E o Bento?
Durante a semana, algumas pessoas me perguntaram se o Bento reaparecera. Lembram-se dele? Lembram-se da minha crônica de duas semanas atrás, quando esse novo companheiro do Severino sumiu de vista? Pois bem: para a alegria dos muitos amigos anônimos que conquistou, informo que, sim, ele reapareceu. — Caramba — exclamou ele, quando soube do interesse […]
Durante a semana, algumas pessoas me perguntaram se o Bento reaparecera. Lembram-se dele? Lembram-se da minha crônica de duas semanas atrás, quando esse novo companheiro do Severino sumiu de vista? Pois bem: para a alegria dos muitos amigos anônimos que conquistou, informo que, sim, ele reapareceu.
— Caramba — exclamou ele, quando soube do interesse despertado. — Não pensei que iria preocupá-los! Nem que desconhecidos se interessassem por mim! Fico até comovido!
E contou uma história sem detalhes e… sem veracidade. Uma dessas histórias que se contam para não contar nada. Ou apenas para ocupar o lugar de uma história verdadeira. Uma “desculpa esfarrapada”, como dizia minha mãe.
Todos nós percebemos que o que ele dizia não colava, não convencia, mas… pensem bem: se ele estava ali, vivo, depois de tanto nos preocupar, o que queríamos mais? Afinal, quem não comete pequenas mentiras? Inocentes, desde que não prejudiquem ninguém? Já comentei com vocês: tenho uma pequena série de histórias curtas, a que dei o nome “A verdade é que eu minto”. Lembram-se? Bem, não era hora de discutir sobre a veracidade do que ouvíamos.
Era hora de comemorar o final feliz do acontecimento.
— Vamos festejar — bradou o Raul, já pedindo o vinho e perguntando objetivamente, assim, do nada:
— Quem já leu o livro Maria, do jornalista Rodrigo Alvarez?
— Eu estou lendo — bradei, entusiasmado. — Estou gostando muito. Nunca a Virgem Maria teve uma biografia tão completa e humana! Apesar de ser, na minha opinião, a personagem mais fulgurante e enigmática do cristianismo.
— Mais do que isso — palpitou o Bento, abrindo a boca pela primeira vez. — Afinal, não é fácil passar à história como a mãe de Cristo, o que significa ser — para muitos — a mãe de Deus!
Fez-se um súbito silêncio, como se essa revelação — ela ser a mãe de Deus — estivesse sendo feita pela primeira vez e nós fôssemos as primeiras testemunhas dessa afirmação.
— Mas são histórias que nem sempre significam…
— São dogmas — cortou alguém, com a segurança da fé.
— Carecem de provas. Estão acima da verdade.
— Calma — cortou o Raul. — Nada deve estar acima da verdade.
Foi quando interrompi:
— Paremos por aqui.
Meus prováveis leitores sabem que discussões sobre religião quase sempre não levam a nada. Em vez de trazerem luz, fazem aumentar a escuridão.
— Religião, política e futebol! — afirmou Carla.
Todos nós rimos — ou, pelo menos, sorrimos — ao ouvir essa afirmação antiga, que joga para baixo do tapete as verdades incômodas que muitas vezes nos assaltam.
Carla estava mesmo inspirada e, mais uma vez, fez graça:
— No caso do futebol, a única verdade incontestável é a que afirma que o Flamengo faz o melhor futebol do mundo.
Caímos no vinho e no queijo, encerrando a reunião. Alguém perguntará: e a história do Bento, quando conheceremos?
— Talvez na próxima crônica.
— E o jogo que iam jogar?
— Jogamos, não perceberam? A palavra-chave foi Maria, a mãe de Deus.






