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O piano-bar está diferente: a vez dos bares de audição

Na esteira do sucesso mundo afora dos listening bars, novos endereços cariocas colocam a boa música como protagonista do menu

Por Pedro Landim
19 jan 2024, 06h00

Comer, beber, ouvir. Esta é a nova ordem que partiu do outro lado do planeta, ecoou pelo mundo e veio dar as caras, ou melhor, as caixas na paisagem noturna carioca, com as inevitáveis adaptações. Tramado no Japão, o conceito de listening bar propõe uma espécie de balada zen onde a ideia é falar menos e escutar mais, através de aparelhagens de primeira linha que valorizam os discos de vinil, caixas de som privilegiadas e acústica planejada para servir a música em perfeita definição. Os ambientes charmosos, intimistas e de luz baixa são ocupados em geral por um público acima dos 30 anos que aprecia o conforto, embora os bares de audição por aqui dispensem os roteiros orientais e aceitem rebolados esporádicos à frente dos DJs. A chegada do Celeste, ancorado em belo casarão do século XIX, reforça a tendência de endereços como o Flora, em Copacabana, e de outros bares que, embora não sigam o conceito à risca, a exemplo do Alba e do Elena, investem no protagonismo do som em cenários contemplativos onde comida e bebida estão a cargo de nomes premiados da gastronomia.

Para a psicanalista Júlia Chindler, de 29 anos, que curtia a noite no Celeste com o marido, Felipe Corrêa, 39, e a amiga Mari Bernal, 28, trata-se de uma experiência nova e diferente: “Não é playlist de aplicativo ou show, mas um DJ tocando raridades para você, sentindo a energia do lugar e das pessoas”, conta. Mesmo com o assunto animado, volta e meia ouviam-se pelas mesas exclamações como: “Essa música é incrível!”. A casa da Rua do Lavradio tem caixas de som feitas a mão pela empresa Core Sound System ressoando coleções de vinil de DJs como Gustavo Keno e Marcelinho Da Lua, entre os muitos que já passaram por lá desde a inauguração, em outubro. “O ambiente é projetado para que a música se destaque, mas que as pessoas consigam conversar. Estamos formando um novo público, mas de vez em quando alguém levanta para dançar”, diz o DJ Nepal, sócio a cargo da curadoria musical do Celeste. Enquanto isso, circulam por lá drinques e petiscos bolados pelos premiados Frederico Vian e Lucio Vieira, respectivamente, barman e chef do ano no prêmio VEJA RIO COMER & BEBER em 2022.

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Ambiente de semelhante vocação ao relaxamento e aos encontros a dois, com a vista do mar de Copacabana pelas janelas, o Flora de Copa, no topo do hotel Selina, também investiu no conceito com destaque para a mesa de som, posicionada no meio do salão para receber nomes como o DJ Nyack, parceiro e produtor do rapper Emicida. “No fim da pandemia, o ambiente da audição se tornou perfeito para as pessoas se encontrarem, unindo gastronomia e coquetelaria de qualidade à música”, opina Lucas Harfield, CEO da Menu, empresa que produz as noites do Flora. À frente do equipamento sonoro do local, por sinal, está o mesmo nome responsável pela estrutura instalada no Celeste e em outros bares do gênero aqui e em São Paulo: o francês Craig Ouar, sócio da Core Sound System, construtora das cultuadas caixas de madeira que ecoam em boa parte desses endereços, e também DJ. “Nesses ambientes gosto de tocar músicas experimentais, folk e contemplativas. Tenho sempre comigo discos do grupo Uakti e de André Geraissati”, diz Craig, citando os cultuados instrumentistas brasileiros.

As escolhas de sonoridades menos óbvias são características dos bares que cultuam o som de qualidade pelo mundo afora, presentes da Cidade do México a Tel Aviv. Muitas vezes oriundos do mercado musical, os proprietários reconhecem e prestam reverência aos pioneiros do Japão, onde os estabelecimentos eram chamados no início de “jazz cafes” ou “record bars”. O país oriental é, de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), o segundo maior mercado para a música no mundo, atrás dos Estados Unidos. Em Tóquio, destacam-se endereços como o Bar Martha, praticamente um estúdio de música que serve drinques. O radicalismo da proposta, por sinal, faz o local ser mal classificado por brasileiros nos sites de avaliação turística, com relatos de garçons que mandam sem pudor os clientes ficarem quietos. Em Nova York, o Public Records é uma prova do alto nível almejado pelos bares de audição: os sócios contrataram a Arup, empresa que fez o projeto acústico da célebre Sydney Opera House, na Austrália. E o Rhinoçéros, de Berlim, tem apenas um toca-discos onde deslizam os vinis de jazz tocados inteiros, dos dois lados, para uma audição atenta do início ao fim.

A música por aqui segue caminhos de maior descontração, com a busca da qualidade sonora acompanhando modernas instalações multimídia no salão. É o caso do Alba, em Botafogo, que criou no bar um lounge com projeções na parede, por onde circulam petiscos do chef Meguru Baba (do Coltivi) e drinques de Tai Barbin (do Liz Cocktails & Co). Desde maio no Horto, o Elena reserva dois de seus quatro ambientes a bares onde a música se destaca, com projeções do artista visual Batman Zavareze e DJs de repertórios variados para emoldurar os sabores asiáticos do chef Itamar Araújo (ex-Copacabana Palace) e os coquetéis de Alex Mesquita, um dos mais premiados do Brasil. “Desde a época áurea dos pianos-bares, a música é um ingrediente que influencia diretamente no bem-estar dos clientes, e essa é uma tendência que só vai crescer por aqui”, afirma Alex. Som na caixa, DJ.

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Qual é a música?
Os estilos que dominam a programação sonora

Flora
Rua Almirante Gonçalves, 5, Copacabana
O time de DJs que já tocou no salão tem nomes como Nyack, Facchinetti e Ubunto. A chamada world music se destaca, mas os gêneros variam de acordo com o convidado.

Alba
Alba: projeções enfeitam a atmosfera ao som dos DJs (./Divulgação)

Alba
Rua Martins Ferreira, 60, Botafogo
O bar conta com o DJ Marcelo V’R como residente, e há noites de música eletrônica com Léo Janeiro e o duo Tropicals. Rodrigo Pena agita as tardes de domingo em janeiro.

Celeste
Celeste: o ambiente é pensado para a qualidade sonora dos vinis (./Divulgação)

Celeste
Rua do Lavradio, 11, Centro
No conceito estrito de bar de audição, a casa recebe nas quartas de janeiro Marcelinho Da Lua, que toca raridades em vinil.

Elena
Elena: coquetelaria de Alex Mesquita com trilhas caprichadas (Tomás Rangel/Divulgação)

Elena
Rua Pacheco Leão, 758, Horto
Com coquetelaria destacada e cozinha asiática, há eventos semanais dedicados aos discos de vinil, e terça-feira é noite de jazz ao vivo no segundo andar.

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