cumaru usado no caramelo do cinnamon roll. @bike_bakery
BOTECO DA DRI. O clima de botequim desembarcou no Cais do Sodré com petiscos, música ao vivo, roda de samba e disposição para esticar a conversa. O bar tem o carioca Renato Santos como sócio e pratos bem brasileiros, como coxinha e picanha. @botecodadri
CALMA. O bar de vinhos aberto em 2024 no Largo Agostinho tem preparos na brasa para acompanhar os rótulos. Ideal para o jantar e almoços demorados aos fins de semana. @calma_lisboa
CERQUEIRA. Uma antiga tasca lisboeta ganhou novo fôlego com uma equipe brasileira e a cozinha de Ângelo Lellis, que trabalhou nos extintos Laguiole e Puro. Na Calçada de Santana brilham delícias como o bolovo de bacalhau e o mate da casa. @restaurante.cerqueira
CÍCERO. O restaurante-galeria homenageia o modernista Cícero Dias e tem direção criativa de Alessandra Montagne. No menu degustação de nove tempos, insumos como rapadura, carne seca e frango com quiabo ganham toques de alta gastronomia. @cicerolisbon

CANALHA. Com passagem pelo Lasai, a chef carioca Lívia Orofino aplica a experiência da alta gastronomia a uma cozinha de espírito informal. Indicado como Bib Gourmand no Guia Michelin e com uma condecoração no Guia Repsol. @restaurantecanalha
ENSO. O ambiente descontraído tem 37 lugares, entre mesas e balcão, de onde se acompanha o trabalho dos sushimen. A cozinha também manda sugestões quentes, como o sanduíche de atum empanado e a enguia com arroz cremoso. @enso.lisboa

GUIMAS CASCAIS. Um pedacinho da Gávea atravessou o Atlântico pelas mãos de Domingas Mascarenhas e Marcelo Azeredo. À mesa, clássicos conhecidos dos frequentadores do endereço carioca ajudam a completar a sensação de estar em casa. @guimascascais
PALAPHITA. O quiosque que marcou época na Lagoa encontrou abrigo à beira-mar em Cascais. A cozinha de referências amazônicas dialoga com ingredientes portugueses. Música e programação cultural integram a experiência. @palaphita

RYOSHI. O carioca Lucas Azevedo se mudou para Portugal ainda adolescente e encontrou no Cais do Sodré o endereço para seu projeto autoral. A culinária japonesa aparece em proposta descontraída, rendendo ao negócio um sol no Guia Repsol. @ryoshi_lisboa
MAGNOLIA. Na Praça das Flores, em Lisboa, a carioca Camila Martins transformou uma antiga padaria em ponto de encontro para cafés, taças de vinho e refeições sem pressa. @magnolia_lisboa
MERCEARIA GADANHA. Michele Marques, de Petrópolis, fincou suas raízes gastronômicas em Estremoz, no Alentejo. A casa valoriza ingredientes e tradições da região sob um olhar contemporâneo. O projeto conquistou um sol no Guia Repsol. @gadanhamercearia
SULT CASCAIS. A cozinha italiana de Nelson Soares ganhou sotaque português. Produtos locais entram em receitas que preservam a identidade da casa, como o pappardelle ao ragu de porco preto e a costela de vitela. @sult.cascais
O BOTECO. O chef Kiko Martins revisita os sabores da infância em pleno Chiado. Coxinhas, dadinhos de tapioca, feijoada e picanha na brasa compõem a homenagem à cozinha brasileira. @oboteco.kikomartins







