Loucura mansa
Nem bombons, nem flores. Livros. Seja Natal, aniversário, seja simplesmente para demonstrar amizade e afeto. Afinal, bombons engordam, e flores, murcham, enquanto o livro viverá para sempre, além da estante e mesmo longe da presença do leitor: numa outra sala, outra cidade, outro país, outro planeta. Pronto a oferecer seu mel, que o tempo não […]
Nem bombons, nem flores. Livros. Seja Natal, aniversário, seja simplesmente para demonstrar amizade e afeto. Afinal, bombons engordam, e flores, murcham, enquanto o livro viverá para sempre, além da estante e mesmo longe da presença do leitor: numa outra sala, outra cidade, outro país, outro planeta. Pronto a oferecer seu mel, que o tempo não dá cabo e a morte não alcança. Sim, vamos morrer, mas os livros ficarão testemunhando nosso interesse e nossa gula pelo prazer e o conhecimento. Por isso, não há presente mais generoso, que tudo oferece e nada pede, permanecendo, silenciosamente, à espera da nossa atenção.
Drummond, em visita a um sebo, escreveu: “O sebo é a verdadeira democracia, para não dizer: uma igreja de todos os santos, inclusive os demônios, confraternizados e humildes. Saio deles com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de palavras, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.”
Pois foi procurando um livro na estante, que eu encontrei um que não procurava, como tantas vezes acontece. Por onde andava ele? Certamente me olhando do seu nicho, apertado entre outros. Chama-se A Paixão pelos Livros, uma Edição da Casa da Palavra, de 2004. Que feliz reencontro! Nem me lembrava do seu encantamento.
Em meio a crônicas, contos e depoimentos, sobre a importância do livro em nossas vidas, assinados por Flaubert, Petrarca, Milton, Montaigne e William Saroyan, entre outros, há uma pequena, antologia de reflexões sobre o tema.
Não sei se ainda pode ser encontrado em alguma livraria, mas deixo aqui, como presente aos meus possíveis leitores, um pouco do seu mel e da sua sedução.
”O livro faz parte da casa, da comida, da experiência, da maternidade, do cotidiano”. Adélia Prado
“Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante”. Clarice Lispector
“Quer amigos, procure nos bons livros: eles são os amigos verdadeiros, que não bajulam ou dissimulam”. Francis Bacon
”Quando penso em todos os livros que ainda posso ler, tenho a certeza de ainda ser feliz”. Jules Renard
”Escondidas no silêncio da biblioteca, mascaradas pela escura monotonia das capas, todas as palavras estavam lá, esperando que eu as decifrasse. Eu sonhava me enfurnar naqueles corredores poeirentos, e nunca mais voltar”. Simone de Beauvoir
”Há o prazer intelectual da leitura, e o prazer físico do contato com o livro. Falo sempre da loucura mansa, e posso assegurar que não é só mansa: é também prazerosa. Sugiro a quem ainda não a tenha, que procure contraí-la.” José Mindlin
”Uma casa sem livros é como um corpo sem alma.” Cícero.
Jorge Luis Borges deixou sua devoção pelo livro num pequeno depoimento, que eu uso para encerrar esta crônica: “Sempre imaginei o Paraíso como uma grande biblioteca.”
Feliz Ano Novo!








