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Que seja doce: abelhas nativas encantam chefs e ganham áreas de proteção

Vitais para o meio ambiente, as abelhas sem ferrão produzem um mel de sabor único e podem ser visitadas em diversos pontos da cidade

Por Pedro Landim Atualizado em 20 abr 2022, 09h08 - Publicado em 14 abr 2022, 09h00

A caixa colada à porta de entrada da Babbo Osteria é pequena e suas moradoras, ainda menores, apesar da des­medida relevância de seu trabalho em prol do meio ambiente. Não fosse a plaquinha na parede apresentando os insetos, talvez poucos clientes notassem, na fila de espera, o tráfego aéreo das melíponas, como são chamadas as nossas abelhas nativas sem ferrão. Sim, elas têm certidão de nascimento brasileira, são inofensivas e produzem um mel de textura e sabor que encantam os melhores cozinheiros da cidade e protagonizam receitas esmeradas.

“Era um desejo antigo ter uma dessas colmeias”, diz o chef Elia Schramm, à frente do concorrido reduto italiano. A ação ecológica responsável pela instalação no restaurante de Ipanema já levou a mesma casinha de madeira, com arestas de 20 centímetros e capaz de abrigar 3 000 representantes da espécie, para uma centena de restaurantes de São Paulo. No Rio, a próxima parada, em parceria com a Associação de Meliponicultores (AME-Rio) da cidade, é a padaria Slow Bakery, e mais dez endereços terão uma semelhante até o fim do ano.

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O sonho da colmeia própria: Elia Schramm instalou a sua na porta da Babbo Osteria -
O sonho da colmeia própria: Elia Schramm instalou a sua na porta da Babbo Osteria Daniela Dacorso/Divulgação

Com algumas espécies ameaçadas de extinção, estudos da Organização das Nações Unidas vêm reforçando o papel das abelhas para o ecossistema. Elas são responsáveis pela reprodução de 90% das plantas com flores e 75% dos vegetais que nos alimentam. E as espécies nativas, como a mandaçaia, a tiúba e a jataí (essa última a escolhida para os restaurantes, entre as cerca de 300 espécies catalogadas no país), cumprem função única na preservação da flora brasileira — um trabalho que a Apis mellifera, de origem africana e dominante na paisagem com suas famosas listras pretas e amarelas, não consegue realizar.

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“Queremos que as pessoas entendam um pouco mais sobre esse universo e percam o medo que somos ensinados a sentir desde crianças”, afirma Eugênio Basile, à frente da iniciativa. Além da produção de alta qualidade na fazenda da família em Atibaia, em São Paulo, o apicultor mobiliza cinquenta produtores de doze estados que vendem a produção pela internet através da marca Mbee.

Vieiras e mexilhões com mel: obra de Camilo Vanazzi para o menu do rooftop do Emiliano -
Vieiras e mexilhões com mel: obra de Camilo Vanazzi para o menu do rooftop do Emiliano Tomás Rangel/Divulgação

De inúmeras qualidades medicinais, sabores surpreendentes e complexidade aromática, o mel nativo tem produção limitada, uma joia gastronômica rara. Enquanto de uma Apis são extraídos 25 quilos por ano, as melíponas não ultrapassam os 5. Uma caixa como as dos restaurantes não fabrica mais de 300 gramas de mel anuais, e ele naturalmente custa caro: 100 gramas giram em torno de 60 reais.

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Se os índios guaranis já o veneravam em rituais religiosos e terapias medicinais, o produto hoje arrebanha fãs como os chefs Alberto Landgraf, do Oteque — que utiliza também o pólen, ácido e semelhante à mostarda —, Felipe Bronze, Nathalie Passos e Roberta Sudbrack. “Depois que conhece, você vicia, porque tem aquelas notas de fermentação e picância incríveis, um produto infinitamente diferente, e cada um traduz de certa forma um pedaço do nosso terroir”, avalia Roberta.

A cozinheira rega uma berinjela orgânica na brasa com tucupi preto e mel da tiúba, na composição de um dos pratos de maior saída do restaurante Sud, o Pássaro Verde, no Jardim Botânico. No terraço do sofisticado Emiliano, em Copacabana, o chef Camilo Vanazzi introduziu o produto nos novos pratos do menu do jantar, que funciona de quarta a sábado na cobertura do hotel. No capítulo das entradas, figuram vieiras e mexilhões glaceados no azeite de ervas com musseline de mandioca, crocante de guanciale, aspargos e mel nativo cítrico.

A popularidade desses pequenos insetos ecoa ainda em projetos como o meliponário do Jardim Botânico, que reabriu no ano passado exibindo nove espécies. “Você vê o deslumbramento das pessoas ao saber que são inofensivas. Tem gente que veio aqui e depois virou até criador”, conta a engenheira agrônoma Maria Lucia Moscatelli, que começou a resgatar ninhos de abelhas de árvores caídas em vendavais e conseguiu um espaço ao lado do orquidário para depositar as colmeias.

Arte Mel

Placas foram instaladas em altura baixa para as crianças, repletas de fotos e informações. Ali, dá para acompanhar de perto espécies como a uruçu-amarela, grande e dourada, incomum em áreas urbanas e sucesso em fotos e vídeos nas redes. O plano pós-pandêmico é voltar a coletar o mel e servir amostras aos visitantes, que podem avistar essas abelhas em mais de uma dezena de áreas de preservação e parques como o da Catacumba, de Marapendi e Chico Mendes. No Morro da Urca, por exemplo, é oferecido um tour que abrange as colmeias, em parceria com a AME-Rio.

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A entidade conta com 160 associados, a maior parte criadora de abelhas por hobby, com fins de preservação ou produção caseira de mel, e auxilia projetos de agricultura, um deles em Santo Aleixo, bairro de Magé, na Baixada Fluminense. Por lá, as abelhas ajudaram a aumentar a produção em cerca de 30% e ainda elevaram a qualidade de frutos e vegetais. Que o tratamento dispensado a esses pequenos seres voadores seja tão doce quanto a contribuição que dão à humanidade.

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