Celulite? Oba!
Quando Fedegunda apareceu na minha vida eu devia ter uns 18, 19 anos. Ela era pequena, bem pequena, ninguém a notava. Eu não a notava. O tempo passou e Fedegunda começou a mostrar a que veio, e ela tinha vindo para ficar. Cresceu, ganhou corpo e fincou bandeira no terreno localizado na parte inferior da […]
Quando Fedegunda apareceu na minha vida eu devia ter uns 18, 19 anos. Ela era pequena, bem pequena, ninguém a notava. Eu não a notava. O tempo passou e Fedegunda começou a mostrar a que veio, e ela tinha vindo para ficar. Cresceu, ganhou corpo e fincou bandeira no terreno localizado na parte inferior da minha nádega direita. O que era um insignificante relevo (o que as revistas femininas chamam de “casca de laranja”) virou cratera de vulcão em questão de anos. Anos de sedentarismo, doces, frituras, pizzas, refrigerantes, chopinhos, pães, empadas (ai, ai, empadas!) e tudo o mais de gostoso que a vida tem a oferecer. Fedegunda virou minha celulite de estimação.
É, eu me apeguei à Fedegunda. Passei a gostar de verdade dela. Fedegunda faz parte da minha história, Fedegunda faz parte de mim. Então, em vez de chamá-la de celulite, eu a chamo de… covinha. Sim, a minha bunda tem covinha. A minha bunda sorri. O que eu posso fazer? Ela é feliz, deixa ela!
Fedegunda virou um problema quando resolveu procriar. E celulites se proliferam como coelhos. Em pouco tempo vi a parte inferior do meu corpo ser invadida por buraquinhos indesejados, pelos quais eu não tinha o menor apreço. Poxa, eu não tinha por eles o carinho que eu tinha por Fedegunda, eles não fizeram faculdade comigo, não foram à praia comigo tantas vezes, não estavam comigo quando escrevi meu primeiro livro… Eram buraquinhos que não significavam nada, buraquinhos intrometidos, não deviam estar ali.
Faz dez anos que descobri a ioga. As aulas mudaram meu corpo. Eu era franzina, esmirrada, fraquinha, vivia com torcicolo e dor nas costas. De repente, adeus, sarjeta, a ioga me salvou! Hoje sou capaz de fazer posturas acrobáticas e flexões de braço como macho, sem apoiar os joelhos no chão. E isso sem puxar um ferrinho. Há pouco mais de um ano comecei a malhar e me apaixonei pela caminha elástica, pela corrida, por spinning, e nem xingo tanto minha personal na hora de levantar peso. Também virei adepta da tão endeusada drenagem linfática, que promete desinchar e diminuir as celulites.
Mas as minhas são resistentes. Elas gostam mesmo de mim. E continuam lá, firmes e fortes, fazendo a festa na minha bunda e nas minhas coxas. A minha alma de Pollyanna acha que elas diminuíram, e, quer saber?, isso me basta. Não ando olhando pra bunda. Só uso a bunda pra sentar, caramba!
É bacana ter uma bunda lisinha? É, claro que é. Deve ser ótimo pra Sabrina Sato ter a bunda que ela tem. Assim como deve ser ótimo ter o cabelo e a cintura dos seus sonhos. Mas a vida não é assim. Algumas pessoas têm a cara linda e o corpo feio, outras têm o corpo feio e a cara linda, outras têm tudo lindo e o caráter duvidoso… O importante é ser feliz com o que temos.
E eu sou feliz com Fedegunda. Muito feliz. Agora, prestes a ser rainha de dois blocos de Carnaval (o Empolga às 9 e o Exalta Rei), sei que ela estará comigo, cheia de gás para mais uma jornada momesca. A covinha me acompanha há tantos carnavais que posso garantir: essa coroa é dela também! Vai ser difícil saber quem sorrirá mais durante os desfiles: ela ou eu.
Esse meu desabafo celulital tem um objetivo: fazer com que a mulherada desencane. Mulheres do Brasil, celebrem suas celulites! Afinal, como diz meu amigo Leo Jaime, celulite quer dizer “eu sou gostosa” em braile. Viva a Fedegunda!





